Crónicas de África – Assim Também Eu!
Maputo, 7 de dezembro de 2012
Há pormenores do quotidiano que são tão subtis, tão singelos, que não mereceriam uma crónica, contudo, são eles que marcam a diferença, que nos dão a exata medida do que é viver em Moçambique, mais especificamente em Maputo.
Trata-se de um delicioso pormenor de mensurabilidade. A realidade africana é diferente da europeia pelo que a forma como se medem as distâncias, o tempo e os produtos é, forçosamente, diferente.
Há muitíssimos carros do mesmo modelo que o nosso, em Maputo. Ora, eu desconfio, há algum tempo, desde que o comprei, que ele anda a consumir muito. Não sabia se seria um problema no carro ou o simples e mais provável facto de se tratar de um quatro por quatro a gasolina e a fazer percurso urbano.
Hoje, finalmente, apanhei a jeito um homem que estava parado dentro do seu carro que era exatamente do mesmo modelo que o meu. É importante que saibam os leitores que o senhor estava à porta da minha escola, mas eu não o conheço de lado nenhum. E tivemos a conversa que agora reproduzo que, para o bem e para o mal, não é fictícia, está rigorosamente como aconteceu.
– Bom dia!
– Bom dia!
– Desculpe incmodá-lo, mas tenho há pouco tempo um carro deste modelo e queria fazer uma comparação. Posso fazer-lhe uma pergunta?
– Claro, diga.
– Este carro consome-lhe quanto?
– Pouco. Gasta 2000 meticais por semana.
– Pois, obrigado, mas eu queria saber é a que é que isso equivale…
– Ah, é fácil, é de casa aqui e daqui a casa duas vezes por dia!
Aí, eu fiquei sem argumentos. A informação era tão certeira e compacta, o senhor estava tão seguro da informação, que era difícil dizer-lhe que, não obstante a sua boa vontade, ainda não me tinha dito nada… mas não desisti:
– E daqui a sua casa é longe?
– O senhor mora onde?
– Moro na cidade!
– Aí tem, também eu!
Apeteceu-me dizer-lhe que a cidade tinha várias dezenas de quilómetros de área, mas ele perguntou:
– Mas isso gasta-lhe quanto?
– Bem, de facto, anda a gastar-me 2000 meticais por semana…
– Está a ver, está a ver, está tudo bem, não se preocupe. É um bocado, mas é de ser a gasolina!
E pronto. Fiquei-me. Normalmente, o consumo mede-se em litros por quilómetros. Desta vez, encontrei alguém que o media em meticais por semana! Nunca tinha visto, mas há uma primeira vez para tudo. Fez-me lembrar a anedota do português que dizia, Tanto se me dá que aumentem a gasolina como não, eu meto sempre cinco contos! Sorri e fui à vida. A africana.
jpv
Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me!
Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras...
jpvideira
https://mailsparaaminhairma.wordpress.com
09/12/2012 às 19:58
Não, nem por isso. Feitas as contas, gasta entre 8 e 10 aos 100. Tendo em conta que é circuito urbano e um 4×4 a gasolina, é capaz de não ser muito. 800 dias pode ser muitoe pode ser pouco. Depende da perspetiva. 🙂
GostarGostar
09/12/2012 às 18:52
Afinal, anda a gastar muito, ou não?Estamos a falar de quantos litros aos cem?Estamos a falar de que distância?Não é que seja importante, mas para o efeito, o da crónica, tem muita importância, sim…
Abraço amigo, com a informação de que ainda faltam mais de 800 dias….caso Deus não ecreva direito…porque linhas tortas já as estamos a percorrer…..
GostarGostar
08/12/2012 às 22:09
Olá amiga Teresa, 60 meticais não chega a 2 euros… quem cá dera! Andas com a matemática e as medições às avessas!!! Beijinho e obrigado pela visita. Volta sempre. jpv
GostarGostar
08/12/2012 às 21:09
E eu que durante muitos anos metia sempre 2 contos de réis e quando passámos aos euros, 10 euros o equivalente e como gosto muito do dois agora são 20euros. Como vou duas vezes por semana a Lisboa, quase todos os dias vou à bomba. Também não sei quanto gasta, só sei que anda à volta de 60 meticais por semana
GostarGostar
08/12/2012 às 18:12
Cara Helena, seja pragmatismo, desenrascanso, autonomia, viver o momento, a verdade é que África não é mesmo um local de dramamtismos. Vive-se e pronto. Morre-se e pronto. E sabe que mais? Talvez andem os africanos mais próximos dA Grande Verdade. Grato pelo seu comentário. Uma saudação amiga, jpv
GostarGostar
08/12/2012 às 16:26
Muito interessante, esta maneira de medir as coisas por meios diferentes. Cada cultura tem as suas escalas e é sempre interessante descobri-las. O que leio além disso é uma certa ligeireza na maneira de enfrentar certas questões. Longe de ser um problema, neste caso como em muitos outros, supõem-se que possa tornar a vida mais leve e ajudar a encarar certos problemas de maneira muito menos dramática.
GostarGostar