Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

E quem liga o acordo ortográfico ao "productor"?

5 comentários

Querida mana,

quando uma manhã de sábado acorda brilhante e quente não há como resistir: sair de casa é a única solução. Um destes sábados, a manhã levantou-me da cama a ameaçar que se aí ficasse perdria um excelente dia.
Entre a pasta dos dentes, o pequeno-almoço e o entrar para o carro a coisa foi breve e lá partimos os três à descoberta dos recantos deste país que ainda são portugueses. Algures numa curva à esquerda, em plano inclinado, dou de caras com um letreiro todo janota, com uns cachos de uva pintados e cuja inscrição assim rezava: VINHO DO PRODUCTOR.
Aquele intrometido C atrás do T fez-me parar o carro e tirar uma foto, primeiro, depois começou a estorvar-me a tranquilidade da alma.
Não sei se te lembras, mas acredito que sim, aos sábados, a nossa mãe, antes de sair de casa para o trabalho, deixava sempre uma imensa lista de tarefas para cumprirmos quando acordássemos. Sempre achei, de resto, que era um contra-senso deixar-nos a dormir porque, se o fizéssemos, não tínhamos tempo para as tarefas todas e era o cabo dos trabalhos, ou não, consoante o humor. Nesses bilhetes, relembro com carinho alguns pormenores de escrita sendo que um sempre me ficou mais vivo na memória e me levou mesmo a interrogar alguns professores: “Ó setôr, como é que se escreve coêlho? É com acento não é?” E andei procurando pela juventude fora um professor que me dissesse que a mãe tinha razão, que ela é que escrevia bem. A razão desta procura é simples. A mãe era tão perfeita em tudo que eu não queria que ela falhasse na palavra coelho!? Nunca consegui essa tranquilidade até ao dia em que encontrei o PRODUCTOR.

Eu percebo o que se pretende com o acordo ortográfico. Unir povos. Unificar culturas. homogeneizar a grande diáspora portuguesa. Tudo isso está muito certo mas penso, por vezes, se não será inglório tentar homogeneizar o que não é homogeneizável. Eu vejo a Língua como um organismo vivo e percebo, por isso, que tem de evoluir mas não acredito que essa evolução deva ou possa ser artificial. Uma tal evolução deve seguir e respeitar o uso que os falantes fazem da Língua. E a verdade é que se os nossos irmãos brasileiros dizem fato em vez de facto ou diretor em vez de director e assim o escrevem, então devem ter liberdade para o fazer. Tal liberdade contudo não deve fazer tábua rasa de uma maior proximidade que nós, falantes do português de Portugal, temos em relação à origem desta nossa maravilhosa Língua: a cultura greco-romana.

Uma proximidade assim aduz um argumento que parecendo frágil pode revelar-se determinante: os nossos falantes quando dizem facto ou director sentem o C. É verdade mana, há sons que se sentem e outros que só se pressentem mas estão lá. Talvez não seja por isso que a mãe escrevia coêlho mas é de certo por isso que o produtor escreveu PRODUCTOR!

Sem querer aborrecer-te, ainda avanço um esclarecimento: produtor emana do verbo latino produco que tem o supino productum onde está o tal C. Quem escreveu o letreiro não conhecia estas minudências da etimologia mas sentiu o C! E isso é que é importante!

Eu penso, mana, que este acordo vai descaracterizar a Língua Portuguesa continental, penso que vai desbaratar uma importante herança cultural e penso, também, que causará o caos entre os aprendentes mais jovens. E é por isso que não concordo com ele.

Depois e não menos importante, se a mãe até há pouco tempo ainda escrevia coêlho e o senhor das vinhas ainda escreve PRODUCTOR, porque é que eu tenho de tirar o C ao facto?

A Língua há-de evoluir, como sempre aconteceu, mas essa evolução tem de ser determinada pelos falantes, os falantes é que são os soberanos da Língua! O que está a contecer é, a meu ver, a introdução espúria de alterações à regra que não respeitam a norma, é um processo artificial e o que é artificial, a humana mente costuma rejeitar. Já para não falar de outras motivações e complicações como, por exemplo, perceber critérios comerciais a antecipar os culturais.
E pergunto, se o acordo ortográfico é para ligar, unir, unificar, como é que se liga o productor ao acordo ortográfico?
Lembrei-me, a propósito disto, de um arrozinho de coêlho que a mãe costumava fazer…

Beijo,
mano.
Desconhecida's avatar

Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

5 thoughts on “E quem liga o acordo ortográfico ao "productor"?

  1. Desconhecida's avatar

    Olá Helga! Quem já tem agá não o perderá. Acho que isso traria problemas jurídicos inultrapassáveis como a questão das assinaturas, contratos onde o nome das pessoas vigora, etc… O que pode acontecer é tu quereres chamar Helena à tua filha e ter de ser Elena… e aí já começo a concordar contigo. Uma Helena é uma Helena. Helga há só uma! Beijinho.

    Gostar

  2. Desconhecida's avatar

    Tenho medo!

    De perder variedade, cultura, o sentido do português de Portugal.
    De perder uma identidade social que sinto e não sei explicar.

    E sendo, talvez com muita certeza, um pouco muito egoísta afirmo com a dúvida da (in)certeza que tenho medo de perder a identidade pessoal.
    É que fico sempre irritada quando (mesmo para o meu e-mail) escrevem o meu nome com “quatro letrinhas”. Lá compreendo que nas sms uma letra pode significar uns quantos mais cêntimos que as operadoras “telemobilísticas” teimam em retirar-nos mas… Permitir-me-ei ser egoísta? É que gosto mesmo mesmo muito do AGÁ!!

    E assim pergunto-me: será que no registo civil vão querer alterar o meu nome para (H)elga?
    (que horror!!!)

    O mundo ficará, certamente, mais (h)úmido de tanta lágrima cair. Dos (H)ugos, (H)elenas, (H)élderes coagidos a perderem uma parte do seu ser!

    Gostar

  3. Desconhecida's avatar

    Ora vamos lá a comentar os comentários. Delfina: tem sido um prazer reencontrar-te. Obrigado pela simpatia das tuas palavras. Tenho o teu blogue na minha lista. Espero ver-te a “alimentá-lo”. Beijinho.
    Teresa: gosto do teu humor porque não é inconsequente. Quanto a eu pensar é assim, eu tento mas nem sempre consigo… hihihi… gosto de ver-te por aqui. Beijinho.

    Gostar

  4. Desconhecida's avatar

    Já não sei o que dizer, mas uma coisa posso afirmar o rapaz pensa e pensa bem. Sentir o C. Quem imaginaria!!!
    P.S.
    O productor de vinho provavelmente tem alguma ligação com os nossos vizinhos espanhóis.
    teresa cordeiro

    Gostar

  5. Desconhecida's avatar

    à medida que te leio a minha admiração por ti vai crescendo…

    Gostar

Este é um blogue de fruição do texto. De partilha. De crítica construtiva. Nessa linha tudo será aceite. A má disposição e a predisposição para destruir, por favor, deixe do lado de fora da porta.