Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Citação da Penumbra

Amigos,
Enquanto não chega o capítulo completo, aqui fica um cheirinho…

“Deixa cair a túnica e o seu corpo alvo, de formas arredondadas e sedosas, fica exposto à luz fraca daquela penumbra. Dobra-se sobre a cama, abre os braços e agarra-se aos lençóis. Os pés no chão. E espera.”

João Paulo Videira
In ” A Paixão de Madalena”, Cap. 13. 
A  publicar brevemente neste blogue.


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Rubro e Cândido

Rubro e Cândido

Terna é a voz
Que em ti habita.
A doçura incontida
Que grita
A urgência
De um sorriso.
Nem era preciso
Tanto!
Que,
Para iluminar-nos
A alma e o peito,
Bastava
Teu rubro e cândido
Encanto.

jpv
À CR com votos de muitas felicidades


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Crónicas de África – Chopela Cristã

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Crónicas de África – Chopela Cristã

Maputo, 28 de junho de 2013

A chopela é um meio de transporte caraterístico de Maputo e, sem dúvida, um dos mais usados. Mais barato do que um táxi e muitíssimo mais eficaz do que um chapa (Toyota Hiace com 20 pessoas lá dentro) porque não faz paragens. A chopela passa por cima de toda a folha, passeios incluídos, e lá segue, ruidosa, o seu caminho. Era suposto levar duas pessoas, mas já as vi com quatro e com considerável carga a bordo, sacos de farinha, carvão, etc. Os turistas adoram porque aquilo é típico e divertido. Um bocadinho como andar de carrossel. Uma vez entrei numa e o senhor levava ligado e a bombar música um sistema de som que devia valer mais do que a própria motoreta.

Uma coisa que marca a sua presença na cidade, são as máximas que se gravam na capota. Aquilo é como que uma espécie de princípio de vida do seu proprietário. Há de vários teores, mas, as mais frequentes são de índole religiosa.

Já vi “Lápis de Deus não tem borracha”, já vi “Segue-me que eu vou bem”, já vi “Eu conduzo, mas Deus guia”, já vi “Não sou o maior mas sou o mais rápido”, enfim, já vi de tudo um pouco, mas só ontem tive oportunidade de fotografar uma destas máximas impressas. Perdoa-se o acento mal colocado, até porque a invocação da Divindade a isso aconselha, mas, admitamos, se me calhasse andar nesta chopela, ficava, no mínimo, preocupado. Então um tipo entra ali na 24 de Julho, pretende ir até à Escola Portuguesa e, de repente, vê-se confrontado com a possibilidade de ir até à vida eterna? Eh pá, no que respeita a esses assuntos, eu sou como o outro: “A vida eterna pode esperar!”

PS: aquilo ali à frente não é um carro depois de um semáforo encarnado. É uma ilusão de ótica!
jpv


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Citação e Mensagem a Gonçalo Martins da Chiado Editora

Gonçalo Martins – Chiado Editora


“É quase angustiante, depois de fazer comunicação de centenas e centenas de excelentes Autores desconhecidos, fazer comunicação de um Autor famoso: Envia-se um simples press release e em 24 horas existem dezenas de pedidos de entrevistas. Ao invés, quando se publica um livro de um Autor que não aparece na televisão, o mesmo é completamente ignorado, e é preciso implorar para ter, de vez em quando, direito a um apontamento de 3 linhas na imprensa…”

Gonçalo Martins, Chiado Editora

Chiado Editora no Facebook
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Obrigado, Gonçalo, por dois aspetos. Em primeiro lugar, por se dedicar a autores desconhecidos, apostando no seu valor. Em segundo lugar, pela coragem desta nota em jeito de desabafo.

Os autores desconhecidos, por mais valor que tenham, enfrentam a dificuldade visceral que é entrar no mercado da publicação. E ninguém lhes liga nenhuma. Já um tipo qualquer, que até pode escrever de uma forma sofrível, ou mesmo má, se for apresentador de um programa de televisão, se tiver participado  no Big Brother, ou programa semelhante, ou, imagine-se, se for um crápula criminoso, consegue publicar com a maior das facilidades.

O problema, Gonçalo, é que já ninguém (enfim, quase ninguém) quer saber da qualidade. O valor social vigente é a visibilidade. Já ninguém quer saber da boa literatura. O que importa é se é vendável! 

Por exemplo, e vou citar a empresa porque o que digo é a mais absoluta verdade, um dia contactei o Grupo Leya para avaliar um texto para publicação. Eles responderam que, independentemente de virem a publicar ou não, responderiam SEMPRE, mesmo que demorassem uns meses. Eu remeti o texto. Passaram quase QUATRO anos e ainda não tenho resposta, nem terei. Contudo, se analisarmos as publicações do Grupo Leya no que respeita a prosa ficcional, entre alguns bons autores, também temos um amontoado de lixo escrito!

Depois, as editoras como a Chiado, surgem apresentando aos autores propostas honestas de publicação, mas que, a maior parte das vezes, não constituem mais do que edições de autor com uma chancela de uma editora, na medida em que a sustentabilidade da publicação assenta na compra de uma parte dos exemplares produzidos por parte do próprio autor. Ainda assim, admito, é um caminho. Um caminho difícil, porque, como o Gonçalo refere de forma quase angustiada, pode representar um excelente autor, mas tem de mendigar três linhas de divulgação.

Chegámos a este paradoxo: antigamente, publicavam-se bons autores, mas as pessoas não liam, agora que as pessoas leem, o mercado está empestado de lixo por entre alguns bons autores sendo que a maioria destes nunca publicará um texto e, mesmo que o faça, quem os comprará serão os amigos e familiares.

E arrisco, por iniciativa e responsabilidade própria, a extrapolar o seu pensamento para a blogosfera. Se um blogue falar de jogos da Playstation, de escândalos sexuais, de futebol, de roupas, ou publicar lamechices pseudo-literárias ganha, imediatamente, a visibilidade necessária para uma editora arriscar uma publicação. Se o autor do blogue persistir em produzir textos literários e reflexivos trabalhados e cuidados o mais certo é ter meia dúzia de leituras por dia.

O que era preciso, Gonçalo, era educar o gosto das pessoas, mas isso, a coberto da liberdade de escolha, já nunca mais será possível. A generalidade das pessoas consome o que é fácil e rápido. Qualquer leitura que dê um pouco mais de trabalho à mente é classificada como uma seca e morre por aí mesmo. Aliás, é o que acontecerá com este texto. Mas eu teimo, Gonçalo, teimo e teimarei sempre. Porque gosto de escrever bem e porque há cerca de 200 almas que todos os dias aqui vêm à procura disso e não da cor das cuecas do Cristiano Ronaldo!

Parabéns pelo seu trabalho e persistência!
Até breve!
João Paulo Videira


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Os Poetas Também Amam

Os Poetas Também Amam

A letra.
O verso.
A meta.
A palavra em riste
Na boca do poeta.

A noite
O breu.
A contraluz.
A mão a sentir
Um corpo que seduz.

O olhar.
O encontro.
O momento.
Um corpo dentro de um corpo
Sem espaço nem tempo.

jpv


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193000


Caros Amigos e Leitores,

Um de vós, a Célia, anda, definitivamente, a espiar a numerologia de MPMI.
Não vale a pena negares, primeiro, deste com a capicua e agora captaste o número redondo que antingimos hoje.
Obrigado pelas tuas visitas e pela tua atenção!

Obrigado a todos pelo tempo que dedicam a este cantinho!

jpv


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ErotiKa – O Beato

AVISO
Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.
Do mesmo modo, o conteúdo desta publicação só pode ser acedido por pessoas maiores de 18 anos.
Assim, caso prossiga com a leitura, o utilizador fá-lo por vontade própria e assume ter idade para aceder aos conteúdos.
Obrigado
jpv
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ErotiKa – O Beato

Sua mulher, Maria do Amparo, costumava contar em surdina à mãe que ele sempre a procurara pouco na cama para as funções do prazer. Após o casamento, com alguma frequência, era lá uma ou duas vezes por mês, costumava ajoelhar-se junto à cama com o terço entre as mãos em posição de oração, purificava-se pelas palavras dirigidas ao Senhor e depois suava e urrava em cima dela durante três eternos minutos. Ela não chegava a saber se gostava ou não. Aquilo era um fogo fátuo, um lume ardente, mas brevemente extinto em suor. Sempre sob os lençóis. Sempre de luz apagada. E ela não estranhara uma coisa nem outra pois que em termos “daquilo” a experiência que tinha era tanta como nenhuma. Mas sempre perguntava à mãe se era normal aquela ausência dele na cama dela. E a mãe, em reação surpreendente, lhe foi dizendo, É uma bênção, minha filha, é uma bênção, não dar uma dessas ao teu pai é que é pena. E como Maria do Amparo quisesse desconfiar daquela falta de fogo, a mãe rematou contudente:
-Ele costuma faltar ao trabalho?
-Não
-Ele falta-te com alguma coisa em casa?
-Não.
-Bebe até cair para o lado?
-Não.
-Bate-te?
-Não.
-Então agradece ao Senhor a sorte que tiveste.
E com aquela se ficou e não tocou mais no assunto. E veio o primeiro filho, uma menina, por sinal, e pensou ela que ele se entusiasmaria com o facto, mas o certo é que o seu fervor religioso aumentou, a moral tornou-se mais rígida por via do exemplo que era necessário constituir para a criança e as visitas na cama, já de si escassas, tornaram-se quase inexistentes. Foi isto há dezanove anos completos. E são dezanove anos que a menina faz esta semana. Na altura, dois anos volvidos, três ou quatro cópulas de pouco investimento e, mesmo assim, quis o Senhor que duma delas nascesse segundo rebento. Um rapaz. E, indicou ele, que a sua função enquanto casal estava cumprida no que dizia respeito à procriação. Existiriam agora para os filhos, para os educar no respeito e no temor a Deus, com vida austera de bens mas rica de orações. E se a ela lhe acometesse alguma vontade da carne, que rezasse um Pai Nosso e duas Avé Marias e tomasse um duche frio que a carne, por fraca ser, haveria de ceder. Que se dedicasse ao croché ou visse televisão e orasse, orasse muito pela bênção de ter uma família bonita e sem faltas de maior. E ela, sem outra solução nem amparo além do que tinha no nome, resignou-se.

Jacinto Bento, mais tarde conhecido como o beato era um homem atarracado e musculado com o cabelo ruivo e um farto bigode no meio da cara. Andava regularmente com uma bibliazinha na mão e um caderninho preto para tomar notas. Cresceu num ambiente doméstico conturbado. O pai estava dias, semanas inteiras sem vir a casa e quando vinha trazia muitas falas e poucas novidades. Podre de bêbado procurava uma cama para dormir, uma mulher para plantar um filho mais e muita sorte tinha ela se ele não lhe exigisse as economias que entretanto juntara. Às vezes, o vinho dava-lhe para a violência e a mãe dizia à rebanhada de filhos para fugirem e eles desarvoravam de casa. Ora, Jacinto, o mais novito, ficava. Ela tinha-lhe dado instruções para se esconder dentro de uma mala de guardar mantas e levar com ele a bíblia e rezar aos santinhos que o protegessem. E quando o pai saía de novo ela mostrava-lhe os postalinhos com os santinhos que o tinham protegido e que o senhor prior distribuía todas as Páscoas à saída da missa. E o rapaz enfiou-se na igreja e na sacristia e nunca mais de lá saiu. Foi à catequese, fez a primeira comunhão e o Crisma, foi acólito e chegou a ministro da fé. Sentia-se um servo digno do Senhor quando ajudava à distribuição da hóstia na missa dominical. O prior faleceu, veio outro e foi Jacinto que lhe deu a conhecer o rebanho que ele haveria de apascentar. Os mais virtuosos, os cumpridores, os ritualistas e os ausentes. E contava-lhe as histórias deles no espaço circunscrito da vila. Não se estranhou, por isso, quando o senhor prior delegou em Jacinto Bento a organização das procissões, do coro da igreja, e até a própria agenda do padre.
-Ó Jacinto, se calhar estou a pedir-te de mais… tu tens o teu trabalho e a tua família…
-É com prazer que ajudo, senhor prior, com prazer e devoção. E a minha família, os sacrifícios que faz por mim, fá-los por Ele também.
E lançava os olhos à cruz onde Cristo escorria sangue de braços abertos. Jacinto atendia à missa de domingo e, durante a semana, todos os dias, pelas sete da tarde, ajudava à missa vespertina. Depois, seguia para casa e jantava com a família. O ritual era certinho e sem falhas, exceto à quinta feira, dia em que ficava noite dentro, com o senhor prior a planear os muitos serviços que a paróquia tinha de prestar aos seus fiéis. Quem havia a batizar, quem havia a casar, quando se ia ler o evangelho segundo São Lucas, quando se lia um excerto da epístola de São Paulo aos coríntios, quais os temas do sermão, quando e como realizar as procissões e como orientar os serviços da catequese e as festas de Nossa Senhora da Piedade, padroeira local. Naturalmente que, com tantas e tão grandes responsabilidades, a sua família teve de constituir sempre exemplo ímpar de devoção e fervor religioso. E por isso comparecia na igreja todos os domingos, sem falhar um que fosse, e orava-se às refeições  e colaborava-se nos eventos religiosos promovidos pela paróquia. E havia um rigor extremado na conduta que lhes era exigida. Os seus filhos não diziam um palavrão, citavam a bíblia, a rapariga estava proibida de conhecer rapazes antes do casamentos e se um dia quisesse namorar haveria de apresentar o pretendente ao pai que indagaria da sua fé e devoção e o rapaz estava proibido de tocar-se e se o desejo apertasse, tinha encomendadas orações e estavam prometidos castigos e infernos aos que prevaricassem. Ela deserdada seria se conhecesse homem antes do tempo e sem aprovação. E ele sofreria na carne as punições que a disciplina e o respeito exigiam.

O que mais impressionava Aparecida Bento, aos dezanove anos, era nunca ter visto um gesto de afeto entre os pais, um beijo, uma carícia, nada… uma secura emocional, uma terra árida e infértil. Chegava a ser agressivo. E, contudo, todo um respeito, toda uma aparência. E a igreja sempre por perto. O senhor prior isto, o senhor prior aquilo, a missa vai ser bonita, a missa foi bonita.  Esta manhã, Jacinto Bento, saiu um pouco apressado. Ia à frente, bíblia na mão, caderninho preto, calças de fazenda, camisa e uma camisola de malha. Aparecida ia atrás dele. Deslizou um papel do caderninho e caiu ao chão sem o pai ver. Era uma receita. Aparecida apanhou-a e leu por instinto. E quando leu, estremeceu como nunca se lembrara de ter estremecido antes. Só tinha um medicamento inscrito: viagra. Dobrou o papel num repente e chamou:
-Papá…
-Sim, minha filha.
-Deixaste cair isto.
-Obrigado.
Recolheu o papel e foi à sua vida.
Aparecida andou em transe durante uns dias. Se não havia afetos, para que queria ele um medicamento daqueles?  Investigou na Internet o propósito do medicamento, mas só parecia ter um, fez perguntas indiretas à mãe sobre a vida afetuosa dos dois, mas foi pesca sem pescado. Não havia nada nem ninguém a que pudesse recorrer. Era impensável falar com o pai. Cair-lhe-ia, literalmente, o Carmo e a Trindade em cima. Sofreria retaliações só pela ousadia e pensou que o melhor seria esquecer o sucedido. Provavelmente era para outra pessoa. Acontece que, quando a inquietude entra no espírito é difícil de serenar. Decidiu segui-lo. Nos primeiros dias, pela manhã, até ao trabalho. Nada. O mesmo Jacinto de sempre. Depois, ao final da tarde, do trabalho para casa. Nada. O mesmo Jacinto de sempre. De casa para a igreja. Foi à segunda, nada. Foi à terça, nada. À quarta, nada. À quinta, nada, à sexta, nada. E estava já há várias semanas nisto quando resolveu esperar por ele depois da missa das sete a que ia com religiosa frequência quotidiana. Saía de casa depois dele e esperava por ele do outro lado da rua num banco de jardim, enfiada em camisolas e casacos. A primeira vez que foi, sofreu um percalço. Para o seguir teve de ir atrás dele o que fez com que o pai entrasse em casa primeiro. Breve daria pela sua falta porque, assim que chegava, queria cumprimentar toda a família. Correu para a porta, enfiou a chave e, naquele momento em que ele chegava à cozinha e saudava a mãe, Boas noites, Boas noites, respondia ela, Aparecida deslocou-se como se viesse do seu quarto. Na terça já não foi. O risco era demasiado. Nessa quinta feira, contudo, por andar desperta para os movimentos de seu pai Jacinto, Aparecida que já costumava estar deitada quando ele chegava, esperou por ele com a mãe, na sala de estar, e reparou em ligeira diferença no seu ritual de chegada. Em vez de dirigir-se, de imediato, para a sala de estar onde sabia que encontraria a senhora sua esposa a fim de a saudar, foi à casa de banho primeiro. Aparecida não conseguiu reprimir a ideia que lhe veio à mente, Custe o que custar tenho de saber de onde vem ele à quinta feira. Nova quinta feira se apresentou no calendário. E Aparecida seguiu-o. Não entrou na igreja. Esperou no banco de jardim do outro lado da rua. E viu as pessoas saírem da casa do Senhor no final do serviço religioso e viu a porta fechar-se. Nas traseiras da igreja havia uma janela alta protegida por grades trabalhadas, tinha um parapeito inclinado para fora e por dentro tinha a sacristia. Aparecida não lhe chegava. Olhou em volta. Era noite. Havia pouca luz. Só a que sobrava da iluminação de rua. Procurou algo que lhe desse altura. Um bloco de cimento e um pedregulho era tudo o que havia por perto. Colocou o bloco de cimento por baixo da janela e o pedregulho em cima dele. Subiu para cima do conjunto de equilíbrio precário. Não chegava à janela, mas podia tentar deitar as mãos às grades com um impulso. Respirou fundo saltou e agarrou uma grade de ferro com a mão direita, depois a esquerda, os pés ajudaram a trepar, ergueu-se, ao dobrar os braços conseguiu chegar com a face ao vidro da janela procurando respostas. Não as encontrou. À luz amarelecida de um candeeiro antigo, Jacinto Bento e o padre jantavam, sentados à mesa, e conversavam.  Era uma sala pequena. Uma mesa ao centro de madeira muito escura, um aparador com umas gavetinhas e um espelho por cima e dois cabides de pé com paramentos sobre eles em dois dos cantos. Faltou-lhe a força, esticou os braços lentamente e escorregou pela parede tateando com os pés à procura do pedregulho em cima do bloco. Encontrou-os. Desceu. Sentou-se no chão olhando a janela e a luz amarela projetada na parede e sentiu-se ridícula. O seu pai era um bloco granítico de virtude, um homem impenetrável. Havia sido uma parvoíce admitir a hipótese de o encontrar em falta. O mais certo era ter-se oferecido para comprar os comprimidos a alguém que precisava deles, mas não tinha a coragem suficiente para os comprar. Preconceitos. Feitios. De certa forma, preferia que não tivesse havido qualquer surpresa. Por momentos, imaginara encontrá-lo em encontros furtivos com uma beata da paróquia, expressando com ela o que não revelava à mulher, fingindo que os encontros com o prior eram demorados, mas escapando-se deles a coberto da noite para se entregar nos braços de outra, alguma que lhe despertasse a libido como a mãe parecia não ser capaz. Ia levantar-se para se ir embora, estava já limpando as mãos à ganga das calças e viu sombras bailando na parede interior da sacristia. Havia movimento. Decidiu trepar uma última vez. Não sabia, ainda,  mas a sua vida estava prestes a mudar. Subiu para cima do pedregulho, saltou e agarrou a grade, ergueu-se ajudando com os pés e dobrando os braços, encostou a face ao vidro e viu. E assim que viu percebeu que preferia não ter visto. O padre estava encostado ao aparador e falava. Seu pai estava a dois passos dele e foi para ele que avançou, segurou-lhe a nuca e beijou-o lenta e apaixonadamente. Aparecida largou-se e caiu. Ficou em choque. Esperaria tudo menos aquilo. De certo era um equívoco. Voltou a trepar e o mundo pesou-lhe mais do que nunca. Seu pai, Jacinto Bento, o beato, estava nu, de pé encostado à mesa e à sua frente, de joelhos, o prior dava asas à luxúria do desejo em carícias tão devotas quanto proibidas. Aparecida saltou, aleijou-se porque ao cair assentou mal um pé, correu pelas ruas derramando lágrimas de incompreensão. Tudo o que sofrera nas mãos daquele homem fazia sentido porque ele era o primeiro a submeter-se aos seus próprios princípios e exigências. Desta forma, nada fazia sentido, nenhum caminho parecia certo, a vida desmoronava-se. Entrou em casa, a mãe chamou por ela, mas Aparecida não respondeu. Fechou-se no quarto, enterrou-se na cama, encolheu o corpo o mais que pôde e deu consigo a rezar baixinho com a bíblia apertada entre as mãos.

jpv


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Divulgar: Não perca "Nagarjuna" por nada deste mundo!

Caros amigos e leitores,
É sabido que MPMI é um espaço multicultural e aberto. E é sabido, também, que, tudo o que vale a pena, nós partilhamos!

Não sei se foi da barba dele, à malandro. Não sei se foi do bigode sensual e provocador. Não sei se foi do véu dela a desenrolar-se, não sei se foi das pedras de gelo pelas costas abaixo, não sei se foi dele lhe atirar com um copo de água à cara num claro gesto de sensualidade (!!!), não sei se foi da cena “contra a parede”, não sei se foi da cara dele encostada ao rabo dela. Não sei se foi de alguma coisa destas ou delas todas juntas. Sei que “Gichi Gichi Telugu Song” do filme “Nagarjuna” é um clip imperdível ou… imperdoável! Mas, certamente, a que ninguém vai ficar indiferente. Ou vai?

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Momento Nham-Nham

Um homem tem um dia de trabalho diversificado e intenso. As coisas resultam bem, mas o cansaço não perdoa. Chega a casa, toma um duche, come pouco, senta-se de frente para a televisão e… o que é que acontece? As coisas entre a RENAMO e a FRELIMO complicam-se? Não, felizmente! Alguém da escola telefona a dizer que nos esquecemos lá de alguma coisa? Não, felizmente! Falta a luz? Não, felizmente! É básico: toca a campainha!
– Quem é?
– São as suas alunas!
E eram! Duas simpáticas alunas, também vizinhas, vêm pedir um pouco de farinha porque estão a fazer panquecas. Dou-lhes o pacote todo e pouco tempo depois voltam com ele e mal tinham gasto farinha, mas traziam um presentinho. O que está na foto! 

Foi o momento nham-nham do dia! Estavam deliciosas e elas quase não gastaram farinha. Acho que fiquei a ganhar, mas enfim, ofereci-me como cobaia para novas aventuras culinárias! É que estava meeeesmo booom!

Tem aspetos muito giros a vida por estas paragens. Os vizinhos ainda batem à porta a pedir um ingrediente que faltou e ainda se fica um bocadinho a conversar. Ou é a vida em Maputo que se revela surpreendente, ou sou eu que tenho a sorte de ter alunas simpáticas e prendadas! Mai nada!

Já agora, por aqui, neste cantinho, respeitam-se os direitos de autor: as panquecas foram cozinhadas por esta menina e esta menina com a ajuda desta menina que é um bocadinho mais crescida porque anda numa classe avançada! Hehehe… Obrigado!
jpv


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Capicua

Uma Amiga e Leitora de MPMI, passando hoje por aqui, deparou-se com uma capicua no nosso contador, captou a imagem e teve a gentileza de no-la remeter!
Isto diz-me duas coisas. Uma é que, a acreditar nos presságios, estamos a entrar em maré de sorte. A outra é que os leitores de MPMI estão muito atentos, mesmo mais que o próprio autor.
Obrigado, Célita!
E, já agora, que a sorte de MPMI se distribua por todos os leitores e amigos.
jpv