Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Janela

[A razão principal da guerra no Iraque não foi a questão das armas de destruição maciça, mas o afastamento de Saddam, a fim de permitir a Washington “retirar as suas tropas da Arábia Saudita e abrir caminho ao controlo global do conflito no Próximo Oriente”. A afirmação é de Paul Wolfowitz, braço direito de Donald Rumsfeld e número dois do Pentágono. Herman José é constituído arguido no caso da pedofilia. Paulo Pedroso é detido no âmbito da investigação do mesmo caso. O F.C. Porto vence a Taça Uefa na final contra o Celtic de Glasgow treinado pelo incontornável José Mourinho.

Data da primeira publicação: 16 de Maio de 2003]

A Janela
Olá manita,
Estava aqui a pensar como a Língua, mais do que uma forma de apropriação e reflexo do mundo que nos circunda, é, acima de tudo, a expressão das nossas vivências, das nossas presenças, das ausências, do que fazemos e do que deixamos por fazer. Se vires bem, os tempos verbais e até os seus modos não são mais do que ilusões, passes de magia, uma vez que o importante para cada um de nós são as realizações. É a vida. Quantas vezes o verbo deveria estar no pretérito perfeito e fica no presente, quantas estaria correcto no presente e o colocamos no futuro? Quantas vezes um substantivo não assume a força e o vigor de uma acção? Estava assim entretido nestas complexas tramas do pensamento porque me lembrei que eu tenho casa, tu tens casa, mas quando dizemos “nossa casa” não nos referimos a nenhuma delas senão àquela que nos viu a infância, que nos aturou os excessos da adolescência, aquela que nos abriu uma porta para o mundo. Na realidade, não foi bem uma porta, foi mais uma janela. Aí assomei sozinho, pensativo, vezes sem conta. Vezes sem conta alegre e exuberante. Outras, triste e acabrunhado. Aí assomaste tu sozinha com o mundo às costas, aí esteve o pai fumando o mais delicioso dos seus cigarros, aí ficou a mãe a conversar com a tia do outro lado da rua. Aí estivemos aos pares e aos trios a ver sempre quem ficava no meio no jogo divertido do empurra-empurra e aí chegou a estar a família toda, toda a vida que havia para viver à janela de uma águas-furtadas na rua Figueira da Foz em Coimbra. Dali se disse adeus aos que lá em baixo, na rua, acenavam e partiam. Dali se saudaram os que chegavam da turba para o ninho. Ver partir, ver chegar, conversar, rir, chorar, nas mais diversas combinações mas sempre com a mesma base comum: a família. Nessa janela sentimos o calor do sol de Verão pela manhã e abrimo-la de par em par. Nessa janela desenhámos corações no bafo enquanto a chuva invernia tamborilava na vidraça. Foi aí que tive a primeira negativa, foi nessa janela que concluí o meu curso, foi nela que conversei com o pai as coisas sérias de ser homem, foi nessa janela que me casei. Foi nessa janela que te contei das minhas namoradas e ouvi das tuas aventuras e rimos ambos. E lembro-me muito bem de regressar a casa no que restava da longa e fugosa noite de uma Coimbra sedutora e ver luz na janela. Enchia-se-me o peito de conforto e calor, sentia-me seguro e acelerava o passo, agora mais firme. Mais do que uma janela, era um farol de emoções, uma orientação de aportar com segurança no carinho de quem nos espera. Era chegar para quem nos esperava.
Nessa janela-porta-para-o-mundo nos empurrávamos a ver quem ficava com mais espaço e vinha sempre o aviso: “cuidado com essa janela, uma queda daí é a desgraça!” Mas caímos. Tombámos dali abaixo como quem tomba da adolescência para a vida adulta, como quem tomba do sonho ser menino para a responsabilidade de ser homem. E não há como lá voltar! Não adianta tentar trepar a parede das memórias, esgadanhar pelo passado acima. É demasiado íngreme! A janela está lá, nós é que lá não podemos voltar. A família, mana, funciona assim. Parece cruel mas não é, trata-se apenas de um ritual de preparação para a criação de novas famílias, trata-se apenas de ensinar a sofrer porque sofrer é preciso, é o melhor que podemos ter, é sentirmo-nos vivos, sempre. A família ensina-nos a amar, ensina-nos a não conseguir abandoná-la para a podermos abandonar! Esta é mãe de todas as forças, o primeiro dos ensinamentos, o amor mais genuíno porque imanente do mais genuíno sacrifício. Abandonar uma família para criar outra. O Homem no seu melhor!
Com saudade,
Mano.


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A propósito do post "Only You"

recebi um mail identificado sobre o post “Only You” e pedi para o publicar porque me pareceu breve mas muito interessante, intenso e sentido. Foi autorizada a publicação sem identificação da autora que, claro, eu conheço. É uma companheira de muitas jornadas. Aqui fica:

Olá João,
eu não gosto de comentar no blogue. sinto-me “despida”!
mas não fico indiferente à reflexão profunda que se regista nessa escrita apaixonada. escrevo-te aqui, para conversar e partilhar contigo.
a música preferida do teu pai é também um ícone da minha adolescência que a maturidade veio aprofundar no verdadeiro sentido da revelação.
hoje penso, ou melhor, sinto, que o Amor é incomensurável, não cabe na fugacidade da existência! não se aprisiona! nem se restringe ou auto-limita!
quem ama eterniza-se. e aquele que, amando, se sente amado, já encontrou a plenitude. amei ler-te.abraço-te carinhosamente.


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Mil

“Mails para a minha Irmã” está no ar desde 11 de Maio e, volvido pouco mais do que duas semanas, atingimos as mil visitas! Muito obrigado a todos os leitores.


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A senhora Deolinda

[A evocação da Revolução de 25 de Abril adquire, este ano, uma carga diferente dos anos mais recentes. Em primeiro lugar porque se prevê que o Presidente da República se pronuncie sobre a posição de Portugal no plano internacional, depois da aproximação do Governo à linha estratégica dos Estados Unidos da América. Mas também porque foram vários os colunistas dos media a sugerir uma analogia entre o que se passou em Bagdade, com a queda do regime de Saddam Hussein, e o nosso 25 de Abril de 1974. O secretário de Estado norte-americano Colin Powell justifica a morte do jornalista Jose Couso no Hotel Palestina, em Bagdade, numa carta que envia ao seu homólogo José Maria Aznar. Em 26 de Abril de 2003,J. M. Paquete de Oliveira escreve no Jornal de Notícias: “Vai murcho, muito murcho, este Abril de Portugal. Chega-se ao limite de Otelo elogiar Saddam ou não condenar Fidel. E por isso à aberração da “arquitectura mental” de José António Saraiva escrever no “Expresso” o que a liberdade de opinião permite, mas que o “Expresso”, pelo que tem feito pela liberdade, não merecia”.

Data da primeira publicação: 11 de Abril de 2003]

A senhora Deolinda

Olá manucha,
Bem sabes que, ao meu modo, sou um tanto subversivo, do género contrariar correntes, tentar a impossibilidade de pensar o impensável, roubar à memória o que ela tem e não tem para me dar… talvez por isso ou, quem sabe, por um humano impulso de sobrevivência fujo, no auge da guerra, ao assunto e venho memorar o entendimento! De alguma forma sinto que falar da guerra é alimentar a chama de uma fogueira que todos queremos extinta.
Algures, numa rua da Coimbra da aurora da década de setenta, um raio de sol vespertino bate numa vidraça e aquece uma salinha pequena e enorme. Uma cama e uma máquina de costura daquelas compridas com muitas agulhas e fios enevoam-me a memória. Dos adereços sem vida nada mais me ficou. Mas ficou-me o cheiro do café com leite, ficou-me o sabor das infindáveis torradas da Senhora Deolinda. Ficaram-me as histórias contadas como quem revela segredos, ficou-me o saber rural de quem faz perguntas mais para espicaçar a capacidade de resposta do que para testar o que quer que seja. E afinal a sua salinha não era só uma salinha, era um mundo de comunhões, eram tardes longas a perder da vida, era uma senhora viúva e uma criança de olhos vendados pela ingenuidade própria num entendimento que superava as diferenças de idade, as culturais, as cognitivas, as meta-cognitivas, os saberes experienciais, os pedagógicos, a psicologia educacional e a pedo-psicologia! E, no entanto, aprendi.
Hoje, as casas das pessoas são mais arrumadas, mais limpas e mais plásticas. Há armários, gavetas, caixas e caixinhas que servem para arrumar a desarrumação que nos ajudava em tempos a aprender porque mexíamos nas coisas. E como estão as casas, tendem, por reflexo do estilo de vida, a estar as ruas. Já reparaste que são bem menos as crianças na rua? Já reparaste que são bem menos os idosos na rua? Providenciámos-lhes caixas com todas as condições: a umas chamámos infantários e às outras lares! Olha-me a ironia deste nome: tiramo-los dos seus lares para os colocar nos lares. O mais grave é que neste arrumar cómodo de gentes que estorvam e empecilham o quotidiano separámos os Paulinhos das Senhoras Deolindas. Tirámos aos velhos a glória de ver crescer quem lhes sucedeu e roubámos aos novos o ofício de aprender com quem sabe de viver a vida. Não a vida dos tratados, das teses, das teorias e de quem sabe da vida, só a vida de quem a viveu e sabe de viver a vida. Já viste como são as coisas? Anda uma pessoa oitenta e tal anos a aprender a vida e quando podia ensinar um poucochinho dela é encarcerada num lar para seu bem! As ruas estão limpas, estão assépticas e estão estéreis! Os Paulinhos estão sentados no chão de um infantário a tentar enfiar um cubo dentro de uma caixa pela abertura correspondente, as senhoras Deolindas estão no lar a ver televisão, inertes e sem comunicar o mundo de maravilhas, milagres e dificuldades que teriam para ensinar a quem as quisesse ouvir. Os netos crescem sem nunca terem ouvido os avós, agentes naturalmente reguladores dos defeitos e dos excessos cometidos pelos pais.
E é por isto que te escrevo hoje, para relembrar a alegria de uma criança e de uma senhora viúva em torno de uma história e um pires de torradas. Aprendi o toque aveludado das suas mãos rugosas de trabalhar o campo e é como se sempre tivesse sido um camponês e soubesse os preceitos e os desvelos que a terra exige. Aprendi a doçura da sua voz e é como se sempre tivesse querido ser pacífico e calmo e nada mais fizesse sentido senão a Paz, aprendi a malandrice do seu sorriso e a maravilha das suas histórias e é como se sempre tivesse vivido aventuras de espantar. Aprendi o respeito do luto que, na altura, era para sempre. Aprendi a calma das tardes longas e aprendi que todas as coisas durante o dia têm uma ordem e um momento e aprendi, como a raposinha do Saint Exupéry, a esperar por cada momento. Mas houve uma coisa mais importante que as outras todas que a Senhora Deolinda me ensinou: quando, numa tarde morna, o sol preguiçoso e amarelado nos visita pela vidraça e convida a imaginação a desbravar mundos não há nada melhor do que uma chávena de café com leite e torradas, muitas torradas.
– Senhora Deolinda dá-me mais “tarradas”!

Beijo
Mano


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A grande insolência

[Uma sondagem da Marktest para o DN e TSF, relativo a Março de 2003, apresenta as preocupações e prioridades dos portugueses, que se posicionavam do seguinte modo: – Desemprego (28%) – Listas de espera na saúde (25%) – Equilíbrio das contas públicas (14%) – Paz social (9%) – Violência (8%) – Qualidade da educação (7%). A Federação Internacional de Jornalistas exige um inquérito imediato e completo à agressão e detenção de um jornalista e um câmara da RTP e dois outros profissionais israelitas pelas tropas da coligação anglo-americana no Iraque.

Data da primeira publicação: 28 de Março de 2003]

A grande insolência

Olá mana,
Hoje estou particularmente bem disposto e nem sei porquê que é quando sabe melhor estar bem disposto.
Hoje quero lembrar-me de ti por ti num esforço de me substituir à tua própria memória. Bem sei que será impossível pois ninguém vive a vida de ninguém como o próprio, mas fica a tentativa.
Algures num dia invernio em plena quadra natalícia, aproximavam-se as férias do Natal. Já lá vão mais de vinte anos e Coimbra era menos cidade e mais aldeia dos arredores de si mesma. Em quase todo o lado havia grelos à venda e o comércio tradicional, vital como nunca, oferecia uma variedade inusitada de cores para a vista, melodias para o ouvido e sonhos para a alma. Numa sala de aula de uma das últimas aulas em que o professor Madeira percorreu o calvário de te aturar a ti e aos teus colegas com a paciência e o carinho que acompanharam a memória dele, estavam os teus olhitos pretos. Muito ávidos de coisas novas, bastante curiosos, alegres e sempre, sempre, irrequietos. Se bem nos lembramos, por aqueles dias tu querias viver cada dia como se fosse único, enfrentar todos os problemas e, acima de tudo, estavas disposta a aceitar todos os desafios. Ora, foi num esforço, voluntário e são, de te superares a ti mesma e, claro, deixar bem visto o professor, mais do que a ti própria, que aceitaste o desafio antes que qualquer outro o pudesse fazer.
– Quem quer cantar uma cantiga de Natal?
– Eu senhor professor, eu… eu!

Minutos depois ele não teria feito a pergunta. Anos depois tu não terias aceitado o desafio. Por mim, no ofício egoísta das memórias, congratulo-me com a ideia de ele não ter sabido antes o que soube depois e de tu não teres visto antes as barreiras e as distâncias que verias mais tarde. E cantaste envolvida e sonora, com a voz mais cristalina, mais genuína que o teu coração soube soltar:
– ginglobel, ginglobel, já não há papel
Não faz mal, não faz mal, limpa-se ao jornal!

pois… já tens o pobre professor Madeira de todas as cores do universo, muito indeciso, na sua benevolência e bondade cristãs, próprias de um verdadeiro pedagogo, entre a aceitação do gesto franco e voluntarioso e os ditames morais e educativos por que também se regia e que queria mostrar-te mas não sabia como. O senhor lá entaramelou qualquer coisa sem te ofender a dedicação de aluna mas apelando para o que quer que houvesse em ti que pudesse evitar outros momentos de tão embaraçosa, para ele, claro, dedicação!
Convém aqui lembrar em abono dos teus predicados vocais que, muito melhor do que a cantiga de Natal, era aquela que entoavas lá em casa à porta do quarto dos pais para onde fugias, acabada a sessão, a esconder a cara, vá-se lá saber por imperativo de que pudores. Virada para a sala muito empertigadita e com o peito cheio de ar e orgulho no feito que se aproximava:
– sandokan, sandokan
Não tem cuecas nem sutiã!

Voltavas, espreitando, a meia face, para a sala, para ouvires o aplauso ruidoso da mãe e da mimi e a festa silenciosa do pai em olhares que só tu e ele percebiam.

Que eu me lembre, de todo o teu percurso escolar, pelo menos até acabares o secundário, o ginglobel foi a tua grande insolência!

Quis o destino, mais ironia, menos ironia, que abraçássemos os dois essa profissão que ainda há pouco deixou o professor Madeira embaraçado. Se ele te visse numa sala defronte de uma turma haveria de achar piada! Talvez pedisse para cantar uma cantiga!

Há dias lembrei-me do teu ginglobel quando ouvi na televisão esta expressão que agora usei: grande insolência. Alguém, a propósito de um miúdo com a tua idade de há vinte e tal anos berrava assustado a sua indignação e proclamava estas duas palavras como se fossem as últimas pedras que tinha para acabar de enterrar um cachopo sem modelo masculino em casa e com menos de metade do dia para partilhar com a mãe, todos os dias, quase todas as semanas há já tantos anos que ele não se lembra, por certo, da última vez em que o seu nome foi pronunciado sem ser cuspido. Nem sequer vou cair no dolo de entrar em considerações que nos levem para o sistema educativo, para as falhas e razões dos professores, para as falhas e razões dos pais, para os ministérios, para as reformas, para os dinheiros, nesta floresta, então, nem vale a pena pensar em entrar.

Fico-me, na humildade do meu pensamento, por uma interrogação. Que raio aconteceu de lá para cá? Que aconteceu de tão grave que o mesmo filme tenha de implicar agora cadeiras e vidros partidos, agressões para todos os gostos com e sem armas, que aconteceu para que a tua insolência fosse destronada por palavrões e pontapés, que aconteceu para que o embaraço do professor Madeira fosse substituído por conselhos disciplinares e expulsões, que aconteceu para que o palco de aprender fosse pasto das televisões?

Não julgo. Penso.
Penso que estamos todos, na generalidade, menos humanos.

Não culpo. Constato.
Constato que os miúdos crescem nas filas de trânsito, nas filas das caixas registadoras dessas grandes superfícies tão exíguas para a alma humana. Constato que já lhes não pedimos para fazerem nada com as suas próprias mãos. Compram. Constato que já não há desencontros porque os telemóveis mantêm toda a gente em contacto. E depois? Onde ficam as aventuras e as histórias dos desencontros? Constato que lhes colocamos na mesa defronte para a televisão quatro ou cinco comandos a distância para comandar aparelhos que estão pouco mais do que ao alcance da mão. Constato que tudo parece fácil mas, mesmo acreditando que não está mais difícil, tudo continua a ter dificuldades. Constato um paradoxo: como é possível ensinar a superar dificuldades a crianças que educamos na ilusão de que elas não existem? Como é que estas crianças aprendem a sofrer? Constato, depois, triste, a ausência de resistência à frustração, a indignação, o choro, a revolta, a insolência, a violência.

Não calo. Digo
Digo que envolvemos as nossas crianças e os nossos jovens em processos desumanizados de crescimento e lhes exigimos de volta a normalidade, o que quer que isso seja. Digo que os abandonamos, que não os acariciamos o suficiente, digo que não sentem, quanto deviam, o nosso calor e a nossa presença, digo que somos, na generalidade pais e mães de um percurso irregular; parimos à pressa, trabalhamos à pressa, amamos à pressa, ensinamos à pressa e queremos que os nossos filhos sejam calmos e tenham condutas de comportamento adequadas à nossa educação! Não à deles, claro!
Esta é, mana, sem dúvida, uma grande insolência!!

E recordo, com carinho:
ginglobel, ginglobel….
Beijo, mano


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Deixa-te estar, Mariana!

[Uma sondagem da Marktest para o DN e TSF, relativo a Março de 2003, apresenta as preocupações e prioridades dos portugueses, que se posicionavam do seguinte modo: – Desemprego (28%) – Listas de espera na saúde (25%) – Equilíbrio das contas públicas (14%) – Paz social (9%) – Violência (8%) – Qualidade da educação (7%). A Federação Internacional de Jornalistas exige um inquérito imediato e completo à agressão e detenção de um jornalista e um câmara da RTP e dois outros profissionais israelitas pelas tropas da coligação anglo-americana no Iraque.

Data da primeira publicação: 14 de Março de 2003]

Deixa-te estar, Mariana!

Olá manita,
Dos cristais da minha memória há um mais cintilante. Os teus olhos de azeitona pequeninos e escuros com a malandrice toda a espreitar. O teu sorriso a acompanhar aquele meio milagre para fazer um milagre inteiro. E recordo, como que a querer ressuscitá-lo, um espírito tenaz e audacioso que espreitava por essas janelas da alma, de vontades decididas e orgulhos silenciados. O que tinhas de fazer fazia-lo mais tarde ou mais cedo. Arriscavas todos os dias e todos os dias ganhavas, quanto mais não fosse, vida! Sempre fui mais normativo. A minha coragem manifestava-se em grandes cometimentos que sobressaíam por serem excepção, a tua era quotidiana, estava em ti como uma segunda pele. De vez em quando, como todos os miúdos nas vidas todas, fazias das tuas e eras chamada à presença forte, segura e autoritária do pai. Não que ele alguma tivesse tido vontade de repreender-te, não. O pai tinha uns olhos-mágicos-de-ver-mais-o-que-é-bom e a sua postura de pater famílias educador e rígido quase não resistia aos teus olhitos e torna-se interessante relembrar, hoje, como David nem precisava de funda para derreter Golias. Mas o dever da educação impunha uma repreensão e ela surgia mais ou menos convincente. E tu, de pescocito inclinado, pregavas a vista no chão, coravas, formava-se-te um caroço na garganta, entaramelava-se-te a língua e só eras capaz do silêncio. O silêncio do respeito-temor. É aqui que quero deixar-te por agora, braços estendidos ao longo do corpo, o peso da culpa, do respeito e do medo a tombarem-te os olhos para o chão.

Os anos passaram e surgiram outras psicologias, outras psicopedagogias, outras pedopsicologias e outras tantas orgias intelectuais marcharam contra o medo de se ser menino, arrasaram o temor e levaram na enxurrada o respeito! E as crianças deixaram de o ser demasiado cedo, demasiado cedo tiraram os olhos do chão, demasiado cedo desafiaram autoridades que não eram para desafiar, demasiado cedo conquistaram direitos, atitudes, vontades para demasiado cedo se perderem as crianças. E os pais ficaram de braço no ar, a meio caminho de uma palmada, repartidos entre a ancestral força de uma punição e a moderna culpa de um trauma psicológico! E assim andamos pelas ruas e assim vivemos em casa: os pais de braço indeciso no ar e os filhos desprovidos da inocência de se ser criança, a saberem muito de amores e paixões, a saberem demasiado de contas ao fim do mês, a saberem bué de como responder, de como levantar os olhos em desafio, de ingenuidades perdidas antes do tempo. E a saberem pouco de jogar ao arco, de saltar ao eixo, de deixar o mundo dos crescidos para os crescidos, de pôr os olhos no chão na ingenuidade pura do respeito-temor.

Escrevo-te estas coisas porque me alegrei há dias com a Mariana. Da amálgama de miúdos que me vêm ter à sala de aulas todos os anos, que me tratam por “setôr”, que se empertigam vontades de ser homem aos doze/treze anos, que se insinuam desejos de ser mulher à saída da infância, emergiu um par olhos negros como os teus, um sorriso como o teu e quando chamei, autoritário, “Mariana!”, ela pôs os olhos no chão como tu fazias, corou! Estive quase para emendar a mão e adoçar o tratamento mas lembrei-me da raridade que é esta ingenuidade de ser menino, este filão de viver o tempo certo no tempo certo e calei-me. “Deixa-te estar, Mariana! – troquei com os meus botões – deixa-te estar que tens aí um tesouro de viver”.

E voltei a ti, de frente para o pai, à espera da sentença. E que te disse ele? “Porta-te com juízo!” Portaste e foste brincar, foste crescer para um dia seres mulher e receberes um mail de recordar, por um momento, as deliciosas dores do crescimento!

Beijito,
Mano


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Levanta-te e anda!

[Neste mês, tem início efectivo a guerra do Iraque. A Internet atinge os 500 milhões de utilizadores. As Nações Unidas criam um site para apoiar a Década da Alfabetização, que se desenrola de 2003 a 2012. Explicitando o conceito de literacia utilizado, afirma-se: “Literacy is about more than reading and writing – it is about how we communicate in society.”

Data da primeira publicação: 28 de Fevereiro de 2003]

Levanta-te e anda!
Olá mana,
Há uns tempos prometi-te um mail mais animado do que os últimos. Algo menos soturno e com uma nota de esperança… Acolheste a ideia de bom grado mas não conseguiste deixar de franzir o sobrolho como que duvidando da possibilidade de tal cometimento. Sabes, de certa forma tens razão. O Inverno vai frio e agressivo, as catástrofes naturais abatem-se sobre a Humanidade, os aviões caem como moscas, o espectro de uma guerra inútil tolda-nos os dias, a nossa lusitana sociedade afunda-se em escândalos e desesperos de onde emerge, inexoravelmente, a podridão inerente a décadas de desinvestimento na educação e nos valores morais e já nem temos a força e a pureza que nos levaram, em tempos, a traçar no espaço um corado manguito… não pode ser, podia estar uma televisão a ver! Tudo isto é consequência directa, a mim me parece, da “visibilidade”. O nosso mundo, a nossa sociedade e as nossas interacções estão cada vez mais expostas e desgastadas. O interessante é que fomos nós mesmos quem promoveu a visibilidade como um valor. Demos demasiada importância ao verbo “aparecer” e esquecemos, aos poucos, os saudosos “pensar”, “agir”, “partilhar”. Hoje, somos intervenientes sociais no sofá da sala com um comando a distância e um telemóvel. Cidadãos de sms, cidadãos de sondagens de opinião… e cada vez há mais sondagens e menos opinião!

Mas aí reside o milagre. Arranquei à memória do passado e aos factos do presente um motivo de esperança. Lembro para nós a madrugada pérfida em que o pai teve o primeiro enfarte, lembro a mãe a ampará-lo escada abaixo e lembro depois onze anos de calvário entre a nossa casa, seu castelo-forte-de-ter-a-donzela, e o Hospital Universtário de Coimbra, seu castelo-forte-de-se-manter-vivo. Lembro que naquela tão criticada e malogradamente jornalada e televisionada instituição o pai não era o pai, era o senhor Videira e os funcionários não eram aquele nem este. Todos tinham nome próprio e usavam-no. Lembro o carinho, a dedicação. Lembro o desvelo e o profissionalismo. Lembro que, para o pai, ir para o hospital não era ir para o hospital, era passar uns tempos na sua segunda casa. Lembro a cumplicidade de deixar ficar as visitas um minutinho mais… E pergunto: porque não apareceu tudo isto nos jornais e nas televisões? Porquê a relutância de gritar bem alto a solidariedade e a capacidade de fazer e ser bem que este humano Ser ainda cultiva?

E da névoa do passado vim aos trambolhões, memória abaixo, até desembocar à porta da unidade de fisioterapia do Hospital Rainha Santa Isabel em Torres Novas, coxo, de gesso recentemente tirado e apoiado em duas simpáticas muletas. E que vi eu? Vi uma unidade bem equipada de máquinas, aparelhos e recursos de pôr a boca aberta. Mas mantive-a fechada para a abrir depois, quando vi o trabalho, quando vi a dedicação. O carinho no massajar dos pulsos da senhora Maria, septuagenária de braço ao peito. O tom de voz de animar almas desconfiadas dos corpos que as guardam. O partilhar da dor, o incentivo, a cumplicidade entre terapeutas, auxiliares e pacientes. Por momentos julguei que éramos toda uma família e estaríamos juntos à mesa do jantar! Um dia ouvi um terapeuta dizer, inconsciente do poder bíblico e passado das suas palavras, “Ó senhor Manuel, levante-se e ande!” E o Homem, admirado consigo mesmo, levantou-se e andou. Passaram-me as dores e os emperros mas ainda lá voltei dois dias só para saborear a humanidade, só para ver a esperança, só para voltar a acreditar no meu semelhante. Ali, o profissionalismo e a dádiva são um só e o mesmo. Para quando, mana, estas coisas nos jornais? Para quando, mana, estas coisas a abrir o jornal das oito e a agitar o espírito confuso e conturbado dos nossos irmãos portugueses? Para quando esta humanidade para sempre?

Beijo,
Mano.


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Only You

[Esta é a primeira publicação deste texto: 19 de Maio de 2009]

Querida mana,

anos depois da escrita guardada, publicada e republicada, venho trazer-te novas carreirinhas de letras, fileirinhas de palavras a enformar as ideias que quero partilhar contigo. Será este o primeiro de uma nova série de mails que te vou escrevendo à medida que a vida escorre pelas paredes do tempo.

Há uns tempos li numa revista de curiosidades mais ou menos científicas que o cérebro nunca deixava de pensar. Nunca parava. Mesmo quando dormimos e até quando estamos em coma, há uma série de funções que a massa cinzenta que nos ocupa o crânio continua a comandar. A propósito disto, desenvolvi uma outra ideia, menos científica, ainda, mas em que gosto de acreditar: eu sei de fonte segura, a minha, que nunca deixamos de ouvir música! Por vezes pode não ser a música como a entendemos, com autor, gravada na bolacha de plástico… pode ser mais informalmente produzida o que não quer dizer que não seja música! Por vezes agradável, outras nem tanto. Acho até que os músicos, o que fazem, é limpar esta música do quotidiano, filtrá-la e dar-no-la a conhecer de forma mais agradável para os sentidos…

O que fazemos, depois, é seleccionar aquelas que nos despertam as emoções que mais gostamos de sentir e catalogá-las como preferidas.

Vem isto a propósito de, um dia destes, ter andado a vasculhar nos meus discos de vinil, passatempo mais recente do teu sobrinho que descobriu a maravilha da imperfeição por oposição à assepsia digital dos discos compactos, e ter encontrado um álbum dos Platters onde figura, entre outras preciosidades o velhinho “Only You”.

Era a canção preferida do nosso pai. A única e a primeira que lhe ocorria quando instado a responder à velha e pouco original questão: “Qual é a tua música preferida?” O texto teria pouco interesse se ficasse por aqui. O que me interessou mais foi indagar, à laia de explorador dos recantos da mente, o mundo de referências que a música contém…

Não se trata só de uma canção de amor. Trata-se de uma canção de amor e exclusividade. A mesma exclusividade que os nossos pais reservaram um para o outro. A dedicação única de uma vida. Mais, trata-se de uma canção de amor na década de cinquenta que invadiu a de sessenta! Trata-se de um tema que marcou uma forma de estar. Noites no clube de baile, orquestras ao vivo, cigarros despreocupados, saias de roda ao som do twist, e, claro, um “slow” partilhado, uma mão na cintura, a outra mão numa mão à espera de fechar-se nela e as emoções todas de uma noite de estórias a contar pela vida fora. Vivacidade e energia nas associações recreativas… o ARA! lembras-te do ARA? Associação Recreativa do Amboim. O ARA era um desses lugares mágicos onde se entrava inocente e saía dançante. Um lugar onde a magia das noites mágicas acontecia na vida das pessoas. A primeira mão dada, o primeiro pedido de namoro, a primeira autorização da figura paterna, aquele fundamental, inesquecível primeiro beijo…

Os Platters condensaram tudo isto, todo este mundo de vivências, em dois minutos e quarenta segundos. Sabes mana, eu acho que o pai não ouvia a canção. Ele vivia-a. E revivia a sua própria e extraordinária vida. E eu, agora, venho revivê-la contigo. A dele e a nossa com ele! Assim, como que a querer fintar a inexorabilidade do tempo, a fugacidade dos dias. Sentindo e ouvindo os Platters de novo!

Beijo,
Mano.


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Onde está Ifigénia?

[Neste mês, tem início efectivo a guerra do Iraque. A Internet atinge os 500 milhões de utilizadores. As Nações Unidas criam um site para apoiar a Década da Alfabetização, que se desenrola de 2003 a 2012. Explicitando o conceito de literacia utilizado, afirma-se: “Literacy is about more than reading and writing – it is about how we communicate in society.”

Data da primeira publicação: 14 de Fevereiro de 2003]
Onde está Ifigénia?

Olá mana.

Lembro, ainda com medo, aquela madrugada sangrenta de corações pequeninos e toda a vida depositada na coragem do nosso pai, da nossa mãe. Caminhámos céleres por entre silvos de balas enquanto a aurora nos traía a vida. Ficou-me na alma um cheiro de desespero, um pressentir de desgraça. A memória vai fechando janelas neste meu caminhar quotidiano para o fim, mas dessa madrugada não esqueço! Não esqueço o pânico. Não esqueço ter prometido nunca mais viver nada assim. Não esqueço a ausência absoluta de dignidade. Não esqueço que os homens matam sempre, não esqueço que os homens escolhem matar. Não esqueço que todos os dias nos atraiçoamos uns aos outros e ao milagre da vida que Deus nos concedeu. Essa guerra africana terminou. Outra se anuncia agora, lá longe, em terras secas de amor, áridas de vida e desafortunadamente prenhes de ouro negro! Sabes, quando andava na faculdade estudei, por razões várias, várias vezes, em vários textos, a história de Agamemnon. A este guerreiro, mais tarde herói, os deuses deram duas hipóteses: ou sacrificar sua filha Ifigénia e ganhar a guerra ou não fazê-lo para a não perder. E, num gesto de crueldade ímpar que viria a trazer uma história de sangue e perdição para todos os seus descendentes, Agamemnon mata a própria filha e ganha a guerra! Ganha! Ganha? Ganha…
Diz-me, mana, onde está Ifigénia?
Que sacrificamos nós em nome dos milhões que morrem todos os dias às mãos da guerra? Que sacrificamos nós? Onde está a nossa Ifigénia? Que razões avançam os nossos ilustres políticos para que se imole a pobre? Esta Ifigénia não é mais do que a nossa dignidade. Esta Ifigénia é a capacidade que temos de viver em paz. Esta Ifigénia é escolhermos amar. É a sanidade do nosso planeta, é o respeito ancestral que devíamos ter pela vida, pelo ser humano, por nós próprios! Sabes, mana, quando começarem os primeiros bombardeamentos morreremos todos um pouco, sacrficaremos o nosso mundo e, pior que isso, o mundo dos nossos filhos, porque, hoje, Ifigénia somos todos nós, os nossos vizinhos, os nossos filhos, a vida periclitante deste planeta… Ifigénia está em nós e em nós se sacrifica a sua pureza cada vez que um homem grita com outro, cada vez que um homem empunha uma arma, cada vez que um míssil é disparado, cada vez que, como agamemnones prepotentes e cegos, atentamos inutilmente contra a vida.
Lembro-me ainda do teu sorriso inocente naquela madrugada em que foste a minha Ifigénia sacrificada à estupidez humana. Lembro-me de ti quando ainda acreditavas que o mundo podia ser, como diz o Pedro Barroso, “um jardim de poetas superiores e verticais”.

Beijo.
Mano.


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O contador de Mails para a minha Irmã

Caros amigos e leitores,
com apenas 7 dias completos de leituras e partilhas, “Mails para a minha Irmã” completou 500 visitas. Obrigado a todos pelas leituras e dedicação. Por mim, continuarei paulatinamente a republicar os textos e, em breve, publicarei o primeiro de uma nova série/era: a dos dias de hoje.

uma saudação amiga, em nome da memória, da recordação, da capacidade de registar, de legar. Em nome de uma estória bem contada!

João Paulo Videira

PS: obrigado, mana!