Monthly Archives: Março 2012
A Tale of Two Brains
O Ofício da Memória – Apresentação
(Foto gentilmente cedida por Kissa Mystha)
Apresentação
Caros Leitores,
Ainda este fim-de-semana darei início à publicação do conto “O Ofício da Memória“.
Um texto breve, a ser publicado em 3 lotes de capítulos intitulados “Ela“, “Ele” e “Eles“. Uma viagem ao passado das personagens, em jeito de revisitação e reconstrução. É a primeira vez, ou das primeiras vezes, que assumo a narração de uma personagem muito mais velha do que eu. Um desafio a requerer uma escrita muito meticulosa e, como sempre tento, de grande sensibilidade. A ver vamos se consigo…
Tentei assumir diversas perspetivas na luta contra o esquecimento, na recuperação dos tesouros e dos fantasmas do passado, na superação da inexorabilidade do passar do tempo.
Espero que venham a gostar.
Até já!
jpv
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Nota:
Agradeço à Rute, também conhecida como Kissa Mystha, pela gentil cedência de uma das suas fabulosas fotos que eu depois manipulei para colocar o título.
Frases que, ditas fora de contexto, podem tramar quem as disse.
Por causa dA Dívida – IV
Frases que, ditas fora de contexto, podem tramar quem as disse.
O Clã do Comboio – Este País Não É Para Jovens
Este País Não É Para Jovens
O texto que hoje vos trago sobre o Clã do Comboio não é bem um texto meu. Resume-se, quase integralmente, a uma conversa telefónica que só ouvi metade na medida em que, naturalmente, não conseguia ouvir quem falava do outro lado. Mais uma vez, não farei juízos de valor. Deixo a história e os leitores ficam, assim, com a liberdade total para os fazerem sem estarem influenciados pela minha visão dos acontecimentos.
Era uma rapariga nova. Teria vinte e quatro ou vinte cinco anos. Não mais. Morena, com o olhar cansado, uma blusa com um decote redondo e discreto, um blusão de ganga e umas calças do mesmo material. Vestia de forma prática e ia a dormitar com a cabeça encostada à parede do comboio. Como também gosto de ir junto à janela porque posso colocar o telefone e o passe no rebordo dela, sentei-me de frente para a rapariga. Pouco depois de iniciarmos a marcha, o telefone dela tocou e a conversa aconteceu mais ou menos nestes termos:
– Olá, tudo bem? Tudo bem… vai-se indo como se pode e vocês? Ainda bem… como? Não. Desta vez não faço. Um dia de greve custa-me uns vinte cinco a trinta euros e ainda este mês tive outro corte… desta vez foi no subsídio de alimentação. Vi que faltava outra vez dinheiro e fui ver o recibo… já é o terceiro corte em muito pouco tempo… sim… sim… eu sei, mas como sabes o meu marido está desempregado… ele bem se esforça… não posso dizer que não tenta, entrega currículos por tudo o que é sítio… um dia destes disseram-lhe, Tomara eu sustentar os que cá tenho sem despedir ninguém, quanto mais meter mais gente… isto está muito mau. Somos um país de desempregados e infelizmente o azar já bateu à nossa porta… pois… pois… olha o menino agora precisa de uma pala para andar com um olho fechado e depois vai precisar de óculos… não, não tenho, mas a minha avó vai-me emprestar, aliás se não fosse a minha avó e a minha sogra nós não aguentávamos o mês… sim, ainda… num fim de semana vou ficar à minha sogra, no outro vou ficar à minha avó. Tem de ser assim, senão não conseguíamos… fazes bem… temos de aproveitar as pequenas coisas, caso contrário vivemos uma vida parva… sim… sim… eu sei… este país não é para jovens. Um dia destes… sim… beijinho. Tchau tchau.
jpv
O Clã do Comboio – Diversidade Subúrbio-Regional

Diversidade Subúrbio-Regional
Um dia destes, com algum propósito, o tipo careca a que chamamos Álvaro fez notar que as diferenças que vou registando entre o interregional em que andava e o regional em que ando poderiam ter a ver com o facto de, parte do percurso, ser suburbano. Não podia ter mais razão, o tipo careca a que chamamos Álvaro. Por diversas razões, sendo a principal delas a composição da fauna. Outra, não menos interessante, é o ritmo da viagem num comboio em que dois terços dos passageiros fazem um percurso curto, não superior a trinta minutos. Chamo-lhe Subúrbio-Regional porque, servindo os subúrbios, não deixa de ser um serviço regional. Entre Santa Apolónia e Azambuja, o comboio é claramente suburbano. Depois de Azambuja é tal e qual como se fôssemos no interregional. Muda o aspeto das pessoas, muda o ritmo delas, a forma como se comportam e a própria composição da carruagem.
No trajeto suburbano impera a multiculturalidade, a diversidade étnica, social, financeira, da moda e dos hábitos e rituais. Há muitos executivos de fato e gravata com pastas e tablets a sair de lá de dentro. Há muitas executivas de saia travada e casaco de fazenda, há mulheres cosmopolitas, de aspeto eminentemente urbano, e há as senhoras que vêm fazer limpezas a Lisboa numa companhia com bata e emblema, e há os operários que se juntam em magotes de seis e falam de mulheres e futebol, há os jovens a abanar a cabeça ao ritmo do que vai a estrondear nos phones, vindos da escola de mochila às costas. E todos eles se sentam com rapidez nos gestos e os que ficam de pé, ficam só de pé, como se fosse um autocarro ou o Metro. E, como entram em revoadas, em revoadas buliçosas saem e deixam o comboio semi-deserto.
E, depois de Azambuja, volta a calma das pessoas que dormem encostadas à parede lateral do comboio, das que leem à vinda o romance da ida, dos pequenos grupos unidos por entrarem ou saírem na mesma paragem, no fundo, daqueles para quem a viagem de comboio não é um pequeno e fugaz trajeto, mas uma viagem a requerer paciência.
É como se no regional houvesse dois clãs. O fugaz suburbano e o paciente subregional. A mim, o que me agrada em tudo isto, é algo que sei muito bem o que é, mas quase impercetível, quase impossível de detetar: a diversidade subúrbio-regional.
jpv
Sensual Idade

Sensual Idade
Tu, onda bramindo no mar do meu peito,
Tu, encapelada pelo desejo eleito,
Tu, de olhar errante e alma perdida…
Tu…
Estás sempre na minha vida!
Às vezes memória distante,
Às vezes gaivota suave deslizando no céu,
Às vezes mar bravio,
Às vezes sedução,
Às vezes paixão,
Às vezes amizade,
Às vezes cumplicidade,
Às vezes entrega,
E às vezes zanga,
Sempre e só, o teu amor,
Sem ordem nem regra.
O tempo passou.
Os dias, os meses, os anos…
Ficou só a linha sensual do teu corpo
Desenhando enganos
No meu desejo.
Um afago,
Uma carícia,
Um beijo…
Os teus olhos nos meus,
O meu corpo no teu,
Em posse ritmada
De fantasia e verdade.
Eu e tu,
Vivendo a sensual idade!
jpv






