Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


10 comentários

O Clã do Comboio – Riso Matinal

Riso Matinal

Entraram no comboio a conversar. Não prestei atenção, mas julgo que falavam de trabalho. A colega tinha um ar simpático e doce. Olhos de amêndoa a destacaram-se da blusa branca e das calças de ganga. Mas foi ela que me chamou a atenção. Há muito tempo que não via uma pessoa tão confortável consigo mesma. Não havia lugares sentados e por isso seguiram de pé até ao Oriente. Olhei-as de relance. Colhi alguns pormenores, não fosse precisar deles para escrevê-las. Ainda bem que o fiz. Viria a desenhá-las nestas linhas.

Ela trazia uma sandálias de cabedal, pretas. Umas calças muito justas, acetinadas, também pretas, por baixo de um vestido a dar-lhe um pouco abaixo do joelho, ainda preto, com uma renda nas costas, junto à nuca. É engraçado o facto de estar vestida num tom tão soturno e, contudo, ter constituído uma aragem de leveza e boa disposição pelo comboio dentro como quem o desinfeta do cinzento matinal e sonolento que todos os dias se arrasta no Regional das 7:47. Tinha duas estrelas tatuadas atrás da orelha onde figuravam brincos artesanais e uma terceira estrela, um pouco maior, num cotovelo. O do mesmo braço cujo pulso tinha um nome masculino tatuado na sua singeleza feminina.  Era, sem margem para dúvida nem necessidade de segundo olhar, uma presença alternativa em termos de opções estéticas.

O mais interessante, contudo, aconteceu ao longo da conversa que estava a ter com a colega do olhar doce. Explodiam na carruagem gargalhadas cristalinas a cortar o silêncio e a encher o espaço de uma sonoridade descomplexada e divertida. Era um riso com uma musicalidade alegre, a despertar-nos a todos para a manhã e a libertar-nos das crises e dos ronaldos e das barras da noite anterior. Para algumas pessoas, reparei pelos olhares, aquela risada a cortar a monotonia cinzenta da carruagem era excessiva e incómoda. Para mim não. Era genuína. Era mais do que momentânea. Percebia-se que fazia parte do seu caráter. Eu gosto destas pessoas que destoam, que nos desinquietam a alma e nos acordam o espírito. Gostei sobretudo da harmonia entre elas. A explosão e a serenidade. O vigor e a doçura. Não faz mal nenhum fazer uma viagem comum e igual às outras todas. Mas sabe muito melhor quando se encontra uma alma livre e confortável consigo mesma, ajustada e adaptada à sua existência e à sua personalidade, resolvida e capaz de rir à gargalhada perante a monotonia previsível da vida.

jpv


2 comentários

Crónicas de Maledicência – O Patrocinador de Platini

Crónicas de Maledicência – O Patrocinador de Platini

Eu sei porque é que Portugal não foi à final do Euro 2012. Sei, até, porque é que nunca iria! Não vou ser macio. Não me apetece e o alvo destas linhas, Michel Platini, não merece maciezas. Platini foi tão bom jogador quanto é, hoje em dia, um mau gestor da UEFA. Mau e tendencioso.

É grave, a meu ver, que o presidente da instituição que promove um torneio de futebol com 16 equipas diga quais as duas que gostava que chegassem à final. A ele, mais do que a qualquer outro, se exige imparcialidade e isenção. Já nem falo do facto de Platini ser francês e a França ser uma das competidoras à altura das declarações. Isso é um problema dele com os franceses. A mim, o que me interessa é até que ponto é que Platini se limitou a desejar que a final do torneio fosse entre a Espanha e a Alemanha e até que ponto é que fez alguma coisa para que isso acontecesse. E digo isto porque, se a Alemanha superar hoje a Itália, a final será aquela que o Presidente da UEFA desejou. Ora, sendo o senhor francês, porque é que o seu desejo vai nesta direção? Como predição não deve ter sido porque se trata de uma predição óbvia. Juntamente com o eliminado Portugal, na lotaria dos penaltis, a Alemanha e a Espanha são as melhores seleções do torneio.

E como é que eu chego a estes transviados pensamentos à laia de teoria da conspiração? Simples. De que vive o Futebol? De dinheiro. Não é de certo o dinheiro dos bilhetes que não dá nem para a água da rega dos relvados. Vive do dinheiro dos patrocinadores. Ora, é engraçado que a UEFA tenha um patrocinador, a ADIDAS, que, simultaneamente, patrocina veste e calça… a Alemanha e a Espanha! Se repararmos, das seleções que chegaram aos quartos de final, só a Alemanha, a Espanha e a Grécia são patrocinados pela Adidas. Portugal é pela Nike, tal como a França, a República Checa é pela Puma, tal como a Itália e a Inglaterra é pela Umbro. E, neste momento, pode muito bem acontecer que o patrocinador de Platini esteja completamente representado na final… incluindo, imagine-se… a equipa de arbitragem!

Eu acho eticamente condenável que o organizador do evento tenha patrocinadores similares aos de alguns competidores. Deveria haver um regime de exclusividade, mas acho, sobretudo, que ao presidente da UEFA se exige a isenção que não teve! Escrevo isto na madrugada do dia em que a Alemanha defronta a Itália. Se os alemães vencerem e a final for toda Adidas… alguém devia arranjar um parzinho de patins ao Michel. Mas isso nunca acontecerá e a razão chama-se impunidade!

Tenho dito
jpv


Deixe um comentário

Rescaldo

Pooortuuugaaal!

Miúdos, estivemos bem. Eles não conseguiram jogar o futebol deles. Nós toureámos os tipos com pinta. Só faltou a estocada final!

Temos todos de estar orgulhosos destes jovens que dignificaram Portugal. 
Perder com a seleção campeã da Europa e do Mundo nos penaltis, dói, mas não desonra!

E não me venham com táticas depois do jogo nem com ses, nem com choradinhos nem lamúrias. Os miúdos portaram-se bem e, como perderam, também podiam ter ganho.

Força Miúdos!
Força Portugal! 

(Em cada jogo de Portugal, Mails para a minha Irmã vai revelar uma virtude da Nação!)

Já Está!
Daqui a dois anos há mais!
—————————————————-