Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Crónicas de África em Imagens – Vilankulo

Crónicas de África em Imagens – Vilankulo

Maputo, 13 de janeiro de 2013

Vilankulo fica a cerca de 740km a norte de Maputo. É uma terrinha pequena e acolhedora cuja principal atração é o mar e naturalmente tudo o que se relaciona com ele, nomeadamente, o peixe. Vivo para se observar nas barreiras de coral do arquipélago de Bazaruto que fica em frente, e cozinhado, no prato! O azul das águas e a diversidade da fauna marinha fazem ter vontade de voltar. Já vi o nome da terra escrito de quatro formas diferentes, Vilanculos, Vilanculo, Vilankulos e Vilankulo. Optei por esta última por ser a que está na placa de sinalização à entrada da localidade.



Praia de Vilankulo


Praia de Vilankulo


Praia de Vilankulo


Ilha de Magaruque, Arquipélago de Bazaruto.


Baobab Beach Lodge, Vilankulo.


Ao largo de Vilankulo.


Ilha de Magaruque, Arquipélago de Bazaruto.


Estrada Nacional 1, a cerca de 200km de Vilankulo.


Nascer do Sol na Praia de Vilankulo.


Nascer do Sol na Praia de Vilankulo.


Baobab Beach Lodge, Vilankulo.


Maré Baixa em Vilankulo.


Nascer do Sol na Praia de Vilankulo.


Baobab Beach Lodge, Vilankulo.


Maré Baixa em Vilankulo.


Baobab Beach Lodge, Vilankulo.


Baobab Beach Lodge, Vilankulo.


Hotel Dona Ana, Vilankulo.
Um ex-libris da localidade, agora em requalificação


Praia de Vilankulo.


Ilha de Magaruque, Arquipélago de Bazaruto.


Ilha de Magaruque, Arquipélago de Bazaruto.


Nascer do Sol na Praia de Vilankulo.


Ilha de Magaruque, Arquipélago de Bazaruto.

jpv
Todas as imagens foram captadas
 por mim ou por familiares .


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Crónicas de África – Road Trip Maputo – Vilankulo e Volta.

Crónicas de África – Road Trip Maputo – Vilankulo e Volta.

Vilankulo, 21 de dezembro de 2012

Eram quatro da manhã. Maputo nem parecia a mesma. Uma calma e um silêncio pintados pelo breu da noite que começava a render-se à luz. Nenhum veículo em trânsito. Cruzámos a avenida 24 de Julho como se estivéssemos numa cidade fantasma. Levámos meia hora a abandonar o perímetro da capital. Como prevíramos, nenhum auto-stop. Só começaríamos a ver auto-stops por volta das seis da manhã. Fizemos 740km em 10 horas à ida, em 16 horas à vinda, cera de 1600km, portanto. passámos por cerca de 30 brigadas policiais e só nos mandaram parar uma vez, na viagem de ida, a 17km do destino. Boa tarde. Boa tarde. O livrete, por favor. Aqui tem. Pode seguir, mano.

Muitas vezes corrigi os meus alunos por dizerem, Em Moçambique faz-se assim, Em Moçambique é assim, Em Moçambique funciona assim. E lá atalhava eu dizendo que não podiam referir-se a todo o país pelo conhecimento que tinham da Capital. Maputo é a Capital, mas não é Moçambique. Dizia isto sem conhecimento de causa. Pelo cálculo, pelo bom senso e por algumas leituras. Hoje, ainda não tenho todo o conhecimento de causa, mas sei, pela riqueza que a viagem teve, que Moçambique é um país fantástico, muito para além da sua Capital.

A paisagem é arrebatadora. Começa com grandes planícies, a perder de vista, com o horizonte “limpo”, cortado por aquilo a que o Iago chama de “Árvores à Rei Leão”. Depois, é todo um imenso palmar, uma mar de verdes luminosos a emoldurar a paisagem. De quando em vez, como em Zavala, ou em Inharrime, o azul turquesa do Índico vem compor o cenário e chega, mesmo, no caso de Inharrime, a beijar a estrada. É um azul intenso e irrepetível. Não é um azul forte. É um azul clarinho e límpido a fugir para o tom de verde-água de uma água de colónia que a minha mãe usava quando eu era criança. E, pelo meio das árvores e da vegetação, são às centenas os povoados construídos em casinhas redondas com telhados de palha (palafita) atada e apertada. E estes povoados, mesmo em pisos térreos, estão impecavelmente varridos e o seu traçado é perfeitamente visível.

Ao longo dos 740km há, sem exagero, pelo menos de vinte em vinte quilómetros, às vezes nem tanto, uma Escola Primária. Mais ou menos a cada cinquenta quilómetros, há uma maternidade e um posto da polícia e, sim, há combustível ao longo do caminho, embora, por vezes, alguns postos estejam avariados.

À exceção das auto-estradas, que são estéreis como consequência do seu próprio conceito, as estradas são centros de vida, espaço de negócios e transações, ponto de encontro, e a Nacional 1, que cruza o país de Sul a Norte, com retas de várias dezenas de quilómetros, algumas a perder de vista, é uma estrada constantemente bordejada de vendedores de tudo o que é vendável. Primeiro a venda da castanha de cajú com os rapazes a assinalarem os seus pontos de venda atando inúmeros sacos de plástico transparentes a uma árvore ou a um fio estendido entre dois pontos. Os sacos emprenham com o vento e fica um espetáculo de atrair atenções. Depois a zona da lenha. As pessoas fazem molhos de lenha, empilham-nos à beira da estrada e ficam à espera que alguém os venha comprar. Pode vir uma pessoa comprar um molho, como pode parar um camião e levar tudo de uma vez. Depois, a zona dos ananases. Grandes, pequenos, verdes, maduros, são pendurados em bancas de venda e vendidos baratos. Depois a zona dos cocos. Um saco com cinquenta cocos custa 200 meticais, mais ou menos 5,4€. Depois a zona das mangas, onde são vendidas ao alguidar (mais ou menos 10kg) ou à lata (mais ou menos 20kg). Se pedirmos para comprar uma manga, encolhem os ombros como se não batêssemos bem da tola e oferecem-na. Quem é que quer uma manga?! Há ainda a zona do carvão e das massarocas, cruas e assadas e há aquela cidade onde para se entrar ou sair, alguém tem de levantar uma cancela e há a zona do piri-piri onde se montam umas estantes em madeira e se expõem as garrafas enfileiradas.

E, além de tudo isto, há as vendas ocasionais. Alguém tem lá em casa qualquer coisa que quer vender e vem para a beira da estrada. Achámos particularmente curioso um jovem com um coelho branco pendurado pelas orelhas, com ele bem erguido no ar, a ver se alguém o queria levar.

Quando paramos para comprar umas mangas, perguntei a como eram, a vendedora apontou para um alguidar e disse, Cinquenta. E depois apontou para uma lata enorme e disse, Cem. Eu apontei para o alguidar e disse, Levo aquelas. Ela vazou-as para um saco, eram seguramente mais de dez quilos de mangas e tinham custado cinquenta meticais (mais ou menos 1,25€). O Iago perguntou-me, Como é que sabias que era 50 por todas? Eu pensava que era por cada uma. E eu ainda hoje penso na pergunta dele. Eu não sabia, calculei. Acho que, com o tempo, nos habituamos às dádivas da Natureza já que tudo o resto é tão caro e difícil.

Quando parámos para comprar ananases, demos com uma simpática e desdentada anciã, apareceu com uns ananases enormes, para aí com mais de dois quilos cada um. Quanto queres? Cinquenta. Ok, dá cá dois. E quando ia para seguir, ela levantou a mão como que a dizer Não vás já e disse:

– Papá, não tens um chocolate?
– Chocolates não tenho, não posso comer, fazem-me mal aos dentes.
– Mas posso eu, já não tenho dentes!

E largámo-nos todos a rir. Fiz-lhe uma contra-proposta:

– Tenho aqui uma Laurentina, queres?
– Quero.

O Iago deu-lhe a garrafa da cerveja para a mão e senhora começou a dançar e a rodopiar sobre si própria, esfuziante de alegria e cantando Obrigado! Obrigado! Obrigado! O interessante é que ela dera mais importância a uma oferta do que ao facto de ter acabado de vender dois ananases. E foi-se afastando do carro e a miudagem foi atrás dela, não tanto por lhe cobiçar a cerveja, mas mais por partilhar a alegria do momento.

À medida que atravessámos localidades mais povoadas como Xai-Xai, Quissico, Lindela, Maxixe, Morrumbene e Massinga, era sempre o mesmo espetáculo de cor e odores frutados e movimento e ruas de passagem transformadas em autênticos mercados com os produtos em bancas e pelo chão numa riqueza e numa demonstração de vida ímpares.

Quando chegámos a Vilankulo estávamos cansados, mas estávamos, também, saciados. Finalmente, ambientes genuínos e livres onde nem tudo está controlado. Quero dizer, onde quase nada está controlado e a vida brota e acontece com a pujança que a carateriza. Finalmente, um pouco de Moçambique fora de Maputo. Finalmente uma viagem à moda antiga, com incidências e peripécias, com paragens e trocas e conhecimentos. Depois conhecemos Vilankulo, que escreverei em breve, e regressámos pelo mesmo caminho mas com parte do percurso feito de noite. Completamente desaconselhado. Carros sem luzes a ultrapassar em contra-mão, atrelados sobrecarregados a partirem o engate com o veículo e a despistarem-se ambos,  pneus que rebentam e eixos da direção que partem por excesso de peso. Carrinhas pequenas que levam tanta gente e mercadoria que parecem almejar o céu, mas que perdem o equilíbrio e tombam para o lado. Uma aventura e um risco.

Viajar é uma experiência única. Viajar em Moçambique é uma experiência única e especial. É conhecer as gentes as terras, as movimentações, a força do labor e a paisagem de cortar a respiração. Tem magia e encanto este país e eles notam-se mais quando se cruzam as terras. E, por falar em cruzar terras, nesta viagem cruzámos o Trópico de Capricórnio que está assinalado com placas e onde fizemos a tradicional fotografia. Só um pormenor entre tantas coisas a registar. Melhor do que isto, só arranjar tempo e cruzar o país todo. Coisinha para 3000km e volta. Que é lá isso?!

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Dados da viagem:
Quilómetros percorridos: mais ou menos 1650.
Horas decorridas: cerca de 26.
Litros de combustível: cerca de 80.
Coca-colas bebidas: cerca de 16
Águas tónicas: 2.
Cervejas bebidas: 1.
Água consumida: mais ou menos 8l.
Frangos comidos: 1.
Mangas compradas: cerca de 20kg.
Ananases comprados:2.
Capulanas compradas: 2.
Canções ouvidas: cerca de 330. O Iago foi à Estrela, em Maputo, e comprou uma “coisa” onde se enfia a pen/flash com música, depois liga-se ao isqueiro do carro, e depois o rádio sintoniza a “coisa” como se fosse uma estação de rádio. Com comando e tudo por 180 meticais.
Auto-stops encontrados: mais ou menos 30.
Auto-stops em que fomos mandados parar: 1.
Paragens para comer: sei lá! umas seis.
Paragens por outras razões fisiológicas: bué!
Conselhos: Faça Você Mesmo!
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jpv