Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Conversas Vadias – Alegrias!

Conversas Vadias – Alegrias!

– Então o Padre M. vai estudar para Itália?
– Ele não vai estudar, ele vai para lá porque tem lá a família. Os padres também são seres humanos.
– Pois é. Era um santo na boca das pessoas quando chegou, mas agora…
– Agora há pessoas que precisavam de uma machada a dar-lhes na língua o dia inteiro. Falam do que não sabem. Ele é novo, pois está claro que convive com toda a gente, mas é normal que puxe mais para os da idade dele… as pessoas são muito más!
– Mas isso é gente lá da terra ou também são os de fora?
– São de lá e de fora, há pessoas que precisavam da língua toda cortada…
– E depois o Senhor Bispo mandou-o embora…
– Não foi o Senhor Bispo que o mandou embora, não comecem já a espalhar mais mentiras. Foi ele que pediu para ir…
– Que pena! Gostava tanto dele! Quando ele vinha aqui fazer um funeral era uma alegria!

jpv


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Curtas do Metro – Reminiscências do Padre Borga

Reminiscências do Padre Borga

Hoje, quando cheguei ao trabalho por volta das 9h da manhã e fui cumprimentar a minha equipa de sala em sala como sempre faço, ia cantarolando, sem me aperceber, uma cantiga do Padre Borga. Sim, aquele padre do Entroncamento que grava discos e aparece na televisão. Era uma coisa de que não conheço bem a letra, mas cuja melodia fica facilmente no ouvido: Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia…
E, de repente, parei e perguntei a mim mesmo: Mas porque carga de água é que eu estou a cantarolar uma cantiga do Borga? Em pensamento nunca digo Padre. Tentei consciencializar. E consegui.

Entrei no Metro pouco depois das 8:40. Era o trajecto Baixa/Chiado – Cais do Sodré. A carruagem estava muito cheia junto às portas. Dirigi-me para o meio do corredor. Segurei-me ao varão horizontal de um banco. Ela tinha uma idade respeitosa. Os cinquenta já lá iam, por certo. Talvez até os sessenta. Nunca olhei para ela, mas pelo reflexo do vidro pude reparar que era uma mulher muito bem posta, com poucas rugas. O cabelo um pouco ralo. Ia de pé ao meu lado e segurou-se ao mesmo varão que eu. A sua mão, que não ficou a mais de um dedo de distância da minha, rápido deslizou e se encostou. Senti-lhe o calor. Pelo reflexo do vidro vi que olhava muito para mim. Tive o cuidado de não olhar de volta e fui fugindo com a mão, mas a dela foi-se sempre encostando. Até que cheguei ao fim do varão. A mão dela encostou-se e depois, sabendo que a minha estava encurralada, agarrou-ma completamente. E ficou ali, com a sua mão aberta envolvendo a minha. Eu estava indeciso entre o direito de não querer ser agarrado por uma estranha e o facto de não querer parecer rude ou discriminatório por tirar a minha mão daquele aperto forçado. Olhei de novo pelo reflexo do vidro. Ela continuava a olhar-me. Quando chegámos ao Cais do Sodré, eu saí, ela também. Nunca mais a vi. Era cedo. Estava bem disposto e não me apetecia interpretar aquilo. Veio-me à cabeça a cantiga do Borga em reminiscência longínqua, mas presente e, agora que penso nisso, acho que a cantei desde o Cais do Sodré até à 24 de Julho, elevador acima e depois no corredor onde me surpreendi cantarolando Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia…

jpv