Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Motorcycle Chronicles – Multiple Choice

Multiple Choice

É noite. É uma imensa esplanada ao ar livre, num recinto fechado com um tapete de relva fresca cortada muito curtinha, há centenas de mesas redondas, todas com uma tolha branca caindo às pregas, as cadeiras estão forradas de tecido também branco e têm um enorme laçarote atrás. Cada mesa tem um pequeno candelabro e está iluminada só pela luz da vela indecisa. Há pratos e copos e talheres de prata. Ao lado das mesas, emerge do chão um varão em ferro e no topo dele uma espécie de telefonia onde pode regular-se o som do filme que se projeta no enorme ecrã colocado num dos topos do recinto. É uma espécie de cinema a céu aberto com refeições requintadas. Os empregados deslocam-se, elegantes, tentando não perturbar muito a visão dos clientes. Ainda assim, em boa verdade, os filmes são mais um pretexto. É bom jantar com uma companhia agradável ao som de um diálogo entre o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall.

William Brody tinha duas paixões na vida. Motos e mulheres. Nem sempre por esta ordem, mas também acontecia. Enveredou pela carreira de Polícia Militar. Algo lhe agradava na ideia de regular a ação e o comportamento dos colegas assim como que garantindo uma postura incólume às forças da Defesa Nacional. Não fora essa, contudo, a única motivação para a escolha daquele ramo em particular das forças armadas. Digamos que poder ter um jipe Willys sempre à mão e uma Harley Davidson para uso quotidiano ajudaram muito na decisão. Tratava a moto como se fosse sua, manutenção diária, cuidados especiais com cada barulhinho fora do ronronar habitual, limpeza contínua e sem mácula, e, claro, patrulhava tranquilamente a longa marginal usufruindo do tempo e do calor húmido com odor de mar e aventuras. Por vezes, quando acontecia que o destino quisesse colocar-lhe uma pendura bonita no banco de trás ele impressionava-a com o ronco forte da moto e enquanto deslizava encostava-se para trás e dizia:
– Estás a ouvir este som?
– Estou.
– É poesia!
– Poesia?
– Sim. Poesia em duas rodas!

Gostava de convidá-las de forma inesperada e inusitada, como desafiando uma negação, gostava de conversar com elas, de levá-las a passear na Harley, de explorar-lhes o atrevimento e a intimidade, de amá-las. Quando as deixava em casa, após vê-las entrar porta dentro, seguras e satisfeitas, acendia um cigarro que fumava sentado na moto. Depois, imitava o Bogart, atirava o cigarro projetando-o com a força do dedo do meio disparado do apoio no polegar, soltava a última baforada, puxava pelo ronco da moto e deambulava pela cidade como se estivesse no paraíso.

Ela está de branco. Um vestidinho cintado, por cima do joelho, o cabelo apanhado num imenso novelo e uns óculos como os da Jacqueline Kennedy antes de acrescentar um nome. Ele olha-a embevecido, imaginando as palavras que vai dizer-lhe ao longo do jantar, o que ela vai responder, como a emoção vai crescer, onde a levará a passear. Veste umas calças de fazenda pretas, com pregas, uma camisa branca e um casaco do mesmo tecido das calças. Sem gravata. Elegante. Não demasiado formal.

Não houve qualquer espécie de empatia. Ele olhava-a, tentava chamá-la com o poder dos seus olhos brilhantes, iniciou diversas conversas, mudou de assunto, e recebeu em troca uns Sim, sim, Pois, pois, Hum, hum… Na tela, o Tyrone Power e o Errol Flynn pareciam conquistar-lhe todas as atenções. Desta vez, o cinema passara de pretexto a texto. O homem ultrapassado pelo espectro do homem, a magia da Harley esquecida pela luminescência movimentada da fita.
-Dás-me um minuto?
-Hum, hum…
-Volto já, com licença…

E saiu! Rolou rápido junto ao mar e tentou esquadrinhar o porquê daquela desatenção, daquela desfeita, nem um olhar, duas palavras atentas, uma mulher tão bonita que, quando convidada, parecera realmente entusiasmada com ele. Residia aí o engano. O entusiasmo era com o glamour do restaurante e da gigantesca tela espelhando “E o Sol Também Brilha”. Era preciso fazer qualquer coisa, regressaria e pensaria em algo.

Ao reentrar no recinto passou pela bilheteira e reparou que já ninguém vendia bilhetes. A única pessoa que aí estava, arrumava os materiais. Contemplou-a. Uma mulata curvilínea de saia travada e casaco da mesma cor adamascada, um chapelinho na cabeça e um olhar terno e perdido. Foi lá.
-Boa noite.
-Boa noite. Bilhetes para hoje já não há…
-Eu já tenho um, obrigado. Na verdade tenho dois. Não que valha de muito…
-O quê? consigo também?
-Comigo também o quê?
-Foi trocado pelo Tyrone Power.
-Ou pelo outro.
-Acontece.
-Pois, pelos vistos. Eu sou mais conversa, uma cerveja, uns camarões…
-Pois, mas olhe que a concorrência é feroz!
-Já percebi. Só não percebo o que têm as pessoas na tela que não tenham na vida real…
-Têm sonhos!
-E não pode sonhar-se nos lábios de uma pessoa? Não pode sonhar-se no assento de uma Harley?
-Uiii… duas escolhas que eu preferiria…
-Tem bilhetes para amanhã?
-Eh, homem de fé… se acha que quer combater as sombras na tela…
-Naaa… mas posso sonhar à minha maneira.
-Tenho sim.
-Reserve-me uma mesa para duas pessoas, por favor, e venda-me dois bilhetes para o filme.
-Olhe que é o mesmo!
-Isso importa pouco. Empresta-me um envelope desses aí…
-Claro…

William Brody pagou, guardou o bilhete da reserva de mesa e um dos bilhetes de cinema no bolso do casaco, colocou o outro no envelope depois de rabiscar qualquer coisa nele, estendeu-o à mulata curvilínea que lho vendera e disse-lhe:
-Tome este envelope. É para si. Não o abra já, não precisa dizer-me nada agora. Abra-o amanhã e faça o que quiser. Boa noite e obrigado.
-Boa noite, sonhador.

O Tyrone Power e a Ava Gardner disputam a tela com Errol Flynn, uma garrafa de champanhe está na eminência de esvaziar-se, William Brody não tira os olhos da mulher que hoje o acompanha e lhe dá toda a atenção do mundo. As conversas desfiam-se, concordam, discordam, há música nas frases e luz no olhar, há uma mulata bonita e curvilínea exibindo as formas no vestido negro justo ao corpo de deusa e há um sonhador de fato de fazenda preta e pregas nas calças, sem gravata, e o mundo à volta é só uma moldura enevoada e imprecisa para os sentidos de ambos que se esgotam em ambos. Terminam o champanhe, decidem ir passear de moto na areia com o mar a salpicar as pernas, abandonam a tela, deixam as estrelas a falar sozinhas, levantam-se e saem para a sedução da vida.

Para trás uma mesa deserta com três bilhetes em cima. O da reserva e dois para o cinema. A mulher da noite anterior, enfastiada com o seu companheiro que não tirava os olhos da Ava Gardner, reparou naquele namoro, no cintilar daqueles olhos, no bailar daqueles lábios de promessas e quando os viu sair, a curiosidade inquietou-a. Levantou-se discretamente da sua mesa, recolheu os bilhetes da outra e voltou a sentar-se. Nada num, nada no outro e, por fim, algo escrito no último deles. Guardou-o, arrependida, na sua carteira, levou-o para casa, colou-o na folha do seu diário que marcava aquele dia quente e húmido de verão perdido no início da década de sessenta. O diário ainda existe, o bilhete ainda lá está colado, e tem escrito, com uma caligrafia irrepreensível e belíssima, a expressão “Não falte que se arrepende!” e, por baixo, a assinatura: Sonhador.

jpv

À grata e saudosa memória de meu pai,
Jaime Videira, também ele sonhador, à sua medida.


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Motorcycle Chronicles – The Light in Her Fingers

The Light in Her Fingers

Norman May sempre adorara motos de alta velocidade. Nada se comparava a essa quase indescritível sensação de libertação e liberdade. Não andava de moto. Vivia de moto. Não trocaria o seu estilo de vida por nada deste mundo, pensava. Acontece que quer a vida, quer o mundo, podem muito mais do que nós que viemos vivê-la e habitá-lo. As rasteiras, as surpresas, os nós que só se desatam quando ainda não queremos, já não queremos ou não estamos à espera que o façam, podem mais do que a nossa vontade e determinação. E, talvez por uma breve e suave consciência dessa limitação, Norman May resolvera não contrariar as forças maiores que o rodeavam.

Para esta história não interessa muito quem ele era, nem o que fazia, nem os seus outros hábitos para além da moto. Acordava com ela, deslocava-se com ela para o trabalho, passava os fins de semana com ela, adormecia a pensar nela, gostava de cruzar o espaço sem capacete, só com uns óculos de proteção e gostava da ideia de poder fazê-lo sempre que quisesse. Vestia cabedais e gangas pretas, punha correntes metálicas a segurar as chaves. A Norman May não faltava quase nada.

Eloise Black sempre fora uma alma livre aprisionada. Livre dentro de si, nas suas infinitas reflexões solidão dentro no breu silencioso da noite. Livre na forma como voava sobre o mar cada vez que contemplava um pôr de sol com a escuma das ondas a rebentar-lhe junto aos pés. Livre quando lia nos livros as vidas dos outros e se entretinha a reescrevê-las só com o pensamento. Aprisionada num quotidiano marcado pelo ritmo da globalidade que dita entrar às nove, sair às cinco, ginásio às quartas, piscina às sextas, supermercado aos sábados de manhã e solidão depressiva aos domingos à tarde. A Eloise Black faltava quase tudo.

Quando se encontraram, a primeira impressão que tiveram um do outro foi como quando experimentamos uma bebida ou uma comida diferente, antes de reconhecermos o arco-íris de novidade a invadir-nos a alma pelas papilas gustativas, fazemos uma careta de estranhamento. Ele deslizava tranquilo e vagaroso absorvendo a luz de um final de tarde laranja e esplendoroso e ao fundo dessa reta de felicidade um vulto de um carro em contraluz parado na berma da estrada, uma mulher esguia com a mão direita sobre os olhos contemplava o horizonte. Ela percebeu que se aproximava um tipo das motos, lenço encarnado ao pescoço, sem capacete. Pensou retirar-se para dentro do carro, mas lembrou-se de que estava na rua porque, efetivamente, precisava de alguém e, distraída com o sol a pôr-se, quase se esqueceu de fazer-lhe sinal, mas fez, acenou e gritou, Por favor, por favor! Norman já passava por ela quando percebeu que era por si que chamava. Parou um pouco à frente, olhou para trás, mediu-a, ela deixou-se medir e mediu-o de volta, parecia-lhe ter idade suficiente para ser um homem responsável e não um garoto das velocidades.
– Boas, precisa de ajuda?
– Sim, se puder emprestar-me um telemóvel, estou sem bateria e o meu carro…
– Não tenho.
– Não tem telemóvel?
– Não. Não uso.
– Não usa? Então como é que faz?
– Eh pá, tem sido difícil sobreviver, mas cá me vou aguentando, sei lá, olhe, para passar a ferro uso um ferro, para dormir, uma cama, para ler, livros… enfim, vivo neste meu mundo subdesenvolvido…
– Sim, mas, por exemplo, se o seu carro se avariar no meio da estrada como é que faz?
– Minha senhora, em primeiro lugar, o meu carro não se avaria porque eu não tenho um, em segundo lugar, a senhora tem um carro, o seu carro está a fumegar fumo branco, a senhora tem telemóvel e nada disso parece estar a ser uma solução para os seus problemas…
– Pois tem razão… peço desculpa, vou esperar por outra pessoa.
– Aqui não passa muita gente, está a escurecer, eu aconselhava-a a vir comigo até à próxima localidade, por certo encontra lá onde passar a noite e amanhã consegue alguém que lhe venha buscar o carro…
– Ir consigo? Como?
– Sei lá, estava a pensar eu a conduzir e a senhora atrás agarradinha à minha cintura para não cair de costas…
– Mas eu… eu não ando nisso!
– Nisso?
– Sim, nessa coisa…
– Esta coisa parece-me ser a sua solução de momento, mas pode ficar aí à espera…
– E isso é seguro? É que os carros são seguros, são fechados, têm quatro rodas…
– Avariam com frequência… olhe, eu vou indo… quer vir…
– Acha que deva?
– Eu não acho nada, mas estão-se-me a acabar as soluções… já agora…
– Sim…
– Estando aqui sozinha com o carro avariado e à espera de alguém como é que quase conseguiu perder-me?
– Ah isso… tolice minha… foi o sol… amo o sol e o mar e toda esta luminosidade que paulatinamente se esconde…
– Também amo isso… venho aqui quase só por causa disso…
– Quase? Eu venho aqui só por causa disso… que mais pode haver?
– Nem sei se lhe diga…
– Diga, diga, finalmente estamos a encontrar algo em comum…
– Pois… eu também venho aqui para deslizar em cima desta coisa!
– E vai devagarinho?
– Vou devagarinho…

Eloise Black não se apresentou. Norman May não se apresentou. Ele tirou a mota do descanso, sentou-se, estendeu-lhe uma mão e ela subiu para a moto com gestos desajeitados.

– Tem um capacete?
– Não se usam nesta paróquia!

Eloise agarrou-se a ele tentando manter uma espécie de distância de segurança, assim como se não quisesse misturar-se muito, mas ao primeiro movimento da máquina, por instinto, abraçou-lhe a cintura e encostou a cabeça às costas dele.

– O fundamental é relaxar, relaxe e desfrute da vista, o sol que tanto ama está quase a sumir-se.

Deslizavam em silêncio e ela tinha os olhos fechados de medo até ter pensado que abri-los não haveria de matá-la e abriu-os e respirou fundo, e sentiu o ronco poderoso da moto por baixo de si e o sol esvaindo-se e a noite caindo como um véu sobre o seu olhar. Estava libertando-se. Enlevada. Norman falou, informando sem perguntar:
– Vou mostrar-lhe uma coisa.
E saiu da estrada enquanto ela estremecia de medo e meteu-se por uma estradinha de terra e ela já quase em pânico e abriu-se à sua frente uma prainha pequenina, com um rochedo de cada lado, abrindo-se depois o mar à sua frente onde a bola de fogo fazia as derradeiras despedidas. Ela descalçou-se e foi junto da ondulação serena ver o dia morrer. Quando voltou trazia incerteza e um sentimento de gratidão e preenchimento.
– Como se chama?
– Norman.
– Eu sou a Eloise.
– Boa noite Eloise.
– Boa noite Norman e obrigado.
– De nada. Achei que ia gostar.
– Achou bem…

Sentaram-se na areia e finalmente foram à procura do que os unia. A noite escureceu a paisagem, Norman pôs-lhe o casaco de cabedal pelas costas, deram as mãos e ficaram a olhar as réstias de luz do outro lado do mundo até já não haver nenhuma. Sem palavras, sem luz, sem medos nem preconceitos, trocaram os lábios e fizeram amor na areia. Só Deus e aquela coisa souberam.

Norman May não alterou o seu estilo de vida, incluiu Eloise Black nele. Foi tácito o acordo. Ele aparecia de quando em vez, sempre que o coração lhe pedia, sempre que o impulso de amá-la era maior do que qualquer outra coisa na sua vida, ela não o procurava, esperava-o. Com o tempo, começou a ler-lhe os ritmos e a pressentir-lhe as visitas e preparava o coração para recebê-lo. Depois montavam naquela coisa, desbravavam caminhos de asfalto e terra batida e areia e procuravam novas aproximações às ondas do mar emolduradas pela amarelidão lânguida do sol. E amavam-se. Perdiam-se em conversas longas e sinuosas de descobrir a razão de ser das coisas, dos gestos, dos hábitos, faziam silêncios e ela contemplava a paisagem e o homem nela. Absorvia a vida com o olhar sôfrego de ver tudo enquanto houvesse luz no seu olhar. Não se esconderam. Não se revelaram. Ficaram assim, procurando o mar e o sol ao som e ao ritmo de uma moto de alta velocidade, sentindo o ar na face, a areia nos pés, o corpo no corpo. O tempo passou célere e despercebido, magias do encantamento amoroso.

Um dia, por brincadeira, Norman May comprou um capacete para Eloise Black e levou-lho. Quando tocou à campainha ela não atendeu, insistiu e o silêncio voltou a responder-lhe. May já tinha pensado que isto poderia suceder, afinal de contas, não combinavam nada, a vida acontecia-lhes harmoniosa com naturalidade. Não estranhou. Voltou dias mais tarde e voltou a não encontrá-la, esperou um pouco mais, voltou semanas mais tarde e finalmente a porta abriu-se. Era um homem. Completamente estranho a Norman May que ficou perplexo:
– Desculpe, não sei se incomodo, procuro Eloise Black.
– Não mora aqui, quer dizer, já não mora aqui…
– Como?
– A senhora mudou-se, devido ao problema com que ficou depois do acidente, decidiu viver perto de uns familiares…
– Problema? Acidente? Pode dizer-me o que se passou?
– Não sei, quem é o senhor?
– Um amigo.
– Sabe, isto é constrangedor para mim, mas o facto é que me pediram para não dizer nada a ninguém acerca de Eloise Black…
– Por favor… essa mulher é a minha vida…
– Enfim, creio que não haverá mal em dizer-lhe algumas coisas, de resto o senhor parece transtornado, era sua namorada?
– Não, sim… sei lá… acho que sim, éramos as pessoas mais importantes na vida um do outro, isso faz de nós namorados?
– Acho que sim, faz mesmo mais do que namorados…
– Então…
– Eu não sei para onde foi Eloise Black. Sei que foi a pessoa que morou aqui antes de mim. Sei que teve um acidente de automóvel, embateu violentamente contra uma árvore ou um poste, não sei bem ao certo e sei que está bem exceto num aspeto…
– Qual?
– Cegou. Eloise Black cegou e está a reaprender a viver. Sofre. E mais não sei.

Norman May procurou Eloise Black de todas as formas possíveis, em todos os locais possíveis, colocou anúncios nos jornais, pediu a amigos que percebiam dessa coisa das internetes e vasculhou todos os cantos do universo digital, andou pelas ruas e, em última análise, em solução de desespero, Norman May, ainda na cidade, virava-se de frente para o sol, fechava os olhos e imaginava onde ela estaria. Pressentiu que a encontraria na prainha onde se amaram pela primeira vez, só não soube quando. Sempre que por qualquer imperscrutável razão se lembrava dela ou lhe batia forte o seu chamamento, pegava na moto e dirigia-se para lá. Passava junto ao local onde a viu pela primeira vez contemplando o sol junto ao carro avariado e, mais à frente, fletia para a estrada de terra que desembocava na pequena praia com um rochedo de cada lado. Nada. Nunca. Sempre vazia. Uma ou outra vez com estranhos. No início, logo a seguir ao choque de saber do seu acidente e dessa funesta consequência, ia lá muitas vezes, depois começou a ir um pouco menos e ao cabo de três anos, Norman May tinha anichado aquela dor no seu peito e só lá ia de vez em quando para certificar-se da sua ausência, para sentir com força a realidade de a ter perdido. Não sabe o humilde escritor destas linhas porque foram três anos. Poderiam ter sido três meses, um ano, um ano e meio, dois anos. Mas não. Foram três, mais dia, menos dia. Ele fletiu para a estrada de terra batida, desembocou na praia e deu-se com duas mulheres de costas, sentadas na areia. Uma mais forte e arredondada, a outra, à sua esquerda, mais magra e esguia. Ao lado, espetada na areia, uma vara de tatear o chão. À frente das mulheres um Retrivier Labrador com um arnês retangular em alumínio. Era um cão guia. Norman estremeceu com a imagem. Seria que… no seu peito borbulhava a incerteza e a dúvida e, contudo, o desejo, a ansiedade, de súbito, apoderaram-se dele. Ela estava tranquila. Há muito, já, que reconhecera o ronronar da moto. Chorava e sorria. A mulher a seu lado levantou-se, abandonou o local e ao passar por Norman cumprimentou-o:
– Boa tarde, deve ser o senhor Norman, Eloise espera-o, enfim, às vezes vem aqui esperá-lo… por favor, vá com calma…
– Boa tarde.
Não disse mais nada. Já não comandava as suas palavras nem os seus gestos. Aproximou-se. Sentou-se ao lado dela. Colocou a sua mão espalmada sobre a mão frágil e gentil de Eloise Black.

São preciosas, as palavras. Às vezes porque se dizem, outras vezes porque se guardam. Guardaram-nas durante longo tempo. Ficaram de frente para o mar, sentindo e vendo o sol despedir-se deste lado do mundo.
– É bonito, disse ela, já lhe decorei o movimento pelo calor na pele. Já só se vê um quarto.
Norman pasmou:
– Como consegues?
– Estava cega antes, Norman. A vista é egoista, tolhe-nos os outros sentidos e eles veem tanto, podem tanto. Deixa-me ver-te.
E colocou as suas mãos sobre as faces dele sentindo e absorvendo as formas e o calor de Norman. Passou-lhas pela cabeça, depois pelo peito e por fim abraçou-o.
– Isso tem cura?
– Dificilmente. As probabilidades são ínfimas e os custos muito elevados.
– Se é por causa dos custos, eu tenho algum dinheiro e posso vender a moto, vale muito… mesmo muito…
– Tonto. És um doce, mas explica-me, de que me serviria a visão se tu não tivesses alma… e já te disse, eu não estou cega, vejo de outra forma…
Fez-se um silêncio. Eloise percebeu que ele queria dizer algo, procurou-lhe uma mão na areia e quando a encontrou, apertou-a como que encorajando-o a falar.
– Porque te escondeste, Eloise?
– Não me escondi, Norman, só não estava preparada. A vida levou-me a luz do olhar e eu tive de recuperá-la com os dedos, com as mãos, com a face, eu vejo, Norman, vejo até melhor do que tu, só não estava habituada a ver assim… levei tempo… As cadeiras, as mesas, os obstáculos no passeio, os movimentos das pessoas, o braille no papel, os odores, os sons mais insignificantes, as texturas… aprendi o mundo de novo, Norman May, sou uma mulher nova e diferente… há coisas que ainda não experimentei…
– Por exemplo…
– Amar…
– Amar?
– Tens razão… nunca deixei de amar. Refiro-me à entrega dos corpos. Essa linguagem não sei ao certo se a domino…
– Nem eu… afinal de contas eu ainda vejo com os olhos… sinto-me culpado por isso.
– Não sintas, meu amor, não sintas. Guia-me!
– Guiarei… mas está uma pessoa contigo…
– É a Mary, uma amiga, vai partir e vai levar a Lucy com ela…
Eloise Black falou com a cadela, disse-lhe, Lucy, vai ter com a Mary, vai… e, como que por milagre, a cadela abandonou o local. Ouviu-se o ruido de um carro a engrenar e o seu ronco a tornar-se cada vez mais distante até desaparecer.
– Devo a maioria da minha aprendizagem a este animal. A minha mobilidade depende dos seus olhos e do seu instinto, sabes que ela é que decide quando atravessamos uma estrada?
– Tu vives num mundo diferente, com pessoas diferentes, com critérios diferentes, pergunto-me se há espaço para mim no teu universo…
– O teu espaço é o teu espaço, Norman May. Não se confunde com nada mais. Anda, vem conquistá-lo, vem merecê-lo.
Norman tocou-lhe a mão, deixou deslizar a sua mão pelo braço dela, encostou a sua face à dela, e depois os lábios. As roupas caíram devagarinho e os gestos multiplicaram-se, ternos e dedicados. Norman fechou os olhos e amou-a de igual para igual. A noite tombou definitivamente sobre este lado do mundo e escureceu e quanto mais escuro estava, quanto mais ele cerrava os olhos e a amava sôfrego e emocionado, mais ela sentia a luz desse amor na ponta dos seus dedos.

jpv


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Motorcycle Chronicles – Wireless Connection

Wireless Conection

Ele batia-lhe. Era violento. Começara por uma coisa de nada, uma discussão ridícula. Dera-lhe um estalo. Ela não reagiu. Como costumavam fazer jogos de submissão na cama em que ele a esbofeteava como ato de incitação, como ela sempre permitira isso, ainda que não gostasse muito, confundiu aquela chapada com as outras. E foi por isso que não reagiu. Ele gostou de bater-lhe e sentiu um poder e uma força especiais pelo facto de ela não reagir. Era homem. E foi por isso que lhe assentou a mão de novo. Com força! Ela caiu de costas, desamparada. Ficou no chão a olhá-lo, incrédula, as lágrimas a surgirem-lhe nos olhos, a blusa desalinhada, a saia de seda a subir-lhe pelas pernas. Ele sentiu-a fraca e deu-lhe um pontapé forte na coxa mais próxima. Tombou sobre ela, aplicou-lhe uma sucessão violenta de chapadas e depois violou-a.

Ela quis queixar-se. A família culpou-a imediatamente. Desvalorizou o que ele pudesse ter feito, Não estás marcada, se ele foi assim tão violento, onde estão as marcas? À polícia não quis ir por vergonha. Depois iam pedir-lhe que mostrasse o corpo, pensou, e isso não queria suportar. E, a verdade, verdadinha, é que o trabalho dela era um part-time de demonstração e venda de conexões Internet e mal dava para os seus extras. O seu verdadeiro sustento e o dos dois filhos era o trabalho dele. E assim, de chapada em chapada, de pontapé em pontapé, de agressão em agressão foi aguentando. Acreditava que, com a idade, ele acalmaria, acreditava que, em crescendo os filhos, ele teria de parar. E, por isso, foi suportando e foi rezando para que acontecesse menos e para que, quando acontecesse, ele se saciasse e passasse depressa. Nem chegava a perceber as razões. Já lhe tinha batido por tudo e… por nada. Porque discordavam num assunto da educação dos filhos, porque a comida estava insossa, porque ela se atrasara no trabalho, porque um dos miúdos tinha tido negativa a português, porque o resultado da bola tinha sido desagradável, porque o sexo fora mau… e, o curioso, nisto dos comportamentos humanos, é que, quanto mais a agredia, mais lhe apetecia agredi-la. É estranho, o ser desumano. Não se sacia com a violência. A violência tem um fermento de crescimento, tem um adubo e um fertilizante e é autofágica, alimenta-se de si própria e quanto mais se devora, mais cresce.

Estava exausta. Nesse dia tinha caminhado vários quilómetros a bater de porta em porta tentado vender excelentes pacotes de Internet que ela nunca vira a funcionar a não ser nas breves formações que recebera. Chegara a casa, passara uma parga de roupa, fizera o jantar, recebeu os miúdos e tratou deles e quando ele chegou, percebeu que vinha zangado com a vida. A noite ia ser das más. Tentou ser carinhosa com ele. Por vezes, raramente, funcionava:
– Que tens, meu amor, pareces tão tenso…
– O que tenho é que o Teixeira ficou com o prémio de desempenho que era para mim, é o que tenho…
– É uma injustiça, tu esforças-te tanto…
– Sim, claro, e sabes porque é que o perdi? O meu chefe diz que chego atrasado de manhã e sabes porque é que chego atrasado, sua vaca inútil, é porque em vez de uma mulher, tenho em casa uma vaca que não é capaz de preparar um pequeno almoço a horas!
– Mas eu…
Já não acabou a frase. Segurou-a pelo pescoço, encostou-a à parede e sufocou-a. Ela não resistiu. Os miúdos não saíram do quarto. Ela os ensinara a agirem assim. Quando ela estava a ficar lívida, ele soltou-a e ela tremeu das pernas e ia a cair, mas ele teve-a de pé por um braço. Estás fraca, cabra? Estás fraca? É por isso que não fazes a merda do pequeno almoço a horas? E, com um braço lhe segurava num braço e com o outro a ia esbofeteando por onde a apanhava, na cara, na cabeça, uma ou outra no queixo e no pescoço e quando estava cansado do braço, usava os pés e pontapeava-a no rabo e nas coxas e nas pernas. Por fim, quando a sentiu completamente vulnerável, deu-lhe um pontapé pelos pés, ela caiu desamparada, bateu com a cabeça numa mesinha e fez um corte por cima da orelha. Já sentiu pouco. Sentiu o calor da proximidade dele e o ritmo balanceado de uma cópula indesejada e violenta. Ficou no chão da sala. Quando acordou, ele estava a comer na cozinha. Ela levantou-se, foi à casa-de-banho, lavou-se, colocou uns cremes para atenuar as nódoas negras pelo corpo e enfiou-se na cama. Não o sentiu chegar.

A manhã está límpida, o sol cristalino oferece promessas de vida e ela caminha pelas ruas sem fé nem esperança. Revê a noite anterior. Repensa a sua vida, mas sente-se completamente encurralada. Nada no seu horizonte lhe traz qualquer esperança. Manteve-se assim o quadro cinzento da sua vida e da sua mente até que bateu à porta de Robert Flaherty.
– Bom dia, posso tomar-lhe um minuto?
– Não preciso de nada, obrigado…
E estas palavras simples e educadas, considerando a generalidade das respostas que recebia, Não quero nada disso; Desaperece, vai mas é trabalhar; Parasita, faz qualquer coisa de útil; soou-lhe agressiva e rompeu num choro convulso, os seus limites estavam todos ultrapassados, precisava de ajuda e não sabia como pedi-la. Robert percebeu de imediato que algo muito grave se passara e percebeu também a contusão por cima da orelha, estendeu-lhe uma mão, ela colocou a sua mão frágil na mão forte dele e essa força começou, de imediato, a passar. Entre, ela entrou, ele fechou a porta e disse-lhe, A vida tem-na tratado mal… desabafe, acho que é o primeiro passo, diga tudo… deite tudo cá para fora. Ela não disse uma palavra. Fez-lhe um gesto para ele se sentar. Robert obedeceu. Depois, lentamente, de frente para ele, foi tirando a sua roupa toda. Primeiro a blusa, depois descalçou-se, depois a saia, depois as meias-calças, depois a camisola interior, depois o sutiã, depois as cuecas e por fim, encolheu os ombros e deixou os braços caídos à frente do corpo com as mãos a taparem envergonhadamente o púbis. Por fim, disse, É o meu mapa de dor. Robert estava estupefacto. Era brutal o que tinha na sua frente, pensou em mil e uma soluções, foi-lhe dizendo cada uma das coisas que podiam fazer e ela foi negando cada uma até que disse, Ajude-me a mim, eu sou o mal, eu preciso saber lidar com isto, não sei como, não tenho perspetiva, há muito que a perdi. Robert pensou durante uns minutos e depois disse-lhe, Acho que lhe falta liberdade, acho que está demasiado agarrada a essa dor e a quem a causa, está a ver essa Internet que vende, uma liga-se por cabo e outra é wireless, o que a sua mente precisa é de uma conexão wireless para a liberdade, venha comigo.

Ajudou-a a vestir-se. Emprestou-lhe um blusão de cabedal que lhe ficava enorme, mas ela gostou da sensação de proteção, desceram à cave, colocou-lhe um capacete, apontou para o banco da moto e disse, Sente-se aí! Ela quis dizer que tinha medo, mas tinha o capacete na cabeça e, por outro lado, o que quer que fosse que aí viesse, seria melhor do que a noite anterior. Ele subiu para a moto de alta potência, puxou-lhe as mãos para a sua cintura mostrando-lhe onde e como se devia agarrar e saiu para a cidade, percorreu o esquadrinhado das ruas, saiu para o campo e dirigiu-se para o mar. Percorreu quilómetros sem fim pela estrada que acompanhava a falésia e o mar, ia-lhe apontando o sol rebrilhando na água, mostrou-lhe as gaivotas a pairar sobre a rebentação e acabou entrando com a moto pela areia, mesmo junto à água. Parou para tirarem os capacetes e depois continuaram a rolar junto ao mar recebendo os salpicos da água na face. Por fim, pararam e ficaram sentados na areia a olhar a rebentação. Muito tempo depois, ela disse, Não sabia que a vida podia ser assim. Claro que não, por isso é que se deixou subjugar. Liberte-se! Precisa de conectar-se com a liberdade e depois saberá o que fazer. Para tudo na vida há uma conexão wireless! Robert fez o caminho de regresso usando o mesmo traçado. Ela usou esse tempo para pensar. Sabia que a lição dele era preciosa, só não sabia como se adaptaria à sua realidade e ficou matutando nisso quilómetro atrás de quilómetro. Quando chegaram, ela perguntou, Mas afinal já tem Internet, ou não? Sim, e estou bem servido. E foi aí que ela começou por surpreendê-lo. Posso usar a sua Internet? Claro que sim.

Saiu à rua e só via a luz do sol e o brilho do mar à sua frente. Passou pela farmácia, dirigiu-se a casa, não ia feliz, mas ia entusiasmada. Nesse dia recebeu os miúdos como sempre, preparou o jantar com especial carinho e dedicação, e quando o marido tombou morto no final da refeição, ela não se surpreendeu. Telefonou para as urgências, fez um ar muito triste e chorou muito, convulsamente, e no funeral, dois dias mais tarde, fez o mesmo papel, estava tão habituada a chorar para que lhe não batesse mais que não lhe custou a parte do choro. Coitadinha, fica desamparada, o que foi que o levou? Não sei, não sei, jantou tão bem, estava tão satisfeito e de repente tombou para a frente e desfaleceu, os médicos dizem que foi uma paragem cardíaca.

A moto rola e leva consigo Robert e a sua companheira. É uma moça viúva que em tempos foi vítima de maus tratos domésticos. Robert nunca lhe perguntara, mas naquela tarde, de frente para o mar, não resistiu, Afinal, ele morreu de quê? Ela sorriu ao horizonte e sem tirar de lá os olhos embevecidos e a alma livre, disse-lhe, Deu-lhe uma wireless conection!

jpv


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Citação da Porta para a Vida


“Sabes, Mary, antes da morte, mesmo antes da morte, há sempre uma porta para a vida”

Busted John
In Motorcycle Chronicles – “Life and Death”
A publicar brevemente neste blogue.