Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Efeito Devastador das Chuvas em Maputo

Lamento ter de reproduzir este aviso pelas razões que o provocaram, mas a divulgação torna-se importante. Agora, é altura de deitar mãos à obra e colocar a Escola a funcionar o mais rapidamente possível.
jpv

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AVISO | Amanhã (16JAN13) a EPM-CELP vai interromper a atividade letiva

A Direção da EPM-CELP comunica aos pais e encarregados de educação que, em consequência dos efeitos das fortes chuvadas caídas nas nossas instalações e respetivas imediações, haverá amanhã (16JAN13) interrupção das atividades letivas. Mais se informa que durante o dia de amanhã será emitido novo comunicado a anunciar a reabertura das aulas.

Devido ao facto de a EPM-CELP não dispor de sinal de internet, por impedimento técnico dos seus fornecedores, deverão os pais e encarregados de educação seguir a evolução da situação através desta página do Facebook, uma vez que o acesso à nossa página oficial na Internet poderá não estar disponível enquanto durar aquele impedimento. Neste sentido, solicitamos aos pais e encarregados de educação o apoio na difusão e partilha deste aviso através das suas redes sociais de contactos.


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Crónicas de África em Imagens – Maputo

Crónicas de África em Imagens – Maputo

Maputo, 12 de janeiro de 2013

Caros Leitores e Amigos,

Inicio hoje a publicação de algumas Crónicas de África com poucas palavras. Porque um amigo moçambicano a viver em Portugal, o Jorge, me pediu. Porque diversos leitores sugeriram que colocasse imagens nas crónicas. Como não colocarei imagens nas crónicas por uma questão de princípio, farei algumas só com imagens. A escolha é aleatória, sem qualquer critério que não fosse o de captar alguns dos espaços mais conhecidos. Começo pela Capital. Desfrutem.


Restaurante Mundus, Av. Eduardo Mondlane.

Restaurante/Pizaria Pirata, Polana.


Hotel Polana, Av. Julius Nyerere.


Av. Julius Nyerere.


Museu de Geologia, Av. 24 de Julho.


Restaurante/Pastelaria Cristal, Av. 24 de Julho.


Pastelaria Nautilus, Polana.


Museu de História Natural


Av. 24 de Julho.


Rotunda do Hotel Cardoso


Av. Vladimir Lenine


Fortaleza


Capitania do Porto Marítimo.


Estação do Caminho de Ferro.


Casa Elefante, Av. 25 de Setembro.


Edifício do Café Continental, Av. 25 de Setembro.


Edifício do Teatro Scala, Av. 25 de Setembro.


Jardim do Tunduro


Praça do Município e estátua de Samora Machel.


Bazar, Av. 25 de Setembro.


Catedral de Maputo


Rádio de Moçambique.


 Clube Naval.


Igreja da Polana.
jpv
Todas as imagens foram captadas por mim
ou por familiares enquanto eu conduzia. 
A esse propósito, um agradecimento ao Luís 
pela paciência e disponibilidade.


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Crónicas de África – Road Trip Maputo – Vilankulo e Volta.

Crónicas de África – Road Trip Maputo – Vilankulo e Volta.

Vilankulo, 21 de dezembro de 2012

Eram quatro da manhã. Maputo nem parecia a mesma. Uma calma e um silêncio pintados pelo breu da noite que começava a render-se à luz. Nenhum veículo em trânsito. Cruzámos a avenida 24 de Julho como se estivéssemos numa cidade fantasma. Levámos meia hora a abandonar o perímetro da capital. Como prevíramos, nenhum auto-stop. Só começaríamos a ver auto-stops por volta das seis da manhã. Fizemos 740km em 10 horas à ida, em 16 horas à vinda, cera de 1600km, portanto. passámos por cerca de 30 brigadas policiais e só nos mandaram parar uma vez, na viagem de ida, a 17km do destino. Boa tarde. Boa tarde. O livrete, por favor. Aqui tem. Pode seguir, mano.

Muitas vezes corrigi os meus alunos por dizerem, Em Moçambique faz-se assim, Em Moçambique é assim, Em Moçambique funciona assim. E lá atalhava eu dizendo que não podiam referir-se a todo o país pelo conhecimento que tinham da Capital. Maputo é a Capital, mas não é Moçambique. Dizia isto sem conhecimento de causa. Pelo cálculo, pelo bom senso e por algumas leituras. Hoje, ainda não tenho todo o conhecimento de causa, mas sei, pela riqueza que a viagem teve, que Moçambique é um país fantástico, muito para além da sua Capital.

A paisagem é arrebatadora. Começa com grandes planícies, a perder de vista, com o horizonte “limpo”, cortado por aquilo a que o Iago chama de “Árvores à Rei Leão”. Depois, é todo um imenso palmar, uma mar de verdes luminosos a emoldurar a paisagem. De quando em vez, como em Zavala, ou em Inharrime, o azul turquesa do Índico vem compor o cenário e chega, mesmo, no caso de Inharrime, a beijar a estrada. É um azul intenso e irrepetível. Não é um azul forte. É um azul clarinho e límpido a fugir para o tom de verde-água de uma água de colónia que a minha mãe usava quando eu era criança. E, pelo meio das árvores e da vegetação, são às centenas os povoados construídos em casinhas redondas com telhados de palha (palafita) atada e apertada. E estes povoados, mesmo em pisos térreos, estão impecavelmente varridos e o seu traçado é perfeitamente visível.

Ao longo dos 740km há, sem exagero, pelo menos de vinte em vinte quilómetros, às vezes nem tanto, uma Escola Primária. Mais ou menos a cada cinquenta quilómetros, há uma maternidade e um posto da polícia e, sim, há combustível ao longo do caminho, embora, por vezes, alguns postos estejam avariados.

À exceção das auto-estradas, que são estéreis como consequência do seu próprio conceito, as estradas são centros de vida, espaço de negócios e transações, ponto de encontro, e a Nacional 1, que cruza o país de Sul a Norte, com retas de várias dezenas de quilómetros, algumas a perder de vista, é uma estrada constantemente bordejada de vendedores de tudo o que é vendável. Primeiro a venda da castanha de cajú com os rapazes a assinalarem os seus pontos de venda atando inúmeros sacos de plástico transparentes a uma árvore ou a um fio estendido entre dois pontos. Os sacos emprenham com o vento e fica um espetáculo de atrair atenções. Depois a zona da lenha. As pessoas fazem molhos de lenha, empilham-nos à beira da estrada e ficam à espera que alguém os venha comprar. Pode vir uma pessoa comprar um molho, como pode parar um camião e levar tudo de uma vez. Depois, a zona dos ananases. Grandes, pequenos, verdes, maduros, são pendurados em bancas de venda e vendidos baratos. Depois a zona dos cocos. Um saco com cinquenta cocos custa 200 meticais, mais ou menos 5,4€. Depois a zona das mangas, onde são vendidas ao alguidar (mais ou menos 10kg) ou à lata (mais ou menos 20kg). Se pedirmos para comprar uma manga, encolhem os ombros como se não batêssemos bem da tola e oferecem-na. Quem é que quer uma manga?! Há ainda a zona do carvão e das massarocas, cruas e assadas e há aquela cidade onde para se entrar ou sair, alguém tem de levantar uma cancela e há a zona do piri-piri onde se montam umas estantes em madeira e se expõem as garrafas enfileiradas.

E, além de tudo isto, há as vendas ocasionais. Alguém tem lá em casa qualquer coisa que quer vender e vem para a beira da estrada. Achámos particularmente curioso um jovem com um coelho branco pendurado pelas orelhas, com ele bem erguido no ar, a ver se alguém o queria levar.

Quando paramos para comprar umas mangas, perguntei a como eram, a vendedora apontou para um alguidar e disse, Cinquenta. E depois apontou para uma lata enorme e disse, Cem. Eu apontei para o alguidar e disse, Levo aquelas. Ela vazou-as para um saco, eram seguramente mais de dez quilos de mangas e tinham custado cinquenta meticais (mais ou menos 1,25€). O Iago perguntou-me, Como é que sabias que era 50 por todas? Eu pensava que era por cada uma. E eu ainda hoje penso na pergunta dele. Eu não sabia, calculei. Acho que, com o tempo, nos habituamos às dádivas da Natureza já que tudo o resto é tão caro e difícil.

Quando parámos para comprar ananases, demos com uma simpática e desdentada anciã, apareceu com uns ananases enormes, para aí com mais de dois quilos cada um. Quanto queres? Cinquenta. Ok, dá cá dois. E quando ia para seguir, ela levantou a mão como que a dizer Não vás já e disse:

– Papá, não tens um chocolate?
– Chocolates não tenho, não posso comer, fazem-me mal aos dentes.
– Mas posso eu, já não tenho dentes!

E largámo-nos todos a rir. Fiz-lhe uma contra-proposta:

– Tenho aqui uma Laurentina, queres?
– Quero.

O Iago deu-lhe a garrafa da cerveja para a mão e senhora começou a dançar e a rodopiar sobre si própria, esfuziante de alegria e cantando Obrigado! Obrigado! Obrigado! O interessante é que ela dera mais importância a uma oferta do que ao facto de ter acabado de vender dois ananases. E foi-se afastando do carro e a miudagem foi atrás dela, não tanto por lhe cobiçar a cerveja, mas mais por partilhar a alegria do momento.

À medida que atravessámos localidades mais povoadas como Xai-Xai, Quissico, Lindela, Maxixe, Morrumbene e Massinga, era sempre o mesmo espetáculo de cor e odores frutados e movimento e ruas de passagem transformadas em autênticos mercados com os produtos em bancas e pelo chão numa riqueza e numa demonstração de vida ímpares.

Quando chegámos a Vilankulo estávamos cansados, mas estávamos, também, saciados. Finalmente, ambientes genuínos e livres onde nem tudo está controlado. Quero dizer, onde quase nada está controlado e a vida brota e acontece com a pujança que a carateriza. Finalmente, um pouco de Moçambique fora de Maputo. Finalmente uma viagem à moda antiga, com incidências e peripécias, com paragens e trocas e conhecimentos. Depois conhecemos Vilankulo, que escreverei em breve, e regressámos pelo mesmo caminho mas com parte do percurso feito de noite. Completamente desaconselhado. Carros sem luzes a ultrapassar em contra-mão, atrelados sobrecarregados a partirem o engate com o veículo e a despistarem-se ambos,  pneus que rebentam e eixos da direção que partem por excesso de peso. Carrinhas pequenas que levam tanta gente e mercadoria que parecem almejar o céu, mas que perdem o equilíbrio e tombam para o lado. Uma aventura e um risco.

Viajar é uma experiência única. Viajar em Moçambique é uma experiência única e especial. É conhecer as gentes as terras, as movimentações, a força do labor e a paisagem de cortar a respiração. Tem magia e encanto este país e eles notam-se mais quando se cruzam as terras. E, por falar em cruzar terras, nesta viagem cruzámos o Trópico de Capricórnio que está assinalado com placas e onde fizemos a tradicional fotografia. Só um pormenor entre tantas coisas a registar. Melhor do que isto, só arranjar tempo e cruzar o país todo. Coisinha para 3000km e volta. Que é lá isso?!

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Dados da viagem:
Quilómetros percorridos: mais ou menos 1650.
Horas decorridas: cerca de 26.
Litros de combustível: cerca de 80.
Coca-colas bebidas: cerca de 16
Águas tónicas: 2.
Cervejas bebidas: 1.
Água consumida: mais ou menos 8l.
Frangos comidos: 1.
Mangas compradas: cerca de 20kg.
Ananases comprados:2.
Capulanas compradas: 2.
Canções ouvidas: cerca de 330. O Iago foi à Estrela, em Maputo, e comprou uma “coisa” onde se enfia a pen/flash com música, depois liga-se ao isqueiro do carro, e depois o rádio sintoniza a “coisa” como se fosse uma estação de rádio. Com comando e tudo por 180 meticais.
Auto-stops encontrados: mais ou menos 30.
Auto-stops em que fomos mandados parar: 1.
Paragens para comer: sei lá! umas seis.
Paragens por outras razões fisiológicas: bué!
Conselhos: Faça Você Mesmo!
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jpv


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Crónicas de África – Mundo Pequeno


Mundo Pequeno

Maputo, 19 de novembro de 2012

Este blogue é absoluta e completamente independente e o seu proprietário e gestor não deve nada a ninguém, exceto à Caixa Geral de Depósitos, logo, por aqui se fala do que quero e me apetece desde que me dê na gana, que não é real, e faço a publicidade e promovo quem muito bem entendo. Ou seja, nesta crónica vou referir marcas e/ou produtos e assumo a responsabilidade.

Um dos ex-libris de Maputo é o Café-Bar-Pastelaria Continental. Fica ali próximo do Bazar (Mercado Central) e do Mercado do Pau e é um espaço amplo de mesas generosas e uma colunata altíssima e imponente com uns feitios em “L” escrito à mão a encimá-las. Tudo aquilo transpira bem estar e paira no ar um odor adocicado a pastelaria acabadinha de confecionar. Acresce, ainda, uma esplanada em cima de um estrado em madeira de dimensões consideráveis. A pastelaria é muito boa e o café de excelente qualidade. Quem for um bocadinho cusco não dispensa um pequeno almoço de sábado ou domingo naquela esplanada porque faz esquina e dá para ver quem vai, quem vem e quem fica.

No domingo, fomos lá tomar o pequeno almoço. Arrofada mista com um toquezinho de manteiga, café e chá. E estávamos muito descansadinhos a cuscar o passar das gentes, escondidos no nosso anonimato de recém-chegados, quando passa por nós um homem alto e bem constituído que para a olhar para mim, dá dois passos na minha direção e diz:

– Olá! Então o que é que faz por aqui?

E quando me levantei por educação e lhe estendi a mão, reconheci-o, mas não o identifiquei:
– Eu estou a conhecê-lo, mas tem de me dar uma ajuda.
– Então, da Pizaria Catita!
– Mas isso é no Entroncamento!
– Era! Tive de a fechar!

E relembrei uma mãe trabalhadora que em tempos se sacrificou educando dois filhos, uma rapariga e um rapaz, e o rapaz cresceu no negócio e fez-se nele e a simpatia com que nos tratámos nesses dias distantes da
Pizaria Catita guardou emoções nos corações e essas emoções vieram reencontrar-se em Maputo onde me julgava anónimo, mas, ao que parece, não sou assim tanto.

É pequeno, o Mundo. Sobretudo quando os corações dos homens são grandes. O rapaz, hoje um homem, já brevemente descrito, reconheceu-me. Conversámos um bocadinho, trocámos números de telefone e, claro está, estabelecemos um elo.

Depois, quando saímos dali, demos uma volta pela marginal de que vos mostro algumas fotos, e eu fui pensando, Quantas pessoas mais estarão em Maputo que eu conheço de outras paragens? É pequeno, o Mundo.
jpv

Avenida Marginal, sentido Costa do Sol, 6:30 a.m.

Avenida Marginal, sentido Costa do Sol, 6:30 a.m.

Avenida Marginal, sentido Maputo Centro, 11:30 a.m.

Avenida Marginal, sentido Maputo Centro, 11:30 a.m.


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Atenção, Atenção, Psssit, Ó Fachavôr!

Serve a presente simpatia para prevenir os amigos de cá e fazer pensar e/ou sorrir os de lá. Eu já fui às velas e aos forfes. Mai nada!


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Crónicas de África – O Salazar da Costa do Sol

O Salazar da Costa do Sol

Maputo, 8 de novembro de 2012

Eu gosto de fazer surpresas. E gosto de ser surpreendido. Para ser sincero não sei bem com que é que me espanto mais, se com a surpresa dos outros, se com a minha própria. A surpresa tem mistério e tem também revelação.

A Avenida Marginal, em Maputo, é lindíssima e é assim uma espécie de interminável roteiro de contemplações. Começa ainda bem no miolo da cidade, ali junto ao Ministério das Finanças e desfia-se sob as palmeiras bordejando o mar até à Aldeia dos Pescadores.

Um dia repleto de trabalho. Uma curta pausa para almoço. Uma simples hora. Duas sandes, dois sumos, e aí vamos nós estacionar o carro de frente para a magia das ondas a castigar o areal. Estava um tempo cinzento que é outra forma de o mar estar bonito e desabou uma água certa salpicando a areia e o carro. E ali ficámos comendo sem viv’alma por perto. Descansa o corpo, repousa a cabeça, estende-se o olhar da imaginação mar adentro e menos de uma hora depois, está-se pronto para outra fiada de trabalhos e canseiras. 

Estávamos neste contemplar coisa nenhuma para dentro enquanto o olhar embalava na ondulação, quando ele chegou assim que a chuva deu uma pequena trégua. Não tinha mais do que dezasseis ou dezassete anos. Trazia uma carrada de DVDs com ele, bateu no vidro que eu abri:
– Tens romances?
– Tenho aqui este. 
E estendeu-me um filme chamado “Kama Sutra” rodado na Índia.
– Não é bem esse tipo de romance, é mais uma comédia romântica.
E ele desfilou filmes de ação com o Chuck Norris e o Steven Seagal, o James Bond e uma série de títulos que escapavam ao que lhe tinha sido pedido. Quis meter-me com ele, mas como acho que não devemos falar com as pessoas sem saber-lhes o nome, perguntei:
– Como te chamas?
– Salazar.
– Salazar, nome interessante.
– Sim, mas eu sou o Salazar da Costa do Sol, não sou o António Oliveira.
– E tu sabes quem é o António Oliveira?
– Sei. Se ele fosse vivo, Portugal não estava em crise! Mas vocês não gostam dele lá em Portugal, não é?
– Depende, é como tudo. Há quem goste e há quem não goste. Eu não gosto muito.
– Ninguém gosta lá em Portugal. Até rebentaram com a cabeça da estátua dele em Santa Comba Dão!
– E tu sabes isso tudo? Aqui na Costa do Sol, na outra ponta do globo, tu sabes que há uma terra chamada Santa Comba Dão…
– Tenho de saber, eu sou Salazar. Mas não o António Oliveira.
E largámo-nos a rir. Comprei-lhe um DVD com filmes da National Geographic. Acho que não precisava, mas este miúdo merecia.

As surpresas que a vida nos reserva. Nem sequer faço análises de teor político. Não é isso que me interessa e o assunto está gasto e esfarrapado. Mas está uma pessoa na Costa do Sol, no hemisfério Sul, mais perto do Cabo da Boa Esperança do que de casa e aparece um miúdo imberbe a vender filmes do Chuck Norris que nos fala, com propriedade, da nossa História e sabe nomes de terras que a maioria dos jovens em Lisboa ou no Porto desconhece. Fantástico. Gosto do Salazar… da Costa do Sol!
jpv


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Crónicas de África – Onomástica


Onomástica

Maputo, 6 de novembro de 2012
À medida que o tempo vai passando, ficam mais coisas na retina do que a simpatia e a alegria moçambicanas. Uma delas é a criatividade. Ela está presente na arte com que esculpem a madeira, trabalham o arame, a chapa, pintam o pano, desenham, cantam, dançam e… põem nomes uns aos outros!


A onomástica moçambicana está cheia de surpresas e pormenores deliciosos. Não conheço todas as pessoas cujos nomes aqui revelo hoje, mas só revelo nomes que sei que existem seja porque conheço as pessoas, seja porque conheço quem as conheça. Ou seja, se não comi, vi comer!

Um dia destes num restaurante uns amigos estavam a gostar da simpatia do serviço e perguntaram o nome ao empregado. O breve diálogo que se segue foi mesmo ao nosso lado e perfeitamente audível:
– Como se chama?
Caranguejo.
– Não, não queremos o caranguejo. Queremos saber o seu nome.
– O meu nome é Caranguejo!

De seu nome completo, Maria da Segunda Distração, parece não ter vindo ao mundo de forma muito planeada. Coisas que acontecem!

O dia estava cinzento e àquela hora em que rebentaram as águas à grávida não se via um palmo à frente do nariz. Ficou Escuridão.
– Estou grávida!
– Não estás nada!
– Estou grávida!
– Já te disse que não estás nada grávida!
A senhora estava mesmo grávida. Nasceu uma menina e chamou-se-lhe Razão. Ela tinha razão. Ah tinha, tinha…

Um dia destes fui ter com o vizinho que é agora o responsável pelos assuntos da Comissão de Moradores:
– Bom dia. Chamo-me João Paulo e moro ali no 1.º Esq.
– Bom dia, senhor Paulo. Eu sou Pacífico.
– Eu também.
Pacífico é o meu nome…
– Ah… interessante nome. Prazer em conhecê-lo senhor Pacífico.

Ela esperou que ele nascesse. Eram seis horas quando ele nasceu e Seis Hora ficou. Para quê inventar mais. O nome diz tudo!

Fui comprar uma T-shirt e umas calças africanas, todas brancas com uns desenhos pretos, assim umas girafas e uns potes e coiso e tal:

– Boa tarde, como te chamas?
Piriquito.
– Boa! Eu sou Videira para tu poisares.
Gargalhada geral e o negócio fez-se. Como a imagem comprova!

Há muitos homens que se chamam Castigo, eu já conheci dois, e ouvi uma história de uma senhora muito alegre e bem disposta, como é normal por estas paragens, a quem puseram o nome de Tristeza… é que não está com nada. Carrega a tristeza no nome mas vai de cara alegre.

Depois, há uma série de pessoas que carregam consigo o pragmatismo do quotidiano. Uma coisa que tenho notado é que alguns nomes refletem objetos e realidades muito práticas do dia a dia. Assim, se algum dos amigos e leitores vier a Moçambique e alguém disser que se chama Alface, Colher ou Cadeado, não se ponha logo a rir. Olhe que é mesmo o nome da pessoa. E porque não?

Às vezes fico com a sensação de que a sonoridade das palavras se perde com a travessia do oceano. Diz-se láááááá de uma maneira e ouve-se cááááá de outra, o que não é de estranhar, dada a distância. A dos quilómetros e a outra, mais importante, a que viaja na cabeça das pessoas. Quando fomos à Macaneta, parei numa loja para comprar umas bebidas e vi uns bolos num alguidar:
– O que é isto?
– Fiôsse.
A palavra não me disse nada, mas à primeira trincadela percebi que eram filhoses, ainda que com outro aspeto. O ventou soprou a palavra e ela desgastou-se no caminho. Gosto bem de fiôsse.

E há um amigo português que trabalha aqui em Maputo que diz que estão a trabalhar na empresa dele, entre outras pessoas, o Boaventura Prego Parafuso e a Última Delícia do Casal Carvalho.
Os meus sogros chamam-se Carvalho, pensei que a minha mulher e a minha cunhada eram as últimas delícias do casal Carvalho, mas afinal parece que não! Mai nada!

jpv


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Crónicas de África – O Boss Africano Reencontra o D

O Boss Africano Reencontra o D

Maputo, 3 de novembro de 2012

Alguns dias depois do primeiro encontro, o então batizado de Boss Africano reencontrou o Grande D. E o negócio fez-se. O namoro via sms continuou com propostas e contra-propostas, avanços, recuos e cedências. A determinada altura marcou-se novo encontro, apuraram-se os valores e a qualidade da mercadoria. O D recebeu o Boss Africano e sua dama e levou-os a conhecer os carpinteiros artesãos que produzem as peças, camas, cadeiras, cómodas, cristaleiras, oferta para todos os gostos. Atravessámos o mercado de Malanga, enveredámos por ruas estreitas de terra batida, casas de bloco sobre bloco, construções em chapa de zinco, crianças brincando no emaranhado de ruas estreitinhas, uma casa bem acabada no meio do caos. Até tinha um breve relvado, mais ruas, até chegarmos a um largo de dimensões generosas no meio do casario. E aí estavam madeiras por todo o lado, ferramentas e homens trabalhando a matéria prima. 

Conhecemos um dos carpinteiros, amigo do D, que se comprometeu com uma data para entrega. Acertou-se um valor de sinal e em meio disto tudo, o D e o Boss Africano foram conversando. Da arte de trabalhar a madeira, do preço das coisas, de como o boss veio a ser africano e, a certa altura, o D disse:
-Boss, devíamos ser amigos…
Fui prudente. Muito prudente, mas percebi a sinceridade da proposta. E estava a pensar nela quando ele acrescentou:
-Quem sabe se vieste ao mundo para me salvar…
Depois pediu desculpa por não tirar os óculos escuros, mas a noite tinha sido severa nos vapores etílicos e na farra e ele estava com vergonha de mostrar a vista encarnada.

Mais tarde veio entregar a mercadoria. Atrasou-se. Nem seria moçambicano… mas vinha tudo certinho. Enquanto os outros montavam a cama, ele viu uma bíblia no quarto e perguntou, Boss, posso rezar em tua casa? Podes. E começou a rezar o que sabia e como sabia enquanto os colegas trabalhavam.

No fim, repetiram-se palavras de entusiasmo, acertaram-se contas e o D foi à sua vida. Cruzar-se-á com a minha em breve. Tenho a certeza. Por uma razão ou por outra. 
jpv


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Crónicas de África – O Boss Africano

O Boss Africano

Maputo, 2 de novembro de 2012

Eu gosto desta terra e gosto destas gentes. Mesmo levando em consideração que ainda vivo dias abençoados pela aura da novidade e da descoberta, mesmo sabendo que dias virão em que as coisas correrão menos bem, a essência destas pessoas, as linhas com que se urde o quotidiano desta terra, agradam-me imenso. É por isso que a história que hoje vos trago se reporta a acontecimentos que comportaram riscos, mas que, só os vivendo, saberiam que não havia risco nenhum. Só pessoas. Só negócio. É a história do Boss Africano.


Como sempre, tudo começa com uma necessidade. Neste caso, uma necessidade de relativa importância. Ainda assim, como a estética e o conforto são alimentos da alma e do corpo como se de pão e água se tratasse, lá tentámos satisfazer a necessidade. Era preciso comprar uma cabeceira de uma cama. Sim, só a cabeceira. Metemo-nos no carro e fomos pela avenida 24 de julho abaixo e lá ao fundo, mesmo quase a terminar a avenida, tem-se à direita o mercado Malanga e à esquerda uma série de vendedores de mobílias em madeira maciça de diversas qualidades. A Paula ficou no carro e, assim que saí, abordaram-me dois tipos altos e espadaúdos:
-Como é que é boss?
-‘Tá-se bem. Dá cá mais cinco.
E estendi-lhe a mão na posição “braço de ferro” para um cumprimento bem à macho. Ele, primeiro estranhou, mas de imediato mandou às malvas a cara séria, abriu um sorriso, apertou-me a mão e disse, Este boss é nice! O que é que precisas boss?
Resolvi aproveitar a simpatia, a boa onda, e abrir o jogo. Assim, em vez de fingir que queria armários para só depois avançar para as camas, ataquei logo:
-Como te chamas?
-D.
-Ok, D, preciso de uma cabeceira de cama para oferecer à minha dama.
-O boss é romântico.
-Sempre.
-Ó boss, e qual é a cama que te agrada mais?
-Não quero uma cama, quero só a cabeceira.
-Eh boss, então como é isso? Vais estragar uma cama para aproveitar só a cabeceira?
-Não. Vais-me fazer só a cabeceira.
E vai daí começou a mostrar-me cabeceiras e mais cabeceiras e às tantas perguntei-lhe o preço e ele disse uma exorbitância de preço que dava para comprar dez cabeceiras de cama e foi então que decidi testá-lo:
-Olha lá, então mas tu achas que eu não sei quanto custa a madeira e quantas horas de trabalho aí tens? Para negociarmos, não podes falar nem em metade, senão vou-me já embora, olha, dou-te…
E disse-lhe um quinto do valor que ele tinha pedido.
-Eh boss, é duro negociar contigo!
E eu voltei à carga:
-Olha, estás a ver o meu braço? É branco por fora mas por dentro é tão preto como o teu… Tu não vês que eu sou africano. Quando olhas para mim, em vez de veres uma carteira com notas, tens de ver um irmão africano..
-Eh Zacarias, anda cá que este boss é africano… e largou-se a rir. Depois deu-me outro aperto de mão e disse que me ia mostrar mais coisas e começou a entrar por casas e casinhas e casotas e casebres e já ia ele e eu e mais uns oito ou nove atrás de mim. Vi dúzias de camas, armários, cadeiras trabalhadas lindíssimas sempre tu cá tu lá com o meu amigo D e sem nunca ver a luz do dia de casa em casa. Quando reparei, estava de tal forma embrenhado no bairro que não sabia bem onde estava ainda que soubesse o caminho de volta. Parei, olhei para o cortejo que nos seguia e disse-lhe:
-Ouve lá, o que é que querem estes tipos todos? Não me digas que cada um deles me vai pagar uma 2M?
Desta vez a gargalhada foi geral. Lá vim com ele até à rua.
-Então boss, vais levar?
-Vou buscar a dama. Sabes, a minha dama é como a tua.
-Como assim?
-É ela que manda lá em casa!
Ele não se riu ao princípio mas os outros desataram a rir na cara dele e começaram todos a falar em changana.
-Eh boss, tu és duro. Traz lá a tua dama.
-E posso deixar ali o carro? Não mo desmontam todo?
-Eh boss aqui é tudo gente boa. O carro está controlado.
-Fixe!
E lá fomos os três com a romaria toda atrás. Demos uma voltinha mais pequena, mas suficiente para a Paula perceber por onde eu tinha andado. Foram sempre muito simpáticos e afáveis e tivemos sempre uma conversa muito aberta, muito nivelada e, sobretudo, muito bem disposta. Às tantas o D disse:
-Hei boss vou-te reiterar…
-Alto e para o baile, assim é que é falar. Olha que eu sou professor e tenho alunos que não demonstram essa propriedade vocabular…
-Sabes como é que é, boss, quem está no negócio tem de ter nível.
No fim, acabámos por não fazer negócio, mas isso não azedou a conversa nem um bocadinho. Terminámos por ali as conversações mas resolvemos trocar números de telefone e quando lhe dei o meu número, o D, enquanto o gravava disse com um sorriso a iluminar-lhe a cara, Vou escrever aqui boss africano!

À hora a que vos escrevo, ainda não fechámos negócio, mas também ainda não terminou o namoro. Temos andado a medir forças via sms e o preço está neste momento num plano em que, penso, as duas partes podem aceitar… a ver vamos se se encontra o ponto de equilíbrio entre o D e o boss africano. A visita pelos armazéns e oficinas e casas foi interessante. Para já, porque, claramente notei que os “boss” não costumam ir tão longe, depois, porque admirei o facto de isso lhes ter agradado. Eu não fui um intruso, fui uma pessoa que se interessou pelas coisas deles. E, claro, fui sempre um potencial comprador. Riscos? Talvez. Admito que sim. Mas nunca os senti. Pelo contrário, estive sempre muito tranquilo e à vontade. Acho mesmo que esse é o segredo que abre as portas… da alegria e da simpatia intrinsecamente moçambicana.

jpv


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Crónicas de África – Visita à Macaneta

Visita à Macaneta

Maputo, 31 de outubro de 2012

Num destes domingos, decidimos visitar a Macaneta. Digamos que é a praia mais próxima de Maputo onde, efetivamente, há condições para se desfrutar de um dia de praia. E o investimento foi bom. Sobretudo porque se revelou uma visita muito interessante em diversos aspetos, desde logo, a viagem em si. O tempo estava indeciso, mas isso não nos assustou. A Macaneta é uma língua de terra que, dum lado tem o rio Incomati e do outro o oceano Índico. Não se acede de carro. É preciso ir até Marracuene e atravessar o rio num ferry. Pelo menos, disseram-nos que era um ferry. Quando lá chegámos, não era. Mas isso pode esperar! A primeira decisão foi escolher a estrada. Ir pelo asfalto e demorar cerca de 15 minutos a chegar a Marracuene, ou ir pela estrada de terra e demorar… o que demorasse! Demorou cerca de duas horas a fazer 30Km. A viagem foi interessantíssima. Assistimos gradualmente à substituição do urbanismo pela ruralidade. A estrada é larga. Tão larga quanto os enormes “lagos” de lama que a atravessam totalmente e que é preciso passar, tão larga quanto as lombas que é necessário subir e descer. Ou nuns, ou noutras, ficou a nossa chapa de matrícula da frente! Pelo caminho, as mesmas assimetrias da cidade. Casas enormes e muito bem acabadas e outras muito pequeninas e humildes. Vendas de beira de estrada, cafés, pontos de venda de crédito para telemóvel, cabeleireiros e até um cibercafé. Mangueiras enormes carregadas de fruto, miúdos correndo pela estrada, pessoas dirigindo-se a um casamento que acontecia nesse dia, e, sobretudo, muita gente nos saudando só pela alegria de o fazer, Bom diiiia!, Bom diiiia! Demos boleia a uma senhora idosa que ia para a missa. Sou católica, disse ela como se fosse uma carta de apresentação. Agradeceu os quilómetros que poupou às pernas.

Marracuene é uma terra muito pequena, mas muito agradável. Tem um jardim bem simpático com uma vista fabulosa sobre o rio donde se podem ver os dois cais do ferry de ambos os lados do rio. Olhámos e não vimos o barco. Olha lá, tens a certeza que era nesta terra? É que se veem lá em baixo os cais, pessoas à espera do barco, movimento, mas não se vê o barco o que é esquisito porque a travessia deve ser aquela. Olha e se fôssemos lá ver? Vamos. E fomos. E não estava lá o barco, mas estava lá uma simples jangada a motor que, vista lá de cima, parecia a continuação do cais. Leva 6 carros de cada vez se dois deles forem com a frente de fora dos limites da embarcação. Nada de mais. Sigamos. E seguimos.

O primeiro impacto que sofremos na Macaneta foi o contacto com enormes manadas de vacas e uma fantástica diversidade de aves. Há pássaros exóticos para todos os gostos. Sobretudo na zona pantanosa junto ao rio. Uns pequeninos, muito amarelos e muito mexidos, uns pretos com o começo das asas em castanho fulvo, outros cinzentos, com as patas amarelas e muito altas, uns patos parecidos com mandarins mas muito mais escuros, garças brancas, cinzentas, corvos de gola e mais uma série de surpresas com penas. Pelo caminho, magotes de miúdos dançavam à beira da estrada à espera de uma moeda e uma vez no extremo da língua de terra, é possível fazer uma caminhada pela areia com o rio de um lado e o mar do outro. Aproximou-se um homem de mim. Trazia uma lagosta na mão e ofereceu-ma por 100 meticais (mais ou menos 2,70€). Eu recusei porque não tinha onde a por, mas a Paula gozou tanto comigo por ter recusado um negócio tão vantajoso que comprei a próxima que me ofereceram. Os homens e os rapazes usam umas embarcações estreitas, de varas atadas, levam pequenas redes e pescam poucas peças de cada vez. Saem do mar e vêm vendê-las na praia.
Depois, visitámos a ponta oposta da Macaneta e reparámos que estava repleta de lodges que exploram a tranquilidade, a beleza da paisagem e, claro, a presença do mar. Passámos por uma aldeia completamente erigida em casas de palha. As mulheres estavam trabalhando e os homens deitados pelo chão. Um deles viu-me com a camisola do Benfica e disse-me, Para aí para eu tirar uma foto. Ok, estás à vontade. Ele não está com meias medidas, saca de um iPad última geração, tira a foto e grita, Benfiiica! E pronto, é assim, esta terra, a cada esquina, um contraste.
No regresso, a jangada estava avariada. Parece que é comum. Era preciso um tubo qualquer e o “comandante” estava à espera que alguém lho trouxesse. Quando perguntei quem é que traria o tubo, ele foi muito claro, Ora, o primeiro que aparecer e trouxer um pedaço de tubo! Até me arrepiei, mas o certo é que dez minutos depois apareceu um sul africano com uma pick up e por acaso tinha um pedaço de tubo daquela largura. Serrou-se à medida e já está. Viemos pelo asfalto e almoçámos num local que é uma espécie de jardim interior de uma casa onde há umas cabanas e cada uma delas tem uma mesa onde se pode almoçar. Tirando a demora, acho que foram caçar o frango para o matar e para o assar depois, correu tudo bem…
A Macaneta vale a pena, sobretudo pelas aves e pela zona onde se pode caminhar com água doce de um lado e o mar a bater do outro. Mais um contraste, na terra deles…
jpv