Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 24

Minha Menina Verónica,

A mudança mais importante é a que se faz por dentro. São as decisões que tomamos de nós para connosco. Foi um gesto de coragem, Verónica, foi um gesto de coragem. Sabes, é precisa muita coragem para amar.
Se desse para fingir, não era amor, minha menina Verónica, era outra coisa, uma coisa espúria e secundária. Isto que sentimos e vivemos em comum, ainda que separados, não pode ser fingido porque tema força da evidência e da verdade que lateja no peito. Não nos vejo no futuro, se era sobre o futuro que me interrogavas, mas vejo-nos hoje. E vejo-nos lindos, apaixonados, teimosos, ternurentos e inseguros como os miúdos aos 18 anos. E vejo-nos juntos conversando, brincando, cozinhando, comendo, amando… não me é difícil imaginar-nos, Verónica, porque é como se sempre nos tivéssemos conhecido.

Não há Céu nem Inferno. Há vida e há opções. Em relação a isso discordamos, mas acho que te referias mais a como nos sentimos relativamente a uma decisão que tomamos do que em relação a uma situação de vida. Toma as tuas decisões em consciência e estarás no Céu mesmo que seja um Inferno! Houve algo que gostei na tua formulação: a ideia de não resistires 🙂

Sim, irei até ti. Quero ser recebido pelos teus braços, quero entregar-me neles e quero receber-te nos meus. Quando nos abraçarmos, minha menina Verónica, mais nada existirá no universo que valha a pena ser vivido e isso é inestimável.

Amanhã ligo-te.

Teu homem Rui.


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 23

Tenho medo, Rui. Meu homem Rui. Tenho medo e quero. Desejo.

Sim, é amor. É verdadeiro e é nosso. Pronto. Já to disse. E agora, Rui? Assumi. Lutei comigo, contra mim, venci as minhas próprias forças e assumi. E agora, Rui? O que muda? Dizias que as palavras são gestos também… Que gesto foi este? O que mudou com ele?

Há algo que nos aproxima, meu homem Rui, não sabemos fingir, não queremos expurgar o amor que nos invade porque não queremos fingir a vida. Mas há outras pessoas, Rui.

Sim, isto é um tudo, muito mais do que um nada! Mas sabemos nós lidar com este tudo? Como nos vês, Rui? Como nos vês? Não és uma mão cheia de coisa nenhuma, Rui, és uma plenitude. Consigo conversar contigo, perceber-te, perceber-me através de ti, sentir-me compreendida. Mas não me sinto segura, Rui! Nem é este medo por mim. Eu tomo conta de mim. É pelos outros, Rui. Mostras-me o Céu e o Inferno e não lhes resisto, nem a um, nem a outro. Uma mulher é um instrumento do Amor se é de Amor que falamos.

Vem até mim, Rui. Vem até mim e receber-te-ei em mim!

Com Amor,
Verónica.


2 comentários

"Com Amor," – Documento 22

Minha Querida Verónica,

O sofrimento está em todo o lado, não só junto ao amor. É evidente que o sofrimento é um dos matizes do amor, mas é por isso mesmo que o amor é tão precioso. Se estivesse facilmente ao alcance de qualquer um, sem esforço, sem provação, sem a perspectiva da desilusão, não seria tão extraordinariamente valioso. Não basta amar. Há que superar as exigências que o amor nos faz para conhecermos a sua plenitude e é essa plenitude tem o preço do que é preciso sofrer para alcançá-la.

O que sofrerias tu por mim, Verónica? Pelo nosso amor? Posso admitir que não contes com nada. Que eu seja para ti uma mão cheia de coisa nenhuma, mas há entre nós este inegável tudo, esta força de atracção, este poder magnético que me faz querer tomar-te nos braços e acariciar-te e amar-te e fazer-te sentir o centro do universo do meu amor, desnudar-te o corpo e a alma e possuir-te ambos. E isto, Verónica, seja o que for, não é um nada. Está mais próximo de um tudo absoluto do que de um nada. Se pudesse, minha querida, esvaziava o meu coração e não pensava mais em ti, mas é ao contrário. A mais ténue lembrança de ti, da tua voz, do teu olhar, enche-me de esperança e vida e isto não pode ser nada, Verónica.

Sabes, minha querida, nós podemos expurgar isto de nós, podemos decidir não percorrer este caminho, mas o que não podemos é negá-lo. Não podemos negar esta força e esta corrente. Não podemos fingir que esta atracção, misto de querer o corpo e querer a alma, esta admiração vertida também na química do sexo possível, não existe.

Existe. É verdadeira e é nossa!

Com Amor,
Rui.


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 21

Rui, meu homem Rui,

Não sei que te diga. Apetece-me ter a tua coragem e o teu desplante perante a vida. Pela primeira vez desde que nos escrevemos, vi ternura no teu atrevimento. Apetece-me pensar que o amor é um valor em si mesmo e que as outras coordenadas são geríveis separadamente, isoladamente. Mas, Rui, onde há amor, há sofrimento e uma mulher sabe isso. Toda a mulher sabe que, para amar, terá de sofrer. Toda a mulher sabe que, quando ama plenamente, pode contar com tudo, com toda a plenitude e todo o esplendor do amor, mas sabe também que não pode contar com nada. Nenhuma mulher vive segura do que representa para um homem ou do amor que ele lhe tem. São elementos, são sentimentos, são vectores incontroláveis e voláteis.

Não estavas a falar de sexo, Rui, eu sei, e foi isso que mais me assustou.

Verónica


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 20

Verónica,

Eu acho que, por vezes, as pessoas em geral e as mulheres em particular, têm medo de usar as palavras. E também acho que, por vezes, têm medo de as ver usadas. A linearidade com que os homens encaram a vida, dá-lhes a vantagem de saberem com mais facilidade o que querem dela e, como tal, de se posicionarem e usarem as palavras com menos cautelas. As mulheres, por sua vez, não sendo mais complicadas, discordo dessa teoria, são mais profundas, mais complexas e isso leva-as a medir com prudência todos os gestos e todas as palavras que são gestos também. Repara, tu escreveste-me e leste-me e nunca tiveste problemas com isso, mas assim que o assunto é o amor e sabes que implica outras pessoas porque tens filhos e sabes que sou casado e tenho filhos, retraíste-te imediatamente e enclausuraste o amor dentro de um jogo de prudências, medições e mediações que o matam completamente. Enfim, quase completamente. Vamos às palavras-chave do teu mail. “Implicações”. São as que são. Tenho plena consciência delas à luz do que te disse e tenho também plena consciência de que só a mim cabe geri-las. Esse não é um problema teu, nem uma responsabilidade tua. As tuas implicações, isto é, as implicações na tua vida, cabe a ti gerir e não interfiro. “Lançar de escada”. Que expressão tão infeliz, Verónica, que expressão tão infeliz. Perante uma afirmação tão profunda e tão séria, perante o colocar das pedras do amor no tabuleiro da vida, tu falas-me em lançar de escada. Expressão marialva e prosaica. Não sei se reparaste, acredito que sim, eu não falei de sexo, nem nada que se pareça. Eu disse que tu precisavas de amar e eu estava no teu caminho. Quantas formas tem o amor? Até o escrito é válido, Verónica. Afinal, não precisei mais do que escrever para ter para ti um significado maior do que o próprio Deus. “Perdida”. Admito que sim, mas isso não invalida estares no meu caminho e esse ser um caminho de amor. O processo é simples. Precisas reencontrar-te, pacificar-te, e poderás, depois, perceber o que fazer com este caminho, mas não há dúvida de que estás nele tal como eu. Caso contrário o que significaria esta troca de mails? Não interessa que nos tenhamos zangado no início, Verónica, se vires bem, o que temos feito desde que nos escrevemos tem um nome: Chama-se NAMORAR!

Rui


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 19

Rui, fiquei preocupada com o teu mail anterior. Não quanto a Deus e ao entendimento que temos da Sua presença nas nossas vidas. Esse assunto fica encerrado por agora.

Mas o teu PS. Não sei se escreveste o que escreveste consciente das implicações do que lá está escrito. Não sei se aquilo era um lançar de escada, como se costuma dizer, se era uma forma amistosa de terminar um texto, ou se há, por trás do que lá está escrito, um universo de sentimentos sérios e significativos. As mulheres, Rui, esta mulher, Rui, não brinca com certas palavras ou, pelo menos, não as usa levianamente.

Surpreendeste-me.Há ali um atrevimento que vindo de ti não me espanta. Só não sei o exacto teor dele. Fiquei preocupada, Rui. Preocupada e perdida.

Beijo,
Verónica.

PS: Se estiveres no meu caminho, não sei em que caminho estou.


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 18

E quem me pôs no teu caminho para te ouvir?
Eu posso ser o instrumento de Deus na tua resiliência com Ele. Já te disse, não sou nenhum beato puritano, mas não viemos do nada nem estamos sós.

Rui

PS: Tu precisas de amar, Verónica. precisas muito de amar. O teu caminho é o amor e eu estou no teu caminho.


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 17

Já te disse uma vez, Rui, que a minha religião é o amor. Vou tentar pacificar o meu coração numa convivência tácita com Deus, uma espécie de pacto de não agressão. Mas não Lhe concedo mais do que isso. Até tu, Rui, até mesmo tu que me enervas e me irritas com o teu atrevimento e despudor, já fizeste mais por mim do que Deus.

Tu OUVISTE-ME, Rui!
Verónica


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 16

Pensa o que quiseres. Esse mesmo Deus que queres expurgar da tua vida está em ti pelos teus filhos!


Deixe um comentário

"Com Amor," – Documento 15

Desculpa, Rui, se te magoei ou ofendi. Em todo o caso temos aqui um problema. Tu disseste que eu era tua amiga. Ora, os amigos dizem o que pensam uns aos outros. Eu sinto que Deus é uma fraude porque fui sempre abandonada por ele. Nunca me sobreveio. Até pelos filhos, Rui, até por eles tive de lutar. Lamento que possa magoar-te, mas se eu não posso escrever-te o que sinto e penso, então que sentido faz continuarmos a conversar?

Vivi dificuldades em pequena, Rui. Talvez todos as tenhamos vivido. As minhas foram agravadas pelo temor a Deus. Pelo medo constante do castigo, por decorar orações cujo significado desconhecia, por praticar rituais de obrigação, por ser tocada, ainda menina, pelas mãos do padre sabujo e ter de calar porque ele era Deus e eu seria uma mentirosa se pensasse revelar o que quer que fosse. E, mesmo assim, Rui, procurei-o. Fui ao seu encontro, refugiei-me na Sua palavra. Rezei. Casei-me segundo as Suas regras e depois, Rui, foi em Seu nome que tive de calar a violência de que era vítima. Era eu ou Deus e durante muito tempo foi Deus. Até que a mulher em mim, a dignidade que restava, resolveu erguer-se. E quando me ergui, Rui, foi em nome de Deus que deixaram de falar-me, que a minha própria família me virou as costas e me negou apoio. Eu tinha crianças para alimentar, Rui.

Esse Deus que tu vês só existe nos desenhos animados da Walt Disney!

Fui eu que venci, Rui. E tive de vencer Deus na terra. E sofrer.

Verónica