Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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"Com Amor," – Documento 15

Desculpa, Rui, se te magoei ou ofendi. Em todo o caso temos aqui um problema. Tu disseste que eu era tua amiga. Ora, os amigos dizem o que pensam uns aos outros. Eu sinto que Deus é uma fraude porque fui sempre abandonada por ele. Nunca me sobreveio. Até pelos filhos, Rui, até por eles tive de lutar. Lamento que possa magoar-te, mas se eu não posso escrever-te o que sinto e penso, então que sentido faz continuarmos a conversar?

Vivi dificuldades em pequena, Rui. Talvez todos as tenhamos vivido. As minhas foram agravadas pelo temor a Deus. Pelo medo constante do castigo, por decorar orações cujo significado desconhecia, por praticar rituais de obrigação, por ser tocada, ainda menina, pelas mãos do padre sabujo e ter de calar porque ele era Deus e eu seria uma mentirosa se pensasse revelar o que quer que fosse. E, mesmo assim, Rui, procurei-o. Fui ao seu encontro, refugiei-me na Sua palavra. Rezei. Casei-me segundo as Suas regras e depois, Rui, foi em Seu nome que tive de calar a violência de que era vítima. Era eu ou Deus e durante muito tempo foi Deus. Até que a mulher em mim, a dignidade que restava, resolveu erguer-se. E quando me ergui, Rui, foi em nome de Deus que deixaram de falar-me, que a minha própria família me virou as costas e me negou apoio. Eu tinha crianças para alimentar, Rui.

Esse Deus que tu vês só existe nos desenhos animados da Walt Disney!

Fui eu que venci, Rui. E tive de vencer Deus na terra. E sofrer.

Verónica


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"Com Amor," – Documento 14

As desculpas eram as do título. E só. E agora já não são. Aquilo era uma brincadeira para depois conversarmos sobre o que nos dividia, mas, neste momento não quero conversas contigo.

Eu não sou um puritano, Verónica, longe disso. Mas sou crente, tenho fé e não tenho culpa das tuas desavenças com Deus. Devias engolir as palavras que escreveste. Além de não serem verdade, são um insulto. Dizes que sou atrevido porque digo que precisas de um homem, então diz-me os que és tu quando dizes que Deus é uma fraude? Sabes como se diz em inglês o que eu sinto agora? Shame on you! Podemos pôr em causa tudo o que quisermos, mas não a vida. Ela aí está todos os dias em toda a sua revelação e em todo o seu esplendor. E Deus é a vida! Deus é vida. Resolve os teus problemas, Verónica, mas não me insultes. Falaremos de sexo, de política, da sociedade, das relações entre as pessoas, da nossa profissão, de nós próprios e poremos tudo em causa. Mas não isto, Verónica, não desta maneira.

Não sei se te apercebes que a minha frase “Deixa-te de merdas”, que te provocou uma reacção puritana, não é nada em dimensão e em gravidade quando comparada com essa coisa abjecta que escreveste. “Deus é uma fraude”.

Sabes que mais? A fraude és tu que o não vês! Deixa-te de merdas, Verónica.

Até sempre.
Rui