Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Curtas do Metro – Contradição Vocabular

Contradição Vocabular

Há já muito tempo que não presenciava um daqueles fugazes, mas insubstituíveis momentos no Metro em que, da amálgama de normalidade, emerge uma situação digna de nota. Esta, vale pelo requinte vocabular.

Foi ao fim da tarde, na plataforma da linha amarela no Marquês de Pombal. Eram três senhoras com a idade situada ali no fim dos trinta, princípio dos quarenta. Duas estavam muito bem vestidas, cabelos arranjados, maquilhagem aprumada. E vociferavam para a terceira que estava vestida de forma mais humilde e penteado mais descuidado. Tentavam provar-lhe por A mais B que uma colega lá da clínica era desleixada, preguiçosa, não colaborava nem fazia nenhum e, ainda por cima, era queixinhas. E falavam para ela como se estivessem a ralhar com a outra. O discurso era audível e algumas pessoas sentiram-se incomodadas. Outras sorriram. E os sorrisos tinham a ver com o facto de os berros irritados delas serem produzidos em tom elevado e exaltado, mas com um sotaque afectado de “tia”.

Ora, o verdadeiro contraste aconteceu quando a moça de aspecto mais humilde e desgastado fez uma última tentativa para defender a ausente. Aí, nesse momento, a mais produzida das queixosas levantou a voz e exclamou em tom muito VIP:
E a tipa foi fazer queixa ao Dr. Ricardo, que eu não estava lá!… Então uma gaja já não pode ir fazer xixi?!

Risos abafados em volta.
Eu achei piada à contradição vocabular. É que a acompanhar com “gaja”, “fazer xixi” é muito suave. Ou bem que endurecia a formulação do “fazer xixi”, ou bem que suavizava a “gaja” e dizia, por exemplo, senhora gaja…

jpv


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Curtas do Metro – Lapsus Linguae

Lapsus Linguae

8:4o da manhã. Esperamos o Metro para o Cais do Sodré. Chega. Ao entrarmos, o baralho de gente que esperava entra e distribui-se. Como estamos todos à procura de um espaço onde possamos seguir de pé, nem olhamos uns para os outros. Só quando estamos lá dentro é que olhamos uns para os outros. Desta vez calhou-me um 13 no totobola, um poker de mão. Entro na carruagem, dirijo-me à porta oposta que está fechada, sou apertado pela multidão, levanto a cabeça e vejo quem está em volta. À minha direita uma moça muito interessante, formas muito bem definidas, pernas altas e redondas e peito muito generoso. Tem meias de vidro, calções brancos curtos, um casaco de cabedal lilás e o cabelo castanho encaracolado e com madeixas loiras. Pintou as unhas de azul. À minha esquerda uma moça um pouco mais magra mas cujas formas são igualmente perfeitas. Calças de sarja pretas, blusa com decote em vê às listas horizontais verdes clarinhas e brancas, sapatos lisos, cabelo preto liso e compriso, óculos rectangulares muito sensuais e um olhar castanho e doce. À minha frente a mais velha e generosa das três. Túnica branca colada aos seios redondos e generosos, calças de malha pretas coladas ao corpo, cabelo escuro e olhos muito bem definidos por um lápis firme. Era a mais velha, mas não era a menos interessante. E ali fico eu, entalado entre a visão do paraíso e a tentação do inferno. Tento desviar o olhar, mas não é fácil. Para onde quer que olhe há uma mulher atraente. A curta viagem chega ao fim. As portas abrem-se. Todos saímos. Ao sairmos, um homem pequenino, anafadinho, enfiado numas calças de ganga, numa camisa às riscas azuis e brancas fininhas e num casaco de cabedal coçado pelo tempo e pelo uso, vira-se para mim e diz:

– Ó chefe, hã, você ia bem tóreado!
– Toureado? Quer dizer torneado, rodeado…
– Ó isso!

jpv