Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Citando Paulina Chiziane

Paulina Chiziane

Citando Paulina Chiziane

Paulina Chiziane não fala, conta histórias.

Conhecia-a recentemente num curso de formação sobre literatura organizado pelo Instituto Camões em Maputo.

Primeiro ouvia-a num breve agradecimento e esta noite numa longa e deliciosa entrevista magistralmente conduzida por Nelson Saúte.

Paulina vem da região de Gaza, cresceu nos subúrbios de Maputo e, reza a história, foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. O que é curioso porque nega ser uma romancista, Nem sei o que isso é. Eu sou só uma contadora de histórias.

A autora impressiona pela atitude genuína, confrontadoramente genuína, na forma como assume o que não sabe, como admite que não sabe quem é porque ainda anda à procura da sua identidade. De palavra fácil e franca, esta mulher que se diz contadora de histórias e sabedora de nada, Eu desenrasco-me, falou da história e da cultura de moçambique, de religião, de paganismo, de poligamia, do desencontro da Lei com a Vida e, confessando-se questionadora, procurou incomodar o público o que, a espaços, conseguiu.

Muito simples no trato, é uma pessoa despojada de títulos e assunções precipitadas de mérito. Apenas gosta de escrever histórias e fá-lo com a naturalidade com que as vive. Como disse, Eu tenho milhões de histórias.

Estive a ouvi-la durante quase duas horas sem que desse pelo passar do tempo e, no fim, para os meus leitores, trago uma mão cheia de citações. Algumas frases são pérolas do conhecimento ontológico e antropológico urdidas pela mulher que nada sabe, mas tudo questiona. Aqui ficam, pois, em jeito de partilha. E, claro, aconselha-se a leitura dos seus livros que indicamos no final deste apontamento.

“Se Deus está em todo o lado, também está em África.”

“O Cristianismo que vem com o colonialismo, é um Cristianismo intolerante.”

“Em África, Deus é concreto. Na Europa, Deus é abstrato.”

“O que tenho feito com os meus livros é uma partilha.”

“As mulheres enfrentam sempre um estigma. Se o Mia escreve bonito sobre as mulheres ninguém lhe chama feminista.”

“Se emprestas roupa a quem tem frio, se dás comida a quem tem fome, porque não emprestas o teu marido por solidariedade?”

“As leis são só para dez por cento da população. A população urbana. E esquecem os noventa por cento de população rural.”

“As sociedades poligâmicas têm vantagens, mas as mulheres sofrem sempre.”

“O meu vício chama-se questionar, incomodar.”

“Na História, há um gajo que eu admiro. Eu gosto de Luís de Camões. Mas não pela mesma razão dos outros. Eu gosto dele porque ele não seguiu um caminho, ele abriu um caminho.”

“O africano, perante a crise, recorda-se das suas raízes.”

“Nós, africanos, estamos condenados a ser duais.”

“Questionem tudo o que vos oferecem como perfeito.”

“O colonialismo continua na cabeça desta gente maravilhosa que se diz independente. Independente de quê?”

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Algumas obras de Paulina Chiziane:

Balada de Amor ao Vento, 1990.
Ventos do Apocalipse, 1993.
O Sétimo Juramento, 2000.
Niketche: Uma História de Poligamia, 2002.
O Alegre Canto da Perdiz, 2008.
Na mão de Deus, 2012.
Por Quem Vibram os Tambores do Além, 2013.

jpv


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Trabalhinho em Tempo de Férias…

Mesmo em período de férias, ainda houve tempo para responder a uma entrevista que a jornalista Shirley M. Cavalcante teve a simpatia de me propor e que, desde já, aproveito para agradecer.

Aqui fica a ligação esperando que gostem e se divirtam.

Até breve,

jpv

A ler aqui:


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Tento na TV – A Entrevista do Ano

Tento na TV – A Entrevista do Ano

“Não perca a entrevista do Presidente da República a Fátima Campos Ferreira.”

10 de junho – RTP1
Apresentador do  Telejornal das 20h
a introduzir o programa seguinte.

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Ora aqui está uma boa dupla notícia. Primeiro, porque alguém decide entrevistar Fátima Campos Ferreira, segundo, porque o entrevistador é uma figura de peso…
Já revias a sintaxe, não?


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Crónicas de Maledicência – O Regresso de Sócrates

Crónicas de Maledicência – O Regresso de Sócrates

Amor, Ódio e Indiferença
Pode gostar-se de José Sócrates, pode não se gostar de José Sócrates, pode amar-se Sócrates, pode odiar-se Sócrates, pode achar-se que foi um bom primeiro ministro ou pode achar-se que arruinou o país. O que não se pode, é ficar indiferente a Sócrates.

Ontem, a RTP arrasou a concorrência. Toda a gente, mesmo os que diziam que não iam ver, estive a ver e/ou a ouvir a entrevista do ex-Primeiro-Ministro.  O programa até ultrapassou, em audiências, as transmissões dos jogos de futebol do Benfica. Ou seja, independentemente do que os portugueses pensam dele, ontem quiseram ouvi-lo. Já hoje, a imprensa nacional e internacional, o parlamento e até o Senhor Primeiro-Ministro, na defesa que fez do Senhor Presidente da República, demonstraram não ter ficado indiferentes à reaparição pública de Sócrates.

Também não fiquei indiferente. Ouvi com atenção e tentarei comentar brevemente a sua entrevista naquilo que penso foram os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Não vou analisar a governação de Sócrates nem a do atual executivo. Vou cingir-me à entrevista de ontem. Só isso. E, claro, fá-lo-ei de forma racional e isenta.

Tomar a Palavra
Não percebo porque é que Sócrates não haveria de falar. Manifestar a opinião é algo normal em democracia. E não percebo como é que o mesmo povo que votou em António Oliveira Salazar para melhor português de sempre, fez uma petição para que José Sócrates não falasse na televisão. Aliás, mesmo aqueles que são contra Sócrates podem ter aqui uma oportunidade de pegar nas palavras dele e no facto de estar a expor-se para o contrapor, rebater e desautorizar. Já acho sintomático que o astuto engenheiro tenha usado a expressão “tomar a palavra” e não, por exemplo, “usar a palavra”… acaso? Não me parece!

Passado e Presente
O que menos gostei na entrevista foi o facto de ser tão centrada no passado e tão pouco projetada para o futuro. Percebo a ideia do ajuste de contas com as acusações de que foi alvo, mas penso que, se a intenção é participar, então que o engenheiro se centre no futuro e nas soluções que são precisas.

Pontos Fracos
Fundamentalmente, a visceral incapacidade de assumir erros. Sócrates não mudou muito em dois anos. É um político completo. Goste-se ou não, concorde-se ou não, é dos poucos políticos com um discurso claro, assertivo e intrinsecamente convicto. É um orador como há poucos em Portugal. Contudo, tem uma tendência quase instintiva para afastar de si a possibilidade de ter errado e centrar tudo nos outros. Mesmo sendo verdade que não será culpado de tudo o que o acusam, o seu segundo mandato está ligado a uma subida vertiginosa da dívida pública e a crise internacional explica algumas coisas, mas não justifica tudo. Por outro lado, foi pouco convincente em relação às PPP. Mesmo só tendo criado oito das vinte e duas, fê-lo quando todos os indicadores o desaconselhavam e apontavam no sentido contrário: extinguir as que se considerassem não ser absolutamente indispensáveis. Ou seja, é um comunicador muito bom, excelente registo discursivo, mas não consegue disfarçar alguns números e alguns erros que poderia e deveria ter assumido.

Pontos Fortes
Sócrates voltou em boa forma. Foi corajoso na forma como enfrentou as questões mais difíceis. Foi claro na forma como arrasou a ação do Presidente da República. Foi contundente na forma como se anunciou de regresso ao mundo político. Fez uma ponte lógica entre o chumbo do PEC 4, o pedido de resgate financeiro à Troika e a voracidade política do PSD. Foi generoso na forma como tratou a atitude do seu partido em relação a si próprio. Foi muito inteligente, e até leal, ao falar criticamente de ação governativa sem nunca pessoalizar em nenhum ministro, nem mesmo no Primeiro. E foi inteligente ao defender o que a sua governação teve de mais interessante, como, por exemplo, a mudança do panorama nacional no que respeita a energias renováveis e investimento estrangeiro.

Saldo
Se convenceu? Em alguns aspetos, naqueles de pendor mais político, admito que sim. Sabemos que sim. Nas questões técnico-financeiras foi demasiado generalista para ter convencido. Foi demasiado fugidio numa fase em que os portugueses, e bem, querem ver rolar cabeças. Uma coisa é certa, a cena política portuguesa ganhou mais um ator. Um comentador que aqueceu o ambiente político. Um homem gerador de polémicas e contradições. E mentiu. Disse que não voltaria à política ativa. Sócrates que me desculpe, mas o que eu vi ontem foi política do mais ativo que há… até já mexeu com meio mundo hoje. E o país a precisar de atenção em tantas outras coisas…

jpv