Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – Algazarra Total

Algazarra Total

O Regional anda a revelar-se fantástico. É um autêntico viveiro de histórias. Além de ser mais concorrido, é, sobretudo no regresso, ao final da tarde, muitíssimo ruidoso.

Um dia destes, julguei que estava num manicómio. Foi a algazarra total. À minha frente-direita, uma velhota com a testa toda cosida a queixar-se da queda e do hospital e dos sapatos e da velhice. À minha frente-frente, uma velhota silenciosa que não parecia daquele comboio. Tinha um pequeno saco de viagem aos pés. À minha frente-esquerda, dois tipos a falar de futebol. Ao meu lado esquerdo uma moça toda jeitosa com um ar compenetrado. Atrás de mim, uns tipos a falar de política. Mais à frente umas mulheres a vender acessórios. Eram pulseiras, colares, etc… Em pé, uma carrada de jovens a falar da escola e do Intercidades. Num curto espaço de tempo vários telemóveis tocaram. As pessoas atenderam e falaram alto. De repente, o telefone da rapariga com ar compenetrado tocou e parecia uma filarmónica, ela atendeu e começou a falar muito entusiasmada, aos gritos ao telefone, com a carruagem toda a ouvir a conversa. Umas pessoas mudaram de lugar e as que se sentaram no lugar delas, ao pé de mim, começaram a falar do trabalho e a rir-se muito alto. E a do telefone falava cada vez mais e mais alto. E foi então que fiz um juízo de valor precipitado e Deus Nosso Senhor, que tudo vê e sabe, castigou-me de imediato. Pensei, Tirando eu e a velhota silenciosa, isto vai aqui uma algazarra quase total. Esta malta fala, ri, grita, e só nós dois é que nos portamos bem. Ainda não tinha acabado de pensar isto e o meu telefone começa a tocar, parecia que o queriam matar. Atendi. Mas o efeito do toque do meu telefone ainda não tinha terminado e fez-se sentir. Dentro do saco de viagem que a velhota silenciosa levava aos pés começa um cão a ladrar muito alto e muito esganiçado. A carruagem desaba a rir e as pessoas a comentar. Eu acho que o cão queria atender o meu telefone. O bicho lá se calou. Eu também. A velhota também. Os outros todos, incluindo a esganiçada ao telefone, redobraram esforços para fazer a algazarra… total!

jpv


2 comentários

Not

Not

Os teus lábios
Na minha boca,
Louca.
Na minha língua,
À míngua.
As tuas mãos
No meu peito,
Feito.
No meu sexo,
Perplexo.

Podia ter sido
Tudo isso.
Mas não foi.
Foi o olhar
Incendiado,
O sorriso
Rasgado
Que me atiraste
Ao passar.

Foi essa
Promessa
Por cumprir.
Foi essa
Promessa
Não saciada,
A ténue distância
Entre tudo e nada,
Que me incendiou
E me deixou a arder
No lume brando
De não te ter,
Na impossibilidade
De te esquecer.

jpv