Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Histórias a Preto e Branco – A Arte da Vida

Histórias a Preto e Branco

A Arte da Vida

É um homem robusto, tem o carvão na pele. Porque nasceu com África nas veias e porque trabalha nas minas. Vê pouco o céu. E quando o vê, normalmente é de noite. É um tipo atarracado, com uma estrutura óssea larga e rija como o ferro. Ganha pouco. Melhor que muitos. O problema não é esse. São os filhos. Ele tem vontades loucas no ventre. Sai da mina, cruza-se com as raparigas nas ruas e quando chega a casa, enterra o desespero em Recebida e faz-lhe filhos. Nem sabe bem quantos tem. Foram nascendo. Deus os trouxe e a alguns os levou. Agora mesmo, enquanto empurra um carro de mão carregado de material, sabe que ela deve estar-se aliviando de uma barriga do tamanho da lua. Os filhos saem de casa cedo. Aí pelos três anos já dançam nas ruas à espera que caia uma moeda de um passante que lhes ache gracinha. Não dá para compreender esses brancos. Lutam tanto pelo dinheiro e depois não o guardam. Jogam-no na rua a quem o pede. Ele não é assim, prefere gastá-lo em Manica fresquinha a escorregar pela goela abaixo e só não gasta mais porque Recebida precisa dele. A última vez foi para comprar uma esteira.
-Vou comprar uma esteira, Carvão.
-E para quê você quer mais uma esteira, Recebida?
-Ora, teu filho vem aí.
-Qual?
-Sozinho.
-Já temos um filho chamado Sozinho?
-Vamos ter…
-Ah… está falando dessa barriga aluada.
-Aluada?
-Sim… parece que engoliu uma lua.
-Mas não é uma lua que vai sair dessa barriga. É a sua semente crescida, Carvão.
-E porque lhe vai chamar Sozinho?
-Ora, porque vai nascer sozinho.
-Vai? Está a pedir-me que venha aqui ajudá-la?
-Xiiii, nessas alturas homem só estorva. Eu mesma faço tudo. Quando ele começar a me pedir para sair, eu aqueço uma água, coloco no alguidar, abro a esteira, me sento nela, me inclino para o lado e espero a sua chegada. Dessa vez serei só eu e ele. Os outros já vão andar nas ruas a semear vida e a colher o que Deus der…
-Recebida, você sabe mesmo ter um filho sozinha?
-Esse é o nono. Acho que já deu para aprender.
-Recebida, porque você compra sempre uma esteira nova para parir?
-Porque eu sei, Carvão, que essa é provavelmente a única coisa nova que vão ter na vida!

Recebida é mais alta do que Carvão. E sua estrutura é mais fina. Sua pele tem um tom mais suave. Mas ela não a pinta com o trabalho das minas. Planta couve, alface, tomate, pepino, arranja a terra, limpa as ervas, cuida da casa e quando amanhece vai vender no mercado de Ribáué. Hoje está sentada de lado numa esteira. E Sozinho está nascendo. Assim que o limpou, percebeu que era diferente dos outros. Atarracado como o pai, mas de traços elegantes como a mãe e, sobretudo, tranquilo. Nem chorou muito e logo se calou e se agarrou na mama. Com o passar do tempo se percebeu que tinha o olhar profundo como se quisesse ver as coisas para além delas próprias. E quando o tempo avançou, não saiu para as ruas, ficou ajudando a mãe com a horta. Gostava de mexer nas coisas, tocá-las, senti-las, perceber a textura, as formas, onde começavam e acabavam, e olhava, olhava, olhava como se quisesse engolir o mundo com os olhos. Às vezes ficava parado a olhar um tchova passando, outras vezes, a frente de uma casa, outras vezes, uma pessoa. E ia no mercado com a mãe vender e ficava olhando as roupas das pessoas, a forma como se movimentavam. Um dia, chegou um cliente para comprar pimentos e trazia pela mão uma criança que trazia pela trela um cão. Sozinho segredou no ouvido da mãe para que ninguém escutasse, não fosse ser pecado:
-Eu sei fazer aquilo.
-O qué?
-Eu sei fazer aquilo, minha mãe. Só não sei como. Eu sei aquelas formas e aquelas curvas.
-Tu estás maluco, menino?
-Não, mãe. Estou cheio de coisas na cabeça que querem sair.
Recebida quase desmaiou. Contou para a vizinha Problema que contou para seu marido, Pacífico, que pediu para ver o menino. E o analisou, e falou com ele e lhe perguntou de onde vinham aquelas ideias.
-Não sei. Nascem sozinhas na minha cabeça. Eu as tenho parido como minha mãe me pariu a mim. Sozinho. Sem ajuda.
Nos dias seguintes, Pacífico andou observando o comportamento do miúdo e uma noite bateu na porta de Carvão:
-Carvão, meu amigo, meu velho amigo, Recebida, minha vizinha, minha respeitável vizinha, eu tenho um diagnóstico. Esse filho de vocês não pode ir trabalhar nas minas como os irmãos. Não sei como você fez isso, Carvão, mas você semeou um artista e sua mulher o pariu.
-Um artista?!
-E dos bons. Assim como o Mestre Malangatana, como o Mestre Craveirinha, só não sei qual é a arte dele. Vocês sabem, os artistas são como os vulcões. Nós sabemos que estão lá, sabemos que vão explodir, só não sabemos quando nem como…
-E o que fazer?
-Posso aconselhar?
-Claro… tem cura?
-Naaa… a única cura é deixar brotar… mas pode-se procurar…
-Procurar o quê?
-O sentido da arte dentro dele..
-Fale claro, amigo Pacífico.
-Porque vocês não o levam para o Mestre Genuíno, o deixam por lá, a ver se alguma coisa daquilo o desperta, a ver se as ferramentas do Mestre lhe comunicam ideias e se as ideias dele querem sair com essas ferramentas…
-E não se paga?
-Genuíno é meu amigo de nascença, temos no corpo as mesmas marcas da guerra, é só pedir…
-Ficamos devendo-lhe esse favor…
-Devendo… eu que lhe devo por todas essas verduras e frutas que deixou no chão da minha porta todos esses anos. Estamos quase pagos.
-Quase?
-Sim, minha parte só estará paga se o diagnóstico estiver correto.

Genuíno tinha uma curva nas costas, como se toda a vida tivesse tido um peso forçando a cabeça a estar inclinada. E teve. O peso das ideias. Sentava-se num banco pequeno, colocava um pedaço de madeira entre os joelhos, pegava numa ferramenta e nascia uma zebra, um elefante, um crocodilo, um pássaro. Outras vezes, recebia encomendas mais utilitárias:
-Mestre Genuíno, dá para fazer uma cama, minha filha vai casar…
-Só se tiver arte nela.
-Pode ter.
E ele tirava as medidas, cortava o tabuado, e se dedicava a entalhar floreados e figuras na cabeceira e a tornear as pernas da cama. E eram mesas de cabeceira e cómodas e cadeiras e mesas de jantar e almoçar. Desde que pudesse levar arte… Genuíno olhou o miúdo Sozinho e gostou logo dele. Tinha a calma e a contemplação do artista. O miúdo, assim que entrou na oficina, sentiu o cheiro da madeira e da cera entrando-lhe pelas narinas, queria ver tudo e não conseguia, eram coisas demasiadas, mas uma coisa soube. Até esse dia tinha andado perdido. Meio nascido. E agora estava nascendo o que faltava, estava-se encontrando naquele cheiro de ideias paridas.
-Queres mexer nalguma coisa?
-Quero!
-Mexe.
Olhou as ferramentas, os pedaços de madeira, passou com a mão sentindo a textura da lenha, segurou num formão pequenino e num madeiro e iniciou de parir uma ideia. Era um homem com uma criança pela mão que tinha um cão pela trela. Mestre Genuíno sentenciou:
-Falta-lhe a técnica. Falta-lhe conhecer as ferramentas. Falta-lhe saber a arte do acabamento. Falta-lhe aprender muita coisa…
-Falta-me muita coisa. Quer dizer então que não sou artista…
-Pelo contrário. Tudo o que falta-lhe é muito pouco quando comparado com o que tem. Tem ideias que querem nascer. Pacífico diagnosticou bem. Como sempre. Devia ser médico de cabeças, esse lá.
O tempo passou. Passa sempre. Sozinho aprendeu as artes da madeira, as técnicas, o namoro das ideias, a forma mais apropriada de dar-lhes vida. Pagava ajudando nos trabalhos práticos de aprontar o tabuado de uma cama, as costas de um armário e quando era particularmente bem sucedido ou quando conseguia vender uma ideia em madeira, Mestre Genuíno oferecia-lhe uma ferramenta. Claro está que a porta do mestre passou a acordar os dias com pimentos, pepinos, tomates e verduras encostados. Não era um pagamento. Era uma troca. Ribáué foi encolhendo à medida que Sozinho foi crescendo. Ele queria mais e a terrinha tinha pouco para dar-lhe. Almejava o  mundo. Queria ver outras vidas, queria sentir o pulsar de outras gentes e precisava olhar o mar. Tudo junto numa palavra: Maputo! E foi. Dois anos juntando para a viagem. A mãe chorando duas perdas. A do filho que partia e a do sustento da casa desde que Carvão morrera trabalhando na mina. Sozinho confortou:
-E vou voltar para lhe levar comigo.
Foi uma viagem alucinada. Engavetado num chapa, entalado entre a generosidade das carnes de uma velha gorda e a janela da carrinha. Olhou tudo, viu tudo, comeu pouco, cheirou, sentiu. Quatro dias depois entraram em Maputo e Sozinho achou que estava noutro mundo. Que havia morrido como seu pai Carvão e tinha renascido nessa terra distante e louca. Tinha um saco consigo. E nele as ferramentas. Roupa, só a do corpo. E procurou onde dormir e procurou as oficinas da arte e não as havia. Só carpintarias de móveis. Ali, ao fundo da 24 de julho, junto à rotunda para a Matola. Começou por aí. Mas a arte corria no sangue e mesmo numa cama e numa mesa de cabeceira se mostrava ao mundo. Era outra perfeição, eram peças que contavam histórias. Passou a ser disputado e rápido conseguiu ter uma oficina pequenina só para si e um rapazinho, ajudante, trazendo as peças para a rua, pela manhã, chamando quando aparecia um cliente a enamorar-se do seu trabalho e a comprar-lhe uma peça, e a arrumar tudo de volta ao fim do dia. E expunha a arte na rua. E vendia. Um dia foi ver o mar. caminhou a avenida quase toda e depois apanhou uma chopela e disse para o condutor:
-Leva-me no mar.
Quando chegou à marginal e viu o sol rebrilhar na água desfazendo-se na areia, renasceu pela terceira vez na sua vida. Aquilo é que era arte. Era mais do que arte. Era um milagre do Universo. De novo as ideias lhe borbulhavam na cabeça e pediam para sair todas ao mesmo tempo. Sozinho concentrou-se numa imagem. Um pescador vinha saindo do mar, com água pela cintura, puxando a sua rede e na beira da praia dois meninos o esperavam de braços estendidos como que o chamando para o receber com a dádiva do pescado nas redes.

Chamava-se Estendido. Pescava desde que se conhecia. Assim que nascera, o mundo soubera-lhe a sal. Assim que ouvira, seu pai e seu avô lhe falaram do mar. Assim que andara, entrou pela água salgada dentro desafiando as ondas mansas da Macaneta. Nunca quis conhecer mundo. O mar bastava-lhe. Conversava com ele. Contava-lhe os pequenos truques que aprendia para o domar, confessava-lhe pormenores da sua vida doméstica e pedia-lhe que lhe trouxesse o peixe a tal parte à hora tal. E perguntavam-lhe:
-Estendido, como sabes sempre onde vai passar o peixe?
-Pergunto ao mar.
-E o mar diz-te? O mar fala contigo?
-Todos os dias.
-Tu emalucaste da cabeça, Estendido.
-Ah sim? Emaluquei? Então diz-me lá como sei sempre onde vai estar o peixe?
Nos dias em que não saía para o mar, Estendido sentava-se na areia, abria as pernas, colocava uma rede no meio e ia remendando, aperfeiçoando, e pensava no manuseio do barco e da vela e nos movimentos de puxar a rede. E quando cresceu e os amigos andavam espreitando as moças quando arredavam as capulanas para se aliviarem, ele continuava baloiçando no barco, ajudando o pai, conversando com ele e com o mar. E quando Deus quis levar o pai, ele continuou a entrar no barco, a desafiar sozinho o Índico azul, a pescar ao largo de Maputo, a desembarcar na praia da cidade para negociar o produto da pesca com os vendedores do mercado do peixe. Um dia, desses dias em que não saiu para o mar, Generosa veio ao seu encontro. Era pouco mais velha. Sabida, esperta e generosa na partilha da vida, mesmo a sua.
-Tu és bom.
-Não sei. Não sei o que é ser bom.
-Mas eu sei. O teu interesse é pelo mar, pelo peixe, pelos teus gestos. Devia haver mais como tu.
-E não há?
-Não sei. Eu só conheço-te…
Sentou-se ao lado dele. Colocou-lhe uma mão firme numa das coxas moldadas pelo trabalho no barco e continuou a frase suspensa…
-Podias fazer Estendidos e Estendidas em mim…
-Ora, eu não preciso de mulher. Eu não quero mulher.
-Mas o mundo precisa de ti, precisa de mais Estendidos…
-E porquê tu? Tu és generosa com todos…
-Porque eu te vi.
-Os outros também me veem.
-Naaa… os outros olham-te. Eu vejo-te a falar com o mar e acredito nessa conversa.
-Acreditas?
-Hum, hum…
-Mas eu não sei como fazer com mulher…
-É como um barco. Cada mulher tem ventos em si que lhe sopram a vontade e os gestos. Só tens de perceber essa ventania danada e orientar o barco da vida com ela. Sem contrariar de brusco para não partir, sem deixar correr desenfreada para não perder, e mantendo em forma, remendando a vela, cosendo a rede, tratando com o carinho de quem sabe que vai ser recompensado. Se falares comigo, como falas com o mar, eu vou-te responder como o mar.
-E os outros?
-Quais outros? Onde está Estendido e Generosa não cabe mais ninguém. Se me fizeres um filho aqui mesmo, na areia da praia, agora mesmo, neste instante, com o sal da tua pele no açúcar da minha, vais ver que ninguém vai vir aqui nesses momentos. Até os passarinhos vão voar longe.
Fez-se um silêncio. Estendido procurou os caranguejos na orla da rebentação. Nada. Nem umzinho desses todos que sempre andam por aí. Olhou nos olhos dela e os olhos dela conversaram com ele. E esse filho foi gerado ali mesmo. Chama-se Feito na Areia e já ajuda o pai na pescaria. Aprende rápido. Tem um irmão e uma irmã. Feito no Barco e Feita em Casa. Estendido nunca pensara que a vida poderia ser tão generosa com ele. Mas o advento de Generosa lhe trouxe milagres. A casa limpa, a roupa preparada, uma mulher para conversar nos dias em que não sai para o mar, umas coxas quentes e roliças a envolvê-lo quando o sangue aquece e a vida quer viver, um barco de vela enfunada para marear, uma rede para pescar e agora filhos para o ajudar. Estão crescendo fortes e saudáveis que dá gosto. Vai pescando ao largo de Maputo, lança rede, puxa rede, quando sai do mar, separa o pescado e dá as ordens:
-Feito na Areia leva esse no mercado e entrega para a peixeira Zubaida. O preço está feito. Traz o dinheiro. Feito no Barco, tenta vender esse aí na beira da estrada. Ata tudo com essa corda aí e pega pendurado pelo rabo. O preço é o de sempre.
E vende Peixe Papagaio, Vermelhão, Palmetas, Pargos e Chireuas. Quando aparece um Serra, leva para casa e entrega para Generosa.
-Para a mãe dos meus filhos!
-Quais?
-Como quais?
-Os Feitos ou os por fazer?
Mergulharam nos braços um do outro ali mesmo, na cozinha, o sal dele e o açúcar dela bailaram na tarde quente e húmida da Macaneta e quando a criança nasceu, o nome estava há muito escolhido. Por Fazer foi o quarto e último filho de Estendido e Generosa. Nada na vida dos outros lhe interessava, tão preenchido andava com a sua. Quase não os via. Mas no outro dia viu. Chegou à Macaneta mais cedo do que o costume e a cena era tão violenta que não pôde deixar de ver. Uma carrinha pick up branca deslocava-se na sua direção, vinda da praia, deslizava rápido e cuspia a areia do chão para o ar, lá dentro, um português gritando e gesticulando, dando murros no volante enquanto conduzia. A seu lado, uma mulher branca lavada em lágrimas, o horror espelhado na face, as mãos levantando-se tentando esconder a dor e chorava. Chorava tão alto que ele conseguia ouvi-la do lado de fora das janelas fechadas.  Quando acabou de ver,  sentiu-se feliz por ter a sua vida e não a dos outros. Nesse dia perdeu tempo olhando Generosa na cozinha, conversou com os filhos e deu-lhes conselhos para a vida. Deitou-se feliz e sereno e de manhã quando o seu barco saiu para o mar com dois jovens a manobrá-lo, o mundo não reparou que faltava Estendido nele. Só Generosa e os meninos sabiam. Ela perguntou-lhe:
-Não vais no mar, hoje, meu Estendido?
Ele não respondeu porque os falecidos não falam. Não pôde dizer-lhe que tinha vivido feliz, que tinha morrido feliz, que tinha morrido quando quisera e antes que alguém lhe pudesse estragar essa felicidade.  Não pôde dizer-lhe que não quereria, nunca, outra mulher, nem outros filhos, nem outra vida, não pôde dizer-lhe que morreu porque quis, para preservar a felicidade em vida. Não pôde dizer-lho, mas ela soube. Onde está Generosa e Estendido não cabe mais ninguém.

António Manuel Batista nasceu no Porto.  Ainda na barriga da mãe, anunciara ao que vinha. Cedo se sentiu a criança mexer e revoltava-se todos os dias e pontapeava a barriga redonda e empinada. Cresceu endiabrado. Participava em tudo o que era atividade, dava água pela barba aos professores, era dinâmico e irrequieto, impetuoso no gesto e vigoroso na vontade. Cedo se percebeu que não tinha pachorra para enamoramentos alongados e enfeitados com pormenores. Chegava ao pé das raparigas e dizia o que queria. Tinha a arte ludibriosa de ver vantagens em tudo, até numa negação, até numa derrota. Quis jogar à bola, mas cedo se percebeu que era indisciplinado. Andar à bofetada com colegas de equipa não era prática aconselhável ao sucesso no desporto. Cresceu entroncado, largo de costas e mãos amplas. Com facilidade lhe fugiam para a cara dos outros. E, contudo, tinha caráter. Sabia o que queria, quando queria, como queria e possuía a arte de descobrir como ter o que queria. Era de uma determinação férrea. Desconhecia por completo o que significava desistir. E explodia. Fosse em gestos de ternura, fosse em gritos autoritários e zangados. Quando percebeu que a escola iria ser um calvário, quis aprender algo prático, inscreveu-se num curso técnico-profissional de eletrotecnia e, assim que se apanhou com a habilitação na mão, começou a trabalhar que nem um louco. A carteira profissional chegou em pouco tempo e um emprego estável também. Não gostava de esperar que as coisas lhe acontecessem e assim que percebeu que a crise em Portugal o poderia prejudicar, assim que pressentiu a sombra do desemprego, tratou de se informar, de ver outras possibilidades. Um dia, estava a jantar com a sua doce Susana, e anunciou-lhe:
-Vamos para Moçambique!
-Hã? Estás-me a perguntar?
-Não. Estou-te a dizer.
-E já me perguntaste se eu queria?
-Se não quiseres, ficas.
Susana Vital era de Gaia. Vivia do outro lado do rio. Conheceu-o num torneio de futebol entre escolas. Quando lhe disseram que ela não era miúda para ele, António tomou-a para si em menos de um fósforo. Ela ainda resistiu. Percebeu aquela vertigem de inquietude e certa brusquidão no trato, mas admirou-lhe a coragem e a determinação. Apaixonou-se. Andaram namorando durante o tempo de escola até que ele decidiu casar e ter filhos. E teve. Dois. Um menino primeiro. Uma menina depois. Educava-os com veemência e um rigor exagerado que Susana atenuava com carinho e ternura. Amava-o a ponto de tudo. Tudo faria por ele como estava certa de que a dedicação que ele lhe demonstrava indicava que também António faria tudo por ela. E por isso aceitou ir para Moçambique. Três meses depois. António assim decidiu:
-Sei lá se aquilo é terra para ti. És flor de estufa como a tua mãe. Vou à frente. Arranjo casa. Preparo as coisas e depois segues para lá.
-Posso trabalhar… quero trabalhar…
-No início é melhor não. Temos de pensar nas crianças e é preciso alguém que cuide da casa. Quando assentarmos, trabalhas. Ganhas para as tuas coisas.
Quando Susana foi ter com ele, António tirou duas semanas de férias e mostrou-lhe Maputo, como é que a cidade funcionava, os costumes, as avenidas principais, onde ficavam as instituições. Tinha alugado uma vivenda na rua de França e contratara uma empregada e uma menina para a ajudar com os filhos. Na segunda semana levou-a Inhambane, mostrou-lhe a Praia da Barra, o Tofo, o Tofinho, a Praia dos Coqueiros. Na terceira semana divorciou-se dela. Por mais tempo que passe, por mais vida que viva, Susana não consegue esquecer-se desse dia. Já lá vão quatro anos. Tudo parece tão distante agora. Finalmente, olha para trás no tempo com alguma tranquilidade. A vida recomposta das coisas materiais e reequilibrada nos afetos. Os dos filhos e os desse homem tranquilo e pacífico que lhe entrou pela vida dentro da forma mais inesperada possível. Tudo parece tão distante… Lembra-se bem. António mostrara-lhe a cidade conduzindo frenético pelo trânsito de Maputo, levara-a ao Zambi, à Cristal, ao Mar na Brasa e depois foram a Inhambane. Ficaram na Casa do Capitão e ela queria um tempo para contemplar a baía dos flamingos e ele sempre inquieto a puxá-la para todo o lado. Dois dias depois de regressarem do passeio, levou-a à Macaneta. Atravessou a carrinha na jangada, conduziu pela areia e estacionou o carro junto à praia. Caminharam lado a lado com o mar a vir beijar-lhes os pés e quando ela se quis pendurar no pescoço dele para o beijar, ele segurou-lhe os braços e disse:
-Tu sabes que eu sou um tipo honesto. Não sou capaz de fingimentos. Tenho outra pessoa. Gosto dela. É irrequieta como eu. E gosta de mim. Eu sei que pode parecer-te repentino…
-Repentino? Tu achas que é o repente que me preocupa? Nós mudámos toda a nossa vida para esta terra! Os nossos filhos estão cá. Longe dos avós, estamos longe de tudo e de todos, eu mal me oriento na cidade, abdiquei de tudo por ti, por nós… e tu achas que me preocupa o repente… Antes fingisses, seu canalha! Antes fingisses e ao menos cuidasses da tua mulher e dos teus filhos!
Enfiaram-se na carrinha, ela ralhando com ele enquanto chorava convulsamente a sua desgraça, ele tentou acalmar-se, mas acabou exaltando-se com as acusações e breve começou a responder-lhes. Susana lembra-se com clareza da violência dessa discussão. Lembra-se das lágrimas lhe correrem pela face, lembra-se dos seus gritos, dos gritos dele, dos murros no volante e lembra-se do ar aterrorizado de um pescador, na beira da estrada, vendo-os passar com um peixe na mão. Na altura não soube o que era, nem isso interessava. Mais tarde, rememorando esses momentos de sofrimento e aprendizagem, iria jurar que era um peixe Serra. Quando a desgraça se abateu sobre si, procurou forças onde as não sabia ter. António tinha-lhe alugado um pequeno apartamento na Mao Tse Tung. Pagara três meses de renda para ela se recompor. Ela conseguiu trabalho, mas não com vencimento para sustentar aquela casa. Mudou-se para um apartamento mais pequenino nos prédios da Coop, dormiam em esteiras no chão cobertas com mantas e tapavam-se com lençóis. Deslocava-se a pé e no chapa. Mês a mês foi recuperando a força, reafirmando a dignidade e reconstruindo a vida. Primeiro, uma mesa para a cozinha, depois, pratos e talheres, depois, umas roupas de corpo. Não se importava de comprar nas calamidades. Mais tarde, já a vida lhe corria bem, e ainda lá ia. Ficara-lhe o hábito de caminhar por entre as pessoas na avenida da Guerra Popular. Depois, uns lençóis novos, depois, uma cama para as crianças, e material escolar, e uma visita ao médico num mês em que um problema de saúde lhe estragara as contas, e um frigorífico e um dia houve, dois anos depois, em que comprou uma televisão e fizeram uma festa.

A sua cama esperou quase três anos. E quando conseguiu dinheiro para ela, foi uma vitória. Como se oferecesse um presente de rainha a si mesma. Como se, erguendo o seu corpo da esteira para a cama, se levantasse do chão como no título do livro do escritor. Apanhou o chapa, levava um sorriso nos lábios, saiu na 24 de julho, mesmo ao pé dos vendedores de móveis junto à rotunda da Matola. Começou a ver camas e mesas de cabeceira e a avaliar o preço delas cotejando-o com o seu orçamento. Eram sólidas! E algumas com recorte interessante ainda que de acabamentos toscos. E deslocava-se tranquila, falando com os vendedores, tratando-os por tu. E encontrou uma que lhe pareceu diferente das outras. Era como se fosse mais do que uma cama. Era uma peça de madeira que queria contar uma história. Tinha arte. Divisavam-se figuras humanas por entre uma folhagem. Eram três casais. Um de jovens, um de adultos, um de idosos. Estava um miúdo junto à cama e ela perguntou:
-Quanto vale?
-Dez mil.
-É muito.
-Não tem desconto.
-Quem fez?
-Foi ele. Respondeu o miúdo apontando para o interior de uma pequena oficina.
Ela foi lá:
-Foste tu que fizeste?
-Fui.
-Está caro.
-Depende…
-De quê?
-De querer pagar só a cama ou a história com ela…
-É muito bonita, mas dez mil é muito.
-Quanto oferece?
-Sete e quinhentos.
-Está curto. Aumenta lá…
-Não tenho…
-Fazemos assim. Se adivinhar a história desses casais, pode levar por sete e quinhentos…
-Não são casais. É um casal partilhando a vida desde a juventude até à velhice. A Natureza é a harmonia dessa vida em conjunto…
-Xiii, não estou a lhe aguentar… pode levar…
-Toma. Estão aí oito mil.
-Eh, pensei que só tinha sete e quinhentos.
-Era margem de negócio para comprar uma cama, mas isso não é uma cama, é arte… entregas?
-Claro.

É um quarto pintado de branco. Tem uns cortinados em azul clarinho como o céu e, tratando-se de Moçambique, também como o mar. Tem pouca coisa. Uma cadeira, uma mesinha de cabeceira, uma cama com três casais envoltos em folhas a enleá-los, esculpidos na madeira sólida da cabeceira. Nessa cama está um colchão. Nesse colchão não tem lençóis. Não houve tempo. Tem só um corpo musculado e negro de um artista se entregando na carne branca de uma mulher renascida. Acaricia-lhe a pele como faz com a madeira quando lhe quer fazer nascer uma ideia. E ela mexe-se como se a ideia estivesse nascendo em si.
-Como te chamas. Sussurrou no ouvido dele.
-Sozinho. E sentiu-se nascer pela quarta vez na sua vida.

Ao fundo da cama tem uma mesinha pequenina e baixa. Em cima dela está uma escultura em madeira. Sozinho trouxe como presente para a mulher que sabe ler histórias nas imagens talhadas na lenha. É o mar rebentando devagarinho na areia, um pescador com ar feliz e realizado puxando sua rede com água pela cintura e dois meninos esperando por ele de braços estendidos.

jpv


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This is Africa!

Tempo da sesta. 
Em África, se for preciso, até em cima de uma pedra se dorme!


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This is Africa!

Estes, nem a Nike tem!
Enquanto os outros remedeiam, África improvisa!


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This is Africa!


Eh pá, tou tramado. Esqueci-me da chave do cadeado!


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Crónicas de Maledicência – A Ponta do Iceberg

Crónicas de Maledicência – A Ponta do Iceberg

Depois do chumbo das quatro alíneas do Orçamento Geral do Estado por parte do Tribunal Constitucional, o Governo tinha duas hipóteses. Ou se demitia, ou começava a trabalhar em medidas para recuperar a verba perdida partindo do princípio, claro está, de que não alteraria a linha política seguida até agora.
O tal chumbo preocupou-me. Não me manifestei na altura, mas acreditei sempre que a atitude do TC pudesse funcionar como justificação para espoletar um conjunto de medidas abslolutamente violentas. Tão violentas que não tinha havido coragem para se pensar nelas.
O que li esta manhã no portal “Notícias ao Minuto” parece-me ser a ponta do iceberg dessa violência. Efetivamente, a notícia, que aparentemente é sobre os professores com mais tempo de carreira, logo, os mais velhos, retirando-lhes a redução da compenete letiva por compensação da idade e do desgate, a ser levada a cabo, terá desastrosas consequências nos mais novos. E a razão é simples. Muitos ficarão sem trabalho. A medida é aplicada no topo, mas as consequências recairão em professores a meio de carreira ou com poucos anos nos quadros. O mais curioso é que, desta forma, o executivo de Pedro Passos Coelho, com Nuno Crato à cabeça da Educação, nem precisa de falar em mobilidade especial, nem precisa de falar em despedimentos. Disso falará mais tarde, quando já for inexorável e não houver qualquer hipótese de recuar. São momentos muito difíceis os que vivemos e, se não temos cuidado, as medidas que tomarmos podem liquidar os serviços públicos e, liquidando-os, assassinam o tecido consumidor. O momento seguinte é a agonia do comércio e da indústria. Numa economia saudável, os consumidores têm de poder consumir.
Este é um iceberg com muitas pontas, mas, a ser verdade, poucos dias depois da decisão do TC, esta medida é o prenúncio de um despedimento massivo de docentes. A questão, agora, são duas! Uma, é saber se os docentes a dispensar são necessários ou não, ou seja, se fazem falta à sustentabilidade do sistema educativo ou se é um corte cego e puramente financeiro. A outra, é saber se o seu despedimento constitui efetivamente uma poupança ou se representa, a curto prazo, uma tremenda despesa… sim… não estou maluquinho, nem me falta a coerência, ora pensem lá bem…
jpv


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Número Redondo e Bicudo

Amigos, mais uma etapa…
Não restam mais palavras, esta terá de chegar: 

OBRIGADO!



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A Paixão de Madalena – Capítulo 10

A Paixão de Madalena

Livro II – O Cordeiro de Deus

10.Fora atribulada e longa, a caminhada. Viera Ele de salvá-la da morte arremessada em cada pedra. Um ou outro popular, talvez desses que pensam nunca ter pecado, ainda os perseguiu. Ele voltou-se para trás e fez-lhes um gesto veemente com o braço:
-Ide à vossa vida!
E foram.

Ela caminhava com a cabeça vergada pela vergonha, os olhos pregados no chão, as lágrimas de arrependimento lavando-lhe a face. Segura ao braço dele, tropeçou aqui e ali e abriu lenhos de sangue na carne dos pés. Ele tinha caminhado muito antes de encontrá-la e agora quase corria e, por isso, seus pés tinham terra pó e sangue seco de pequenas feridas. Entraram em casa dela. A mulher correu a todas a janelas a tapá-las com tecidos, restou uma luz trémula, um raio de sol cortando a escuridão e deixando ver o bailado do pó à sua volta.

A casa estava na penumbra. Alguém bateu à porta, mas não foi ouvido. A mulher puxou um pequeno banco de madeira e convidou-o a sentar-se. Foi buscar um alguidar com água a uma bilha e um pano limpo. Era um líquido precioso. Normalmente não se usava a primeira água para lavar os pés. Mas aquele era um convidado diferente. Não vinha pelos mesmos motivos dos outros. Acabara de salvá-la. Era Ele. Molhou o pano e espremeu-o. Começou por limpar-lhe a face, depois o pescoço, voltou a mergulhar o pano na água, lavou-o, espremeu-o e levou-o aos pés dele e lavou-lhos com movimentos cuidados envoltos em dedicação e admiração.

Está Ele sentado no banco. Está ela ajoelhada à sua frente lavando-lhe os pés. Segura-lhe um de cada vez, mergulha-os na água e depois fá-los emergir do alguidar e acaricia-os com o pano antes humedecido, limpa-lhos da terra e do sangue seco. Nunca olha para cima. Não se atreve. Mantém-se prostrada perante o Senhor. Quando termina, , ergue-lhe os pés lavados e limpos e beija-os.
-Porque me beijas os pés?
-Porque sois quem sois…
-Sou um pecador como todos os outros.
-Não sois como todos os outros.
-Sou sim. Sou mesmo mais pecadores do que eles.
-Senhor…
-Ouve… eu conheço o caminho da salvação, a minha missão era simples, bastava que vos ensinasse esse caminho, que vos levasse a segui-lo ou desse a minha vida por vós. Verás, dentro de pouco tempo, que terei de morrer por vós pois não consegui ensinar-vos o caminho da salvação.
-Ensinai-me esse caminho, Senhor, e eu o gravarei em meu coração. Eu o aprenderei, Senhor.
-Sim. Ensinarei. Sim. Aprenderás.
-Qual é o caminho, Senhor, dizei-me, eu vos suplico.
-O único caminho para a salvação, Maria de Magdala, o único capaz de vos redimir de todas as faltas, é o Amor.
-Eu vos amo, Senhor.
-Eu sei, Maria de Magdala, mas não basta que me ameis. Amai-vos uns aos outros.

E dizendo isto, o Senhor se levantou, o Senhor ergueu Maria de Magdala e a sentou no pequeno banco de madeira, o Senhor puxou o alguidar com a água e pano para junto de si e se prostrou diante da mulher que acabara de aprender a suprema lição. E com gestos lentos e cuidados, o Senhor lhe lavou as lágrimas desenhadas na face e os pés das feridas e do pó e tendo terminado o Senhor lhos ergueu e os beijou.

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A Paixão de Madalena – Capítulo 9

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

9.Reconhecemos nós e reconhecerá o leitor que, desde que pode comunicar com palavras, ditas ou escritas, o Homem anda conversando e debatendo em torno dos mesmos assuntos que não serão mais do que uma mão cheia. O sentido da vida, o que é a morte, o valor do amor, o papel do sexo, a solidariedade, a existência, ou não, de divina e reguladora entidade, a subsistência, a segurança, a origem das espécies e, claro, essa filosófica e interminável discussão acerca da mudança. Há quem defenda de forma clara e inequívoca que as pessoas não mudam. Nascem com uma matriz comportamental e é com ela que morrem  e, mesmo quando tentam mudar, hão de vir ter à sua originária e única maneira de ser. Os adeptos desta teoria aduzem pesados e imutáveis argumentos. E há quem defenda de forma clara e inequívoca que as pessoas mudam. Nascem lá como nascem, mas crescem, aprendem, são permeáveis ao conhecimento, vulneráveis às experiências e acabam alterando a sua maneira de ser.

Escolhemos escrever neste ainda breve capítulo, por duas vezes, a expressão maneira de ser. Essa palavra, maneira, daria motivo para um romance e mais umas quantas teses de mestrado e doutoramento e ainda diversos capítulos em compêndios mais ou menos competentes sobre teoria da literatura. São, quanto a nós, esforços inúteis e inócuos porquanto quando o autor destas linhas escreve maneira de ser, toda a gente, mais ou menos letrada, percebe do que se trata. Quase tão inútil a discussão quanto essa outra que ainda há pouco referimos sobre se, efetivamente, o Homem muda ou não. Inútil, pois, que não se discute, ou deveria discutir, que possa depender da escolha do Homem aquilo que é a sua essência. Quando nascemos já estamos mudando. E mudamos, até, o mundo à nossa volta. E quando vivemos, a mudança é essência e definição da própria vida. É certo que, por motivos de segurança e auto consciência, tentamos cristalizar no tempo certas imagens de nós e por isso mesmo vamos dizendo, Eu sou isto, Eu creio nisto, Eu quero isto, Eu ajo assim, De mim esperem isto. Acontece, pois, não se tratarem mais do que tentativas de cristalização de imagens pois que, à medida que vamos fazendo estas declarações, vamos mudando com elas e até por elas.

Continuai, assim, a discutir o indiscutível que, para nós, humilde autor desta Paixão, a de Madalena, a mudança é um facto imutável.

Madalena mudou. Não foi fácil. Nem a sua decisão, nem a aceitação dela por parte de quem a rodeia, nem a sua execução por se tratar de fenómeno raro, raramente autorizado. Corria o ano de mil novecentos e noventa e três, tinham regressado há pouco de África, e a menina que conhecemos adolescente completou vinte primaveras. Nesse ano, em todos os meses, no dia do seu aniversário, Kyle lho lembrou com um carinho, uma pulseira, uns chocolates, umas flores, um jantar romântico. No final do ano não pôde continuar porque foi hospitalizado. Assim, quando Madalena o visitava e calhava no dia do seu aniversário, dizia-lhe ao ouvido:
-Vinte anos! És uma mulher!
Assim se pode dizer que, no ano em que fez vinte anos, Madalena fê-los doze vezes. Kyle nunca se esqueceu de lho relembrar e foi também a consciência dessa maturidade que a fez querer mudar. É que, tendo Madalena vinte anos, pouca matemática seria necessária para se perceber que sua irmã morrera há dez. Não se trata da mana Liberta que lhe deixou Mariana nos braços e nunca mais voltou, nem voltará. Trata-se de outra irmã. Um pouco mais nova. Muito pouco.

Foi numa terça feira. A manhã estava fria de sol e por isso mesmo o corpo se encolhia mas a alma se expandia a novos horizontes e realidades. Entrou pelo Registo Civil dentro, procurou alguém que a pudesse atender, e disse com convicção na voz e na intenção:
-Quero mudar de nome!
-Lamento, senhorita, mas isso não vai ser possível.
-Como assim, não vai ser possível?
-Não. Ninguém muda de nome. Se uma pessoa mudar de nome, toda a sua identidade passada se altera, todos os documentos que assinou perdem validade e todos e todos os que assinar daqui em diante é como se fossem assinados por outra pessoa.
-Sim, compreendo, mas, efetivamente, eu não pretendo mudar de nome. O que eu quero é acrescentar um nome aos que já tenho.
-Muda pouco, o caso. Outro nome, outra pessoa…
Madalena sentiu-se encurralada e quando se sentia encurralada costumava reagir com mais vigor e imaginação. E foi por isso que lhe saiu o argumento que lhe saiu e é como lhe saiu que o relatamos:
-Então quer dizer que, se os meus pais me tivessem chamado Monte de Caca, eu tinha de ficar Monte de Caca para o resto da vida?
-Meu Deus, a senhora chama-se Monte de Caca?!
-Chamo.
-Jesus, credo… nesse caso há uma solução…
-E qual é?
-A senhora tem de expor a sua situação num requerimento e remetê-lo à Direção Nacional dos Cartórios e Notariados. A sua exposição será avaliada por uma comissão que, em casos muito excecionais, pode deferir…
-E onde é que entrego o requerimento?
-Aqui mesmo. Ou remete por correio.
-Remeterei por correio.
-Sim, claro! As melhoras, quer dizer, boa sorte.
-Não se preocupe, tenho outros nomes…
-Ah sim? Pois claro que sim… ufa, que alívio. Agora nem sabia como despedir-me…
-Madalena. Madalena da Conceição…
-Madalena da Conceição M…
-Sim, veja lá a desgraça.
-Uma desgraça, de facto.

Madalena saiu feliz. A ingenuidade da senhora levara-a a dar-lhe a informação que pretendia. Seria agora necessário redigir o requerimento com propriedade e com rigor para que se percebesse a sua motivação. Era mesmo necessário contar alguns momentos da sua vida em que não queria voltar a mexer. Teria de ser. Nunca gostara de ser Conceição. Não percebia a sua conceção ou, percebendo-a, sabia-a mergulhada no pecado dos homens ainda que emergisse do amor deles. Mas os homens tinham decidido não ver o amor e concentrar-se no pecado. Exilaram-na da vida muito cedo. E por isso se entregou a Albertina e à sua irmã mais nova. Pouco mais nova. Por outro lado, essa irmã sempre fora uma luz na sua vida. Um sorriso, um conselho, uma matreirice, um olhar, uma confissão, uma partilha, uma ligação com o mundo real. Uma luz a fazer sentido. Chamava-se Maria da Luz. E Madalena queria expurgar de si a conceção em pecado e eternizar em si a luz que de si nunca tinha saído. Essa irmã era a comunhão total, era parte de si, a sua razão para continuar a viver. Têm força os mortos. Por vezes, mais do que os vivos. Antes de partir, Maria da Luz dissera-lhe, Vive, vive tudo por mim como se fosse eu. E Madalena tem trazido consigo essa missão, a de mostrar a Maria da Luz como é a vida. E terminava o requerimento como começara, solicitando que a deixassem ter um nome que fizesse sentido e desse vida a quem merecia a vida e emprestasse esperança a quem precisava dela. Queria ser Madalena da Luz em vez de Madalena da Conceição. E é com a luz desse nome que enfrentará a vida que lhe falta viver. Tem muita pela frente. Alguma carregada de sofrimento e outra salpicada de alegrias como normalmente sucede a todos nós.

A cara lavada em lágrimas, Mariana ao colo sem perceber o que se passava, o hospital atrás d si, um táxi, a campainha da porta de Albertina a chorar, os cabelos brancos da avó a surgirem e uma explosão:
-Ajuda-me, avó Bá, ajuda-me! Não posso, não consigo viver sem ele. Era a minha trave, a minha vida, o meu homem… porque tem de acabar, avó? Porque tem de acabar assim?
Albertina chegou-a ao seu peito, fechou a porta, levou-a para dentro e tentou sossegá-la. Usou palavras de coragem, que estaria com ela como sempre estiveram, que teriam Mariana para criar, se quisesse voltariam a viver juntas…
-Eu só o quero a ele, avó Bá, eu só o quero a ele…
-Mas o que te disseram?
-Que tinha pouco tempo. Meses. A viagem a África não ajudou…
-Mas não foi a vontade dele?
-Claro, mas está fraco… vai passar o Natal no hospital. Só sairá se recuperar o suficiente e quando o tempo estiver menos agressivo, mas virá por pouco tempo… foi o que disseram.
-Aceita a dor, Madalena, só assim a conseguirás superar.
-Eu não queria perder mais ninguém. Primeiro a mana e agora o meu homem, o meu irlandês teimoso de olhos azuis.
-Será sempre teu, Madalena.

Madalena tem lutado com a vida para conquistar-lhe confiança e sempre que parece superar uma provação, uma onda de sofrimento, a vida derruba-a de novo, joga-a ao chão, seu lugar primeiro e último.

O estado de saúde de Kyle melhorou, piorou e voltou a melhorar. Sofria de cancro no cólon. A luta era difícil e penosa e, pior de tudo, tinha um vencedor anunciado. Saiu do hospital numa manhã chuvosa de abril. Madalena chamara um táxi que esperou enquanto foi buscá-lo lá dentro. Levou-o para casa, tratou-o como um príncipe, o seu príncipe. Teve de refazer o quotidiano para poder cuidar dele. Manteve em casa a senhora que a ajudava com Mariana. Trabalhava. Ganhava muito pouco, mas o vencimento de Kyle era generoso e ela geria-o com rigor. Fizeram inúmeras tardes de chá, conversaram sobre livros, os amigos vieram visitá-lo de quando em vez e pelo verão sentia-se a recuperar. Com mais força. Numa tarde de agosto, quis fazer amor. Fizeram amor devagarinho como se não quisessem estragar nada. No fim, ela limpou-lhe o suor da testa. Adormeceram abraçados. Ela sonhou que sobrevoavam o mundo na sua cama observando os monumentos e saudando as pessoas. Ele sonhou que jogava à bola com uma criança que o tratava por pai. Quando acordaram, disse a Madalena:
-Sonhei que tínhamos um filho.
-Foi só um sonho.
Madalena não sabia ainda, nem tão pouco Kyle, mas tinham de facti um filho. Aquele que acabaram de fazer. São insondáveis os caminhos da mente.

Dois meses mais tarde, Kyle voltará ao hospital e, tendo o leitor prestado atenção ao início desta história, saberá que foi para morrer. E saberá também que Madalena descobriu a semente do amor de ambos e correu a contar-lhe e ele já não ouviu. Não soube Kyle que seria pai, embora tivesse pressentido que lhe tinha feito um filho. E sonhou. Sonhou com o fruto desse amor, depois de fazer amor. E era com isso que estava sonhando outra vez, quando adormeceu para sempre.

Jacob, assim se chamará. Não será somente o filho de Kyle. Será a herança do seu amor. E assim viverá. Como o fruto da paixão de Madalena.

——————- FIM DO LIVRO I ——————-
———————– jpv ———————–


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Citação do Caminho

“for once, once in your life
won’t you do what feels right
instead of waiting for the next big compromise”

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A música é, para o meu gosto, belíssima. A letra é interessante e harmoniosa. Destaco este excerto, três versos, onde se se revela uma verdade universal.
Desfrutem.


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Cozinha para Homens – Bifes de Atum Fresco

Cozinha para Homens – Bifes de Atum Fresco

Quem ainda se lembra desta rubrica? Julgavam que eu tinha esquecido? Naaa… aqui nada se perde. Só tinha faltado oportunidade. Para os leitores mais recentes e que possam ter cometido o descalabro de ainda não ter lido os outros capítulos de “Cozinha para Homens”, advertimos que todos os pratos descritos foram confecionados e comidos, advertimos que as práticas aqui descritas não se devem executar sem supervisão de um adulto ou técnico especializado e advertimos também que este espaço é bem humorado, bem disposto e sem qualquer ponta de machismo, mesmo que pareça.

Hoje é dia de tolerância de ponto em Moçambique porque ontem foi o Dia da Mulher Moçambicana. Talvez por isso, muitos homens deixaram as mulheres em paz que é o melhor que se pode fazer por uma mulher: não lhe chatear a cabeça. A segunda melhor é ir às compras com ela e fingir-se interessado. Sim, fingir, ser genuíno nessa matéria não está ao alcance dos homens. Quer dizer, está ao alcance do meu cunhado, mas ele é um tipo esquisito. Não sei como é que ela o atura. Adiante. Eu não fugi à regra e bazei para para o mar alto com mais sete tipos e sessenta minis. Vai daí a minha mulher adorou. Além de não me aturar durante um dia inteirinho, vim carregado de peixinho fresco para casa. Ora vamos lá à receitinha.

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Bifes de Atum Fresco
Ingredientes: 
Um tio porreiro, um amigo com um barco, 7 ou 8 tipos, 60 minis, carne grelhada, sandes, material de pesca, 1 atum, cebolas, pimentos, sal, piri-piri, uma garrafa de vinho, uma garrafa de coca-cola, dois pães, fruta diversificada.

Preparação:
Arranje um tio porreirinho que viva em Moçambique. Siga o conselho do Senhor Primeiro Ministro e emigre também. Uma vez em Moçambique, peça ao tio porreirinho para o ajudar com a instalação e para o ambientar na nova sociedade e o ajudar a adaptar-se ao novo modo de vida. Quando o tio porreirinho, a propósito de um feriado, o convidar para irem pescar no mar alto com um amigo dele que tem um barco, não pense duas vezes, compre uns paques de cerveja, arranje umas sandes vista-se para a ocasião, levante-se às 4 da matina e vá ter com eles. Passe um dia fantástico, usufrua da paisagem e aprenda algumas técnicas de pesca. Lá para o meio da tarde já deverá ser capaz de pescar. Não se esqueça de ir distribuindo as cervejas e ajude-os a comer a carne grelhada deles. No final do dia, vai sentir-se orgulhoso dos dois ou três peixes que apanhou. Se, quando distribuírem o peixe, gentilmente lhe oferecerem um atum de oito quilos, aceite e leve-o para casa. Quando chegar, mostre-o à sua companheira e se ela o elogiar, aceite os elogios e tente tirar partido deles… você sabe! Depois tome um duche e vá dormir. Afinal de contas, você é um macho predador de sucesso que precisa de descanso. No dia seguinte, seja simpático, amanhe o peixe e corte-o às postas. Escamar? O atum não tem escamas, homem! À hora de almoço, sugira-lhe que faça dois bifinhos de atum fresco pescado no dia anterior, de preferência de cebolada, com piri-piri, porque ficam fantásticos. Enquanto ela cozinha, ponha a mesa mais ou menos como a imagem documenta. Pão fresco. Uma garrafa de vinho rosé bem frio, se ela não beber vinho, abra-lhe uma Coca-Cola. Atenção, em Moçambique, a Coca-cola está tabelada e o preço vem na cápsula. Se lhe pedirem mais de 12 meticais (mais ou menos 30 cêntimos de Euro), desconfie. Prepare uma salada de frutas com maçã, manga, papaia, ananás, banana e kiwi e sirva duas tacinhas. Basta descascar e cortar a fruta aos pedacinhos e juntar sumo de laranjas espremidas. Os sacos de laranja de sete quilos compram-se na avenida 24 de julho enquanto se está parado num semáforo e custam 100 meticais (2,5€). Como é que se prepara o atum propriamente dito? Eh pá, eu dava o número da minha mulher, mas ela recusa-se a ter telemóvel! A esse respeito aconselho-o a casar com uma mulher que adore atum e saiba cozinhá-lo tão bem que até faz crescer água na boca. Viu, como é fácil?!

(Clique para Aumentar)

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Nota 1: Agradece-se ao Nunes e ao Cruz a ajuda que deram na preparação desta receita, nomeadamente, convidarem para a pescaria e oferecerem o atum.
Nota 2: Agradece-se à mulher e à mãe dela. À primeira por saber cozinhar tão bem, à segunda por ter feito a primeira.
jpv