Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Poema do Menino que Dormia

Poema do Menino que Dormia

Há momentos
Em que acordo
E noto que morri.

Nasci morto.
Cresci cego
E comandado.
E, hoje, não nego,
Morro acomodado
À fuga
Que empreendi.

A vida
Que havia a viver
Fugi.

Perdi-me os movimentos,
Algemei as mãos
E agrilhoei pensamentos.

E quando vim
A libertar-me os intentos,
O mundo não me acreditou…
E não me quis.

Era demasiado
O preço
Do que não fiz.

Estava extinta
A força,
Soçobrada a vontade
Do poeta
De tenra idade
Que acordou
Demasiado tarde.

Julgo ter cá dentro
Um fogo que arde,
Mas são só cinzas…

Um cadáver andante
De grande e vistoso porte
Deambulando pelas ruas,
Putrefacto,
Exibindo a vida da morte.

Há momentos
Em que acordo
E noto que morri.

Olho à volta
E vejo-me aqui,
No meu centro,
Na periferia de tudo o resto.

Ouço um sino
Longínquo e funesto
E vou a sepultar-me sozinho.

Foi tudo tão triste
E patético
Quanto errar
Uma curva do caminho.

O brilhante e profético
Sonho de ser
Desvaneceu-se.

Era uma vez
Um menino que dormia…
Hoje acordou
E veio ver
O homem que morria.

jpv


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Crónicas de África – Antes de África

Antes de África

Zibreira, 12 de setembro de 2012.

Pois, não é lá muito normal escrever uma crónica de África na Zibreira. Acontece que, bem vistas as coisas, a vida não é nada normal. Apresenta-se como se apresenta e nós, depois, na nossa pequenez, fazemos os juízos de valor e até inventamos conceitos impossíveis. Como o da normalidade, por exemplo.

Amanhã parto para África. Isto tem matizes diversos. Eu nasci em África, vivi lá oito anos, regressei há trinta e seis e amanhã é o dia de regressar. Este é um matizado especial. Um outro é a expectativa que familiares, amigos e colegas de lá têm manifestado. Toda a gente quer ajudar. Ainda não fui, mas os ventos africanos parecem já estar entrando na minha vida. E fazem promessas bonitas, Vem, vem, vais adorar, Isto aqui é a tua cara, Não precisas trazer boa disposição, há cá muita… assim se cumpram. E há um matiz de entusiasmo, as roupas pela cama, as malas abertas comendo o conteúdo e barrigudas de demasiado cheias, abri-las e deixar ficar aquilo que não era tão essencial assim, os alunos esperando. Dar aulas é sempre dar aulas, milagre ímpar, mas antecipo que o facto de serem outras terras e outras gentes traz também suas mudanças e suas aprendizagens e, claro, isso entusiasma. É um fervilhar de emoções…

E há tristeza. Lágrimas incontidas na noite. A mãe que fica, a mana, sim a deste blogue, a cunhada e o cunhado, os sogros, os tios, os primos, os amigos, a nossa casa, nosso lar, e essa falta, esse peso no peito que é deixar o menino para trás. O menino tem vinte e dois anos, feitos ontem, é um homem, o menino. Mas, se fosse ele a partir, acho que não me doía tanto. É natural os filhos buscarem vida. Partir eu e deixá-lo para trás implica dúvidas e dor e saudade antecipada. Espero que essa África de coração grande ajude a sarar estas feridas que agora se abrem.

Mas esse continente já se anuncia na nossa vida. E tens de ir não sei onde, E vais fazer não sei quê, E vais adorar isto e aquilo, E os dias são assado, E as chuvas, As estações, E o peixe, e as gentes que são maravilhosas… Sim… Essa África lá longe, hoje, e já tão perto aqui… Essa África de antes de África anda-me entusiasmando, só faltou levar o menino…

PS: Tinhas razão, mamã, um dia ia-me acontecer.
jpv