Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


6 comentários

Feliz Páscoa

MPMI deseja a todos os leitores, amigos e familiares uma Santa Páscoa vivida em tranquilidade e com esperança.


Deixe um comentário

A Culpa é da Língua Portuguesa

Olá!

Lembram-se de uma discussão no parlamento português, aqui há umas semanas atrás, sobre se um tipo podia voltar a ser Presidente da Câmara ou Presidente de Câmara?

Pois, a verdade é que tenho cá em casa um patê que sofre do mesmo mal. É uma patologia denominada de “A Culpa é da Língua Portuguesa”. Eu explico. Comprei em Maputo um patê produzido em Portugal que, diga-se de passagem, é muito saboroso, faz uma excelente sandes e chama-se “Patê Perdiz”. Ora, quando entramos num supermercado e vemos na prateleira um patê chamado perdiz, achamos que ele é de quê? Perdiz, certo? Pois, acontece que este patê está num frasco que tem escrito “Patê Perdiz”, não tem escrito “Patê de Perdiz”. Ou seja, o burro fui eu que não percebo nada de Língua Portuguesa, embora a ensine. A verdade é que se não está lá o de, então pode chamar-se perdiz mas ser de… de… de… fígado de porco! Mai nada! A verdade é mais complexa. Aquilo tem toucinho de porco e carne de perdiz num fabuloso total de 19%. Depois tem fígado de porco em quantidade incerta e por fim tem uma carrada de ingredientes e conservantes todos misturados. Esta doença atua assim: os produtores fizeram o patê e queriam chamar-lhe “Patê Mixórdia de Carnes”, mas sempre que iam para escrever o título, a única palavra que conseguiam escrever era perdiz! É uma desgraça. Assim uma espécie de dislexia dos valores! Parece que ainda não tem cura.

Enfim, deixemo-nos de coisinhas pequenas e morfemos alarvemente o dito patê. Uma coisa é certa, teremos sempre a certeza de que uma qualquer parte de 19% do frasquinho foi em tempos uma alegre e bem disposta perdiz!

Coitadinhas da ceboila e da cenoira, estavam desidratadinhas de todo!

— jpv —


2 comentários

Histórias a Preto e Branco – Mulheres de Nampula

Histórias a Preto e Branco

Mulheres de Nampula

Eduardo Monteiro sobe a 24 de Julho no seu Toyota Prado de 2002. Bom carro. Pleno de força e resistência. Ideal para as ruas de Maputo. Claro está que gasta catorze litros aos cem, mas, desde que veio para aqui, não tem de preocupar-se com isso. Em Portugal, as coisas estavam para além de difíceis, praticamente no desemprego. Aqui, não só é um tipo ativo, como ganha bem e, sobretudo, vê o produto do seu trabalho ter consequências, ajudar as pessoas. Aqui, sente que pode fazer a diferença. Moçambique salvou-o. Não só da falência financeira. Isso era o menos. Salvou-lhe a alma. E isso não tem preço. Aqui controla, decide, põe, dispõe. Executa os projetos tal como os idealizou. Aqui, à noite, tem à sua espera as coxas quentes de Inesperada. Ou não. Que é de repentes, a moça. Tem vontades.

— P&B —

E lá vai conduzindo, finta um buraco aqui, ultrapassa um chapa ali, e a cabeça volta-lhe ao calor das coxas. Mas não às de Inesperada. Antes as de Felizarda. Essa mulher envolvente e escaldante que lhe tem ocupado os pensamentos todos. Se o pensar fosse um rio, essa mulher seria uma leoa sedenta bebendo o rio todo agachada na margem. O problema é que lá ao fundo, na foz, o mar está estranhando que lhe chegue tão pouca água. E o mar é Inesperada.

— P&B —

Muitas coisas se dizem sobre as mulheres de Nampula e, além dessas, outras tantas poderiam dizer-se. Que são autónomas, que são sedutoras, orgulhosas, que são determinadas, que têm nas ancas o meneio de quem peneira a farinha. Pois sim, tudo isso é verdade. Para elas e para mulheres de outras paragens. Ora, o que é seu, intrinsecamente seu, e, olhai lá, leitores, que isto disse-me uma mulher de Nampula, é que, em escolhendo o seu macho, em o trazendo para o seu redil, o seguram como mais nenhuma mulher é capaz de fazer. Para sempre. Até que queiram.

— P&B —

Empurram-no, afastam-no, deixam-no prisioneiro do desejo, depois chamam-no à mão e dão-lhe uma pequena ração. Nada que o satisfaça. Somente que o faça querer mais. E hão de servir-lhe o prato completo quando entenderem que o merece. E voltam ao início. Empurram-no, afastam-no… E este fluir das coisas vai bem e traz toda a gente feliz e no seu lugar até que apareça uma leoa Felizarda na margem sorvendo a água.

— P&B —

Certa noite, estava Eduardo desassossegado e vinha-lhe a inquietação de querer e não ter. Estava suspenso e louco de desejo. Inesperada sabe onde o tem e sabe que é nesse preciso momento que uma mulher agarra o seu macho, o segura até que esteja de novo saciado, aquietado e sem perigo de procurar a caça noutras paragens. Está, portanto, na altura de servir-lhe o prato completo. Ele acordou e sentiu ruído na casa, um restolhar distante e próximo, estendeu um braço e ao seu lado não estava ninguém. O que anda aquela mulher a fazer a pé às duas da manhã? Interrogou-se. Levantou-se. Caminhou estremunhado e deu consigo à porta da casa de banho. Havia uma banheira à esquerda continuando no sentido da porta e o que viu então nunca esquecerá. Inesperada estava de saltos altos, tinha uma camisa de dormir muito curtinha numa cor leve e com umas florzinhas cor de rosa estampadas, por baixo via-se o desenho da cueca diminuta e os seios generosos pendendo porque ela estava inclinada sobre a banheira. Tinha uma perna direita e a outra dobrada para trás pelo joelho com o longilíneo salto alto espetado no ar. Não se baixara, dobrara-se pela cintura e tinha o tronco muito direito pendendo sobre a banheira. Ele olhou o perfil dela, sensual, atraente, a acordá-lo do sono e a levantar em si todos os ânimos e esqueceu-se de tudo, nem foi capaz de dizer nada de jeito. Para justificar a sua presença ali, ainda balbuciou:
– Que estás a fazer?
– Ora, que pergunta é essa? Estou a lavar a banheira.
– A esta hora?
– Claro. De manhã o meu homem há de vir tomar o seu duche…
Esticou uma perna para o balde que, vá-se lá saber como, não estava ao seu alcance:
– Hás de dar-me esse balde. Estou a pedir…
– Sim, estás a pedir.
E não se lembra de mais nada. Em menos de um fósforo tinha-lhe as ancas entre as mãos e tomava-a para si. Percorreram o caminho dos gemidos lânguidos afogados no suor excitado e depois de diversas rodadas, acabaram brindando na cama em afagos e carícias de mel.
– Vais-me matar com tanta doçura, mulher.
– Sabes o que fazem as mulheres de Nampula quando são mães?
– Não…
– Depois que a criança nasce, durante um ano, uma vez por dia, derramam umas gotas do leite do seu seio no sexo do bebé.
– Para quê?
– Para que cresça com ele essa doçura que provaste ainda agora.
Quando adormeceram, Inesperada tinha de volta o seu homem e Eduardo Monteiro fazia comparações. Um dia recebera uma SMS de Felizarda:
– Podes me apanhar na OMM? Não tem chapa hoje.
– Estou a vir para aí.
– Maningue nice.
E foi buscá-la e deixá-la em casa e ela lhe disse para subir lá em cima e quando chegaram foi falando:
– Xiii, esse chão está mal…
E ficou dobrada sobre a esfregona fazendo movimentos lentos e bailados. Eduardo perdeu-se com ela, entornaram a água do balde e afogaram o desejo na tarde quente e húmida de Maputo. E agora comparava-as e sorria pensando que gostava dos hábitos de limpeza de Inesperada, sua companheira, e Felizarda, sua… amiga.

— P&B —

Como muitos portugueses que chegam a Maputo e são bafejados pela sorte feminina e moçambicana, Eduardo Monteiro sentia-se um macho pujante, um verdadeiro engatatão a quem as mulheres não resistiam. As portuguesas tinham-no rejeitado? Problema delas. Não sabem o que perdem. E via-se no papel de engatatão e gostava do que via. Uma ou outra vez, os colegas, sobretudo o Sousa que, desde que nascera, não tinha pastilhas nos travões da língua, avisaram-no, Vê lá se em vez de engatatão, não és engatado. Nessas alturas, costumava relembrar para si como as seduzira, assim como quem se assegura que ainda sabe o chão que pisa. E relembra que procurava um tinteiro para a impressora no Centro Comercial Maputo, quando viu pela primeira vez Inesperada e lhe lançou um olhar sedutor a que ela não resistiu. O que ele não relembra porque não pode é que, quando entrou no centro comercial, ela ia do outro lado da rua, viu-o, avaliou-o e resolveu entrar também. E relembra como sorriu, irresistível, a Felizarda no dia em que ela saiu do chapa e atravessou a rua à frente do four by four dele. O que ele não relembra porque não pode é que o chapa não parava ali e foi ela que convenceu o motorista a parar, saiu e se passarelou na frente do carro. Há muito que vinha reparando naquele homem, só, conduzindo o Prado. Eduardo não sabe porque não pode, mas ele é o engatatão engatado.

— P&B —

Voltemos ao início da história. Eduardo Monteiro sobe a 24 de Julho no seu Toyota Prado de 2002. Lembra-se de que precisa de falar ao Sousa, deita a mão ao bolso da camisa à procura do telemóvel. Nada. Nas calças. Nada. No porta luvas do carro. Nada. Exaspera. Chega ao escritório, vasculha tudo à procura do aparelhómetro e não se cansa de repetir:
– Eu não sou ninguém sem o meu telemóvel, estão lá todos os meus contactos!
E não disse, mas pensou, Incluindo o de Felizarda! E as mensagens? Meu Deus, se aquilo cai nas mãos erradas, estou tramado. Ligou para ele, à espera de o ouvir, foi ao carro a ver se o ouvia cantar. Nada. E nada. À noite, quando regressou a casa, não precisou de dois minutos para o encontrar adormecido na mesa de cabeceira. Perguntou, não porque precisasse da resposta, mas procurando uma confirmação de que estava tudo bem, de que aquele esquecimento não havia sido desastroso:
– Deixei o telemóvel em casa?
– Deixaste. Ficou na casa de banho. Deve lá ter ficado quando tomaste duche à hora de almoço. Pus na tua mesa de cabeceira.
E ele acalmou-se. Tudo parecia tranquilo e dentro da normalidade. Tinha várias chamadas não atendidas, incluindo a que fez do telefone do escritório. Tinha diversas mensagens por ler. Uma delas era de Felizarda, Te vejo amanhã? O chão está precisando uma levagem. A mensagem não havia sido aberta. Sorte. Uma tremenda sorte. Jantou. Inesperada teve o mesmo comportamento de sempre. Tudo normal, portanto.

— P&B —

O chapa, como quase sempre, como quase todos os chapas, ia cheio. Partira do Museu, dirigiu-se à rotunda da OMM e agora cruzava a Vladimir Lenine em direção à Praça dos Combatentes. Lá dentro, Felizarda, entre dois outros passageiros, ouviu o som inconfundível de uma SMS a chegar. Olhou o visor. era de Eduardo:
– Olá! Estava à espera que me desses um sinal.
– Pouco saldo.
– Vamos lavar o chão?
– O menino gostou! Hoje não vai dar. Podes-me ligar?
– Claro.
E, pouco depois, Felizarda ouviu o toque e atendeu. O que ouviu soou-lhe estranho. Tão estranho que demorou algum tempo a perceber o que se passava. Em primeiro lugar, quando atendeu, a voz que lhe respondeu era de mulher. Em segundo lugar, a voz parecia ecoar e vir de todos os lados à sua volta. Atendeu. Ouviu. E desligou:
– Olá, como vai o meu gato assanhado?
– Deve estar a trabalhar!
Esperou uns segundos e olhou em volta. Quando o seu pescoço se virou o suficiente para ver o banco lá de trás, uma mulher bem vestida, de olhar cintilante e um sorriso vitorioso nos lábios, disparou:
– Tu és de Nampula?
– Desculpa?! Não te conheço.
– Tens razão. Não me conheces. Mas devias conhecer. Afinal de contas andas a dormir com o meu homem.
– Eh! E eu lá durmo com homem de alguém?!
– Um homem só é de quem o segura. E tu andas a querer segurar o meu.
– Não sei do que falas.
– sabes, sabes. Olha, o teu telemóvel vai tocar.
Inesperada puxou do telemóvel de Eduardo e marcou o número de Felizarda. Ele tocou. Felizarda abriu o jogo. Não teve outro remédio. Inesperada explicou como, pelas mensagens, reconstituíra as passadas de Eduardo e da própria Felizarda. Conversaram toda a tarde. sem brigas. As brigas não ajudariam a resolver o problema. Felizarda quis saber, em particular, um pormenor:
– Eu sou de Nampula. Como soubeste isso?
– Está uma mensagem no telemóvel dele sobre lavar o chão… também andas peneirando as ancas na frente dele…

— P&B —

A conversa foi tensa. Prudente. Algum tempo passado, perceberam ambas que  ambas jogariam os seus trunfos. Inesperada percebeu que, seguindo esse caminho, uma das duas perderia sempre sendo que seria imprevisível qual delas seria. Fazendo justiça ao nome que lhe puseram, arriscou uma proposta inesperada:
– Olha, tu tens as tuas armas e podes-mo levar, mas eu jogarei sempre os meus trunfos. A minha mãe também peneirou como a tua. Sei esse movimento de cor. Está em mim. Nunca terás descanso se o levares e eu já o não tenho agora. E se o partilhássemos?
Felizarda calou-se por momentos. Hesitou. E depois respondeu e a sua resposta não sendo de sim, nem de não, já levava a intenção nela:
– Temos de combinar as coisas. Achas que ele deve saber?
– Por enquanto não! Vamos fazê-lo dançar um pouco, damos-lhe corda, deixamo-lo acreditar na sua própria mentira e um dia destes apanhamo-lo.
– Objetivo?
– O objetivo é não haver, nunca mais, nenhuma outra mulher. Nem mesmo de Nampula! Esse bode tem de ser seguro.
– Nem que seja pelos chifres!
– Nem que seja pelos chifres!

— P&B —

Eduardo andava feliz. Saltava das coxas de Inesperada para os braços de Felizarda e fazia uma ginástica de gestão do tempo que ultimamente lhe parecia mais fácil. Parecem combinadas, pensava ele. E estavam. Felizarda e Inesperada trocavam mensagens e acertavam entre si quem passava que tempo com ele. Sendo ponto assente que as noites estavam reservadas para Inesperada. E lá andavam passando o tempo a geri-lo. Uma tarde com esta, uma manhã com aquela, um almoço com uma, um jantar com outra. E contavam uma à outra as mentiras que ele ia inventando para estar com elas. E o facto é que Eduardo Monteiro, que julgavas geri-las, era magistralmente gerido por elas.

— P&B —

Um dia, por volta das dez da manhã, recebeu uma mensagem de Felizarda a que respondeu de imediato:
– Almoçamos? Gosto tanto daquela massada de garoupa com camarão da Cristal…
– Claro. Encontramo-nos lá às doze e trinta.
– Combinado.
– Combinado.
Quinze minutos volvidos, recebe nova mensagem, desta vez de Inesperada:
– Estou a fazer o arroz à zambeziana que tanto gostas. Espero por ti às doze e trinta.
Eduardo estremeceu. Logo agora que elas andavam tão convenientemente desencontradas, acontecera o que sempre tinha temido. Ponderou a situação. Fez as suas opções estratégicas e respondeu a Inesperada:
– Oh! Tenho pena, mas não posso. Reunião de trabalho muito importante.
Doeu-lhe ter de rejeitar o arroz à zambeziana, mas um homem tem de fazer certos sacrifícios. Quando entrou na Cristal, gostou de ver Felizarda. Estava bonita. Sensual. E tinham já feito o pedido, bebidas incluídas, quando Inesperada apareceu no restaurante e se aproximou da mesa onde estavam. Isso, ele já não gostou de ver, mas reagiu com sangue frio:
– Inesperada?! Apresento-te a senhora Felizarda, minha cliente. Senhora Felizarda, esta é Inesperada, uma amiga.
– Uma cliente?! Ai é isso que eu sou para ti? Não me lembro de ter-te pagado pelos teus serviços.
– Amiga?! E a mim apresentas-me como amiga?! Mlungo cubia cuaco! Olha aqui, menino, essa mulher vai ter-te quando eu não te quiser.
– E quando eu não te quiser, quem te vai ter é essa outra mulher! Cliente! Eu te dou a cliente! Não lavas o chão no próximo mês!
– Nem a banheira!

— P&B —

Eduardo foi confrontado com o que elas sabiam, com as suas mentiras e com a forma como o andavam a gerir. Percebeu como tinha sido engatatão engatado por três vezes. Primeiro por uma, depois por outra e por fim pelas duas. Sempre que fazia menção de defender-se, elas torpedeavam-no com argumentos. Percebeu que estava manietado. Inicialmente não entendeu aquela estranha união. A seu ver, o expectável é que se tivessem pegado as duas. Mas acabou por perceber que, precisamente por causa dessa estranha união, ele tinha andado completamente controlado. A proposta delas era simples, criar um regime de convivência a três, do conhecimento dos três, aceite pelos três, sem que se cruzassem as duas. O seu compromisso era exigido. Eduardo, preso num redil astuto de informação, aceitou e, ao aceitar, exalou uma expressão em jeito de desabafo:
– Mulheres!
Que elas corrigiram e acrescentaram de imediato e em coro:
– De Nampula!

jpv

———————————-
Nota do autor 1: O chapa é um meio de transporte semi-coletivo. Faz o serviço de um autocarro, mas consiste, normalmente, numa Toyota Hiace. Há milhares de chapas em Maputo e são fundamentais à vida da cidade.
Nota do autor 2: “Maningue nice” é uma expressão comum em Maputo e junta uma palavra de changana com outra de inglês significando “muito bom”, “muito fixe”.
Nota do autor 3: Em Maputo, um veículo todo o terreno é designado, muitas vezes, por “four by four”.
Nota do autor 4: A expressão, em changana, “Mlungo cubia cuaco” quer dizer “Branco dum raio” e constitui um insulto suave. Sendo certo que em Nampula não se fala changana, é um facto que a maioria das pessoas que vai viver para Maputo, portugueses incluídos, aprende expressões e formulações em changana. Não se estranhe, por isso, o uso desta expressão por Inesperada.
Agradecimento: o autor agradece a preciosa ajuda do RB e da VL que, de formas diferentes, inspiraram esta história.


Deixe um comentário

Crónicas de Maledicência – O Regresso de Sócrates

Crónicas de Maledicência – O Regresso de Sócrates

Amor, Ódio e Indiferença
Pode gostar-se de José Sócrates, pode não se gostar de José Sócrates, pode amar-se Sócrates, pode odiar-se Sócrates, pode achar-se que foi um bom primeiro ministro ou pode achar-se que arruinou o país. O que não se pode, é ficar indiferente a Sócrates.

Ontem, a RTP arrasou a concorrência. Toda a gente, mesmo os que diziam que não iam ver, estive a ver e/ou a ouvir a entrevista do ex-Primeiro-Ministro.  O programa até ultrapassou, em audiências, as transmissões dos jogos de futebol do Benfica. Ou seja, independentemente do que os portugueses pensam dele, ontem quiseram ouvi-lo. Já hoje, a imprensa nacional e internacional, o parlamento e até o Senhor Primeiro-Ministro, na defesa que fez do Senhor Presidente da República, demonstraram não ter ficado indiferentes à reaparição pública de Sócrates.

Também não fiquei indiferente. Ouvi com atenção e tentarei comentar brevemente a sua entrevista naquilo que penso foram os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Não vou analisar a governação de Sócrates nem a do atual executivo. Vou cingir-me à entrevista de ontem. Só isso. E, claro, fá-lo-ei de forma racional e isenta.

Tomar a Palavra
Não percebo porque é que Sócrates não haveria de falar. Manifestar a opinião é algo normal em democracia. E não percebo como é que o mesmo povo que votou em António Oliveira Salazar para melhor português de sempre, fez uma petição para que José Sócrates não falasse na televisão. Aliás, mesmo aqueles que são contra Sócrates podem ter aqui uma oportunidade de pegar nas palavras dele e no facto de estar a expor-se para o contrapor, rebater e desautorizar. Já acho sintomático que o astuto engenheiro tenha usado a expressão “tomar a palavra” e não, por exemplo, “usar a palavra”… acaso? Não me parece!

Passado e Presente
O que menos gostei na entrevista foi o facto de ser tão centrada no passado e tão pouco projetada para o futuro. Percebo a ideia do ajuste de contas com as acusações de que foi alvo, mas penso que, se a intenção é participar, então que o engenheiro se centre no futuro e nas soluções que são precisas.

Pontos Fracos
Fundamentalmente, a visceral incapacidade de assumir erros. Sócrates não mudou muito em dois anos. É um político completo. Goste-se ou não, concorde-se ou não, é dos poucos políticos com um discurso claro, assertivo e intrinsecamente convicto. É um orador como há poucos em Portugal. Contudo, tem uma tendência quase instintiva para afastar de si a possibilidade de ter errado e centrar tudo nos outros. Mesmo sendo verdade que não será culpado de tudo o que o acusam, o seu segundo mandato está ligado a uma subida vertiginosa da dívida pública e a crise internacional explica algumas coisas, mas não justifica tudo. Por outro lado, foi pouco convincente em relação às PPP. Mesmo só tendo criado oito das vinte e duas, fê-lo quando todos os indicadores o desaconselhavam e apontavam no sentido contrário: extinguir as que se considerassem não ser absolutamente indispensáveis. Ou seja, é um comunicador muito bom, excelente registo discursivo, mas não consegue disfarçar alguns números e alguns erros que poderia e deveria ter assumido.

Pontos Fortes
Sócrates voltou em boa forma. Foi corajoso na forma como enfrentou as questões mais difíceis. Foi claro na forma como arrasou a ação do Presidente da República. Foi contundente na forma como se anunciou de regresso ao mundo político. Fez uma ponte lógica entre o chumbo do PEC 4, o pedido de resgate financeiro à Troika e a voracidade política do PSD. Foi generoso na forma como tratou a atitude do seu partido em relação a si próprio. Foi muito inteligente, e até leal, ao falar criticamente de ação governativa sem nunca pessoalizar em nenhum ministro, nem mesmo no Primeiro. E foi inteligente ao defender o que a sua governação teve de mais interessante, como, por exemplo, a mudança do panorama nacional no que respeita a energias renováveis e investimento estrangeiro.

Saldo
Se convenceu? Em alguns aspetos, naqueles de pendor mais político, admito que sim. Sabemos que sim. Nas questões técnico-financeiras foi demasiado generalista para ter convencido. Foi demasiado fugidio numa fase em que os portugueses, e bem, querem ver rolar cabeças. Uma coisa é certa, a cena política portuguesa ganhou mais um ator. Um comentador que aqueceu o ambiente político. Um homem gerador de polémicas e contradições. E mentiu. Disse que não voltaria à política ativa. Sócrates que me desculpe, mas o que eu vi ontem foi política do mais ativo que há… até já mexeu com meio mundo hoje. E o país a precisar de atenção em tantas outras coisas…

jpv 


2 comentários

Eutanásia? Não, Obrigado!

Normalmente, as discussões sobre a eutanásia são de índole médica, ética e moral. Até aqui tudo bem. Aceito, também, os argumentos de quem se diz a favor e de quem se diz contra esta prática. E não tenho qualquer problema em assumir a minha posição e debater o tema. Já o fiz publicamente. Pesada toda a argumentação, aduzindo ainda, no meu caso, questões de índole religiosa, decidi, há muito, posicionar-me contra a prática da eutanásia.

Quando o faço, costumo juntar um argumento de teor social que consiste em antecipar que a eutanásia pode ser usada como forma de gerir as “camas” dentro de um ambiente hospitalar sobrelotado numa fase de crise financeira. Normalmente sou rebatido de forma contundente. As pessoas acham que isso é uma improbabilidade porque os médicos isto e os médicos aquilo e os princípios e o juramento de um grego a que o paizinho chamou de Hipócrates.

Infelizmente, deparei-me hoje com uma notícia que me dá total e absoluta razão. Basta clicarem aqui para perceberem do que falo. Esta senhora, caso se confirmem as acusações, nem precisou de refugiar-se na eutanásia. Imaginem que a prática estava legalizada?! Em vez d estar no banco dos réus, tinha praticado atos que não só não configuravam crime, como seriam legais!

jpv


1 Comentário

Perplexidades e Contradições

“O mesmo povo que votou em António Oliveira Salazar para melhor português de sempre, fez uma petição para que José Sócrates não falasse na televisão.”

jpv


2 comentários

Brevemente "Histórias a Preto e Branco"

Brevemente, MPMI inicia a publicação de “Histórias a Preto e Branco” com o conto “Mulheres de Nampula”.

São ficções de nossa autoria com raízes nesta terra de contrastes multiculturais que agora nos acolhe. E por ficção entendemos o que sempre entendemos: a realidade pintada com palavras!

Não perca!
Aqui, no blogue das suas leituras.

———— jpv ————-


2 comentários

Crónicas de África – Another Day in Paradise


Crónicas de África – Another Day in Paradise

Nelspruit, 21 de março de 2013

São 20h. Estamos confortavelmente recostados na acolhedora cama da nossa casinha de madeira na rocha. Descansamos de um dia bem passado.

As últimas semanas foram intensas e, por isso, resolvemos visitar de novo os nossos amigos Debbie e Norman do High Hide Lodge. Aqui, consegue-se ouvir o silêncio à noite e, durante dia, o som mais agressivo que existe é o cantar da passarada.

Chegámos na terça-feira à noite e, assim que os cumprimentámos, fizeram-nos um convite com o entusiasmo estampado na face:
– Quinta feira é feriado cá, nós vamos à pesca e queríamos que viessem connosco.
– O vosso convite é muito simpático, mas temo que tenhamos um problema. Nós nunca pescámos nada na vida.
– Mas desta vez pescam. É garantido.

E pronto. Aceitámos a generosidade deles. Fomos na carrinha do Norman. Saímos às 8:30 de Nelspruit e às 9:30 já estávamos nos arredores de Sabie, numa pequena quinta chamada Horse Shoe. Tem um lago central e à volta dele vários pontos de descanso com cadeiras, mesas, grelhador, lenha e todos os utensílios necessários a uma boa grelhada. Podemos levar canas de pesca ou alugar lá. É tudo muito barato. Uma cana de pesca, já com isco, custa o equivalente a 3€/dia. O lago está repleto de trutas salmonadas criadas em cativeiro em represas feitas num rio que atravessa a propriedade. O difícil é não pescar. Sempre que se atira a linha para a água, não se espera cinco minutos para o peixe morder o isco. Depois, é uma questão de jeito, mas toda a gente pesca.

No fim da pescaria, leva-se o balde com o peixe a um balcão onde é limpo, amanhado e pesado e paga-se ao peso. O preço ronda os 7,5€/kg. Apanhámos nove trutas e pagámos cerca de 25€. Grelhámos umas quantas na brasa e as outras foram de imediato embaladas em vácuo para podermos levar para casa.

Fizemos um lume forte, grelhámos ananás e o peixe bem como alguma carne para o Norman que não vai muito à bola com peixe. À volta, uma paisagem verdejante, um sol doirado e pouco agressivo e uma brisa simpática ajudaram a construir um ambiente cordial e tranquilo.

Quando regressámos, sentimos aquele cansaço bom do descanso, de um dia passado entre amigos, pescando e comendo o peixe fresco, acabado de apanhar. Definitivamente, outro dia no Paraíso com os Smith.

Em baixo, algumas fotos a testemunhar um dia bem passado.

—————————-

Nelspruit, the 21st March 2013

(This text is not a translation of the above)


For the holyday of the 21st March, our friends, Norman and Debbie Smith, invited us for a fishing day near Sabie. I got suspicious for I have never fished anything in my life. Debbie kept saying it was guaranteed I would fish and she was right. We all end up fishing some very nice, fresh, tasty trouts.

Then, we’ve made a very nice braai and brought home, in vacuum, the fish we didn’t eat there. We had a wonderful day, telling stories, chatting with each other and, of course, fishing and eating the fish we had just caught. The Horse Shoe Farm is a very agreable place to spend a day with friends. The landscape is fantastic and they and they have all the conditions for a guaranteed successful fishing day. Another day in Paradise with the Smiths!


—————————-

A Debbie mostra como se faz!

Sorte de principiante ou um talento escondido?

Cá para fora!

Agradável.

Trabalho de equipa ou o professor e a aluna?


1 Comentário

Citação da Estratégia

” O J tenta copiar de colegas que estão a fazer testes diferentes!”
R.B.
————————————-
 É o que eu chamo de estratégia!
Assim o professor não desconfia…
Claro que ele também não copia nada de jeito, mas se decidiu copiar de um tipo que estava a fazer um teste diferente, algo me diz que não lhe ia valer de muito… 🙂


4 comentários

Diálogo

Diálogo

Um fio de vida.
Uma luz,
Breve,
Antes da morte.
Uma alma perdida,
Entregue, só,
À sua funesta sorte.

Uma carta fechada.
Uma surpresa guardada
Nas entrelinhas
De uma palavra em riste.
Duas pessoas sozinhas
Uma da outra.
Uma manhã alegre.
Um fim triste.

Uma distância
A percorrer
Por um caminho
Que já não existe.
Um mar a navegar
Em rota
Sem horizonte.
Um rio.
Duas margens.
E a dolorosa
Ausência de uma ponte!

Assim caminho,
Sem arte
Nem ciência,
Conversando sozinho
Na companhia
Desta pobre e atormentada
Consciência!

Adio.
Mais não posso.
Nem quero.
Não há aqui motivo,
Nem fogo,
Nem ferro,
Nem esperança,
Nem música,
Nem dança,
Nem emoção,
Nem o vislumbre de uma razão
Para algo mais do que aguardar.
Aguardo.

Essa derradeira
E definitiva estocada,
A lâmina ensanguentada
Da minha vida,
O grito da alma perdida,
O silêncio final,
E a morte, enfim,
Redentora
E inaugural!

jpv