Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


2 comentários

Até Já!

Até Já!

O som inconfundível
Da máquina nos carris,
A travagem chiada,
A porta desliza
E abre-se a entrada.
Lá dentro a sonolência
Matinal
E a tua figura jovial.
Tens um traço de ruralidade
E um outro cosmopolita,
E vive em ti
Uma companheira de viagem,
Uma pessoa bonita.

Foram horas de leitura comum,
Dias a escrever aventuras,
Histórias e poesias,
Conversas sobre loucuras
Cheias de sentido
E também vazias.
Foram sorrisos,
E foram lágrimas,
Foi a conversa
E a cumplicidade,
Foi a partilha de duas almas
Ligando o campo
À cidade.
O lar ao trabalho.
A realidade ao sonho.

Não me vou despedir de ti.
Esta, sendo a última,
Não é a derradeira
Das nossas viagens.
A vida tem surpresas,
Tem esquinas
E tem mais paragens.
E será numa dessas
Que nos vamos reencontrar,
Sem promessas,
Só com a esperança
De voltar
A escrever um verso,
Uma linha partilhada
Sobre o mistério da vida
Ou,
Tratando-se de nós,
Sobre rigorosamente nada.

Foi sempre e só
Uma questão de amizade,
Uma viagem menos solitária,
Uma ideia,
Uma frase
Com ou sem dor.
Na tua mente,
Na minha mente,
E no teu computador.
Na blogosfera,
Na emoção,
Na excitação…
E, depois, Santa Apolónia.
Até amanhã!
Até amanhã!
E, na manhã que depois vinha
Tudo de novo se repetia,
Os mesmos gestos
De vida,
A mesma magia.
Adeus, companheira!
Até já!
A única coisa verdadeira
Que fica
É esta amizade bonita
Nascida nos bancos
De um comboio,
Crescida no apoio
Que trocámos
E cristalizada
Nas palavras que reinventámos.

À Dulce,
Pela amizade partilhada
Em dois anos de inúmeras viagens.
As de comboio. E as outras.
jpv


Deixe um comentário

Natureza Viva

Este blogue também faz serviço público, nomeadamente, procedemos à publicação de textos de amigos e conhecidos que no-lo solicitem. Outras vezes, deparamo-nos com os textos e pedimos autorização para os publicar aqui. Foi o que aconteceu com este. Ora digam lá que não valeu a pena?
—————————-
Natureza Viva
Pela estrada, caminhei energicamente porque o ar estava fresco e, até, ligeiramente frio… Mal deixei de ver as casas e mergulhei na verdura das árvores que ladeavam o caminho, percebi que estava já imersa na mundivivência do bosque e que a floresta me acompanhava. As raras viaturas que passavam pontualmente deixaram de existir. Estava bem agasalhada, mas ainda assim, calcei as luvas, puxei o pelinho do casaco junto às faces para proteger as maçãs do rosto e os lábios do frio, e desci até ao vale, metro após metro…
Por toda a parte, do meu lado da estrada, mais perto, do outro lado ainda, mas bem audíveis, chegavam ao meu tímpano sensível milhentos sons esfuziantes do canto matinal das aves que não distinguia, abrigadas nas belas ramagens outonais de tons verdes diversos, amarelos, laranjas e castanhos. Eram estridências, guizos e assobios delicados ou viris, mas sempre diferentes, dando eco aqui e ali a um apelo, um som encantatório, uma mensagem cruzada e secreta…
Junto aos meus pés, uma bola pequena de uma cor pungente de cereja, ela própria revestida por minúsculas bolinhas de aspecto quase aveludado. Caí em tentação, olhei a árvore donde provinha o fruto promissor: a árvore do medronho.
Sem pensar, ajoelhei-me, peguei delicadamente no fruto, percebi que estava limpo e pelo tacto, muito maduro… Num impulso de sofreguidão, desejei prová-lo. Com a língua, abri-o facilmente e descobri que estava, como parecia, maduríssimo. Suguei com fervor a polpa macia, de um amarelo alaranjado vivo. Sabia maravilhosamente bem, evitei comer a pele por prudência e ansiei por mais. Olhei para cima. Havia na árvore bolinhas de um vermelho apetitoso, lá no alto… E eu cheia de pressa, sem a possibildade de improvisar trepar pelo muro coberto de hera até à árvore esguia…
Prossegui a caminhada e nem me senti tonta, o efeito do álcool não deve aparecer no fim da estação…Ou será por só ter tido a ocasião de pecar tão pouco?
TR