Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Paisagem Fraterna

Paisagem Fraterna

A perfeição
Do teu olhar
Estava naquilo que vias.
O brilho
Da paisagem
Morava no que sentias.
E eras criança
Na forma como cruzavas as mãos.
E tinhas esperança
Na verdade de sermos irmãos.
E tinhas uma paisagem
Entrecortada de luz
E escuridão.
Uma suave miragem
Semeada, fundo,
No teu coração.
Não te salvei.
Trouxe-te
E perdi-te.

E ainda hoje damos
As mãos no vazio
E as preenchemos
Uma com a outra.
À procura do calor
E do arrepio
Da palavra sã
E da saudade louca.

Relembro-te inocente.
Inocente te vejo.
A tua mão fechada na minha
A carícia fraterna de um beijo.

Tremi por ti.
Por ti temi.
Mas foi a tua existência pequenina
Que me não deixou perder
De mim.
Fui teu guia.
Teu Universo
Circunscrito
E seguro.
Foste meu farol,
Minha razão.
Só soube que existia
Quando senti na minha
A tua mão.

jpv


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Carícia Certa e Valerosa

Carícia Certa e Valerosa

É precisamente
Por ser o dia da criança
Que recordo emocionado
Essa breve e suave dança
Das brincadeiras
E das obrigações.
Era a liberdade.
A maior de todas.
A da inconsciência.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
Sem lógica nem tratado.
E não dava explicações.
E as que dava,
Estavam claramente
Estabelecidas.
Entre brincadeiras e corridas
Chegava ao ninho para lanchar,
À escola para estudar e…
Brincar!
E isso não era crime.
Era natural
E aceitável
Que uma criança
Brincasse,
E dormisse,
E estudasse,
E obedecesse,
E risse
E corresse.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
E tinham comigo
A paciência
Dos joelhos esfolados,
Dos calções rasgados,
Da face ruborizada
Escorrendo suor,
E a vida
Era a coisa maior.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
E tinha em mim a urgência
De conquistar o Universo,
Galgar planícies e montanhas,
Voar os céus,
Arrebatar donzelas com véus
E lantejoulas,
Cruzar campos floridos
De papoulas,
Erguer uma espada,
Romper a alvorada
Em meu cavalo alazão,
Imaginário
E invencível.

Esse, fui eu
Até trinta e um de maio.
E depois morri.
E em um de junho
Renasci.
E era já outro.
O homenzinho.
O rapazinho.
O rapaz.
O moçoilo.
O homem.
O homem.
O homem.
O menos livre
De todos quantos fui.
Aquele que sabe que não se vive,
Apenas o tempo flui.
E as regras.
E as razões.
E os protocolos.
E as convenções.
E as assinaturas.
E as notícias suaves
E as mais duras,
Mesmo as graves.
E a palavra que se deu.
E a recebida.
E a palavra que se recebeu.
E a perdida.
E os valores.
E as escalas de valores.
E essa incontornável
E singular verdade
Que, afinal,
Tinha plural.
E os princípios
Assassinados pelos fins.
Os homens sérios
E os que dobram.
E os que cobram.
E os afins.
E os desonestos.
E os lentos.
E os lestos.
E os que conheci.
E os que não quis conhecer.

Depois de ter sido
Criança,
A única carícia certa
E valerosa
É saber
Que vou morrer.

jpv


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Aniversário






Bom dia, Carlos Eduardo, e um feliz e fantástico aniversário!