Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Voz

Voz

Como mel,
Deixas fluir as palavras
Envoltas em doçura
E suave rouquidão.
É baixo, o teu tom,
E grave,
Mas desliza com encanto
E sedução.

jpv


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Citação da Sui Generis Traição

“Saio. Saio, Carlos… saio de dentro dos livros para trair-te com o teu próprio corpo.”









Joaninha in
Erotika – O Corpo da Ideia
A publicar brevemente
Por João Paulo Videira


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Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Caros leitores, ontem um simpático anónimo fez um comentário a uma história antiga aqui publicada. Coloquei-a no blogue em 24 de outubro de 2011. O engraçado é que, ao contrário de tudo o que escrevo, não me lembrava de a ter escrito. Não me lembrava de rigorosamente nada relacionado com a criação daquela história. Foi necessário um significativo esforço de memória para recuperar esses momentos. E sabem que mais, modéstia à parte, acho que a história, sendo singela é, como diz o leitor anónimo, muito bonita. Tem um ritmo e uma musicalidade interessantes. Nunca, neste blogue fiz uma republicação. Esta será a primeira. Mas, antes disso, aqui ficam as palavras do leitor: “Que linda história! É pena que já não se veja no seu blogue, pena que não exista um índice para poder encontrá-la mais tarde. Merece bem uma nova publicação!!!”

 

Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Foi na primavera dos teus braços, enquanto a luz da vida despontava, que encontrei esse bosque de carícias e afagos a retemperar uma alma perdida e ansiosa e capaz de amar. E foi no florir sumptuoso de cores e emoções que bebi a tua água por entre sussurros e palpitações. E os passarinhos cantavam nesta história e ao fundo, num simulacro de efeitos especiais, Julie Andrews cantava a música do meu coração. E houve vivas e saudações, sombras frondosas e naturezas presentes, e houve todo o pólen, toda a magia na fábula da cigarra enquanto a formiga dormia. Adensou-se o bosque. Cresceram as árvores guindando-se aos céus e perderam-se os limites, os teus e os meus. Um lago imenso, calmo e tranquilo, reflete a luz e o caminho. Um trilho de terra com pequeninos malmequeres que não atravesso sozinho. Há um casalinho de mão dada. Ele de calções. Ela de saia rodada. E sem saber-se porquê, magia de certo, passa um duende por perto que sorri e pula. Não há sobressaltos. Só dois corações pulsando, as borboletas o ar cruzando, uma leve brisa deixando as ervas altas e as flores em breve dança. E a luz. Sim, essa diáfana luz forçando a densidade do bosque e banhando de claridade a penumbra onde o amor se fez verdade. E lei. A única lei. Sem papel nem escrita. Só a sua explanação, o seu viver num bater de coração, numa mão entregue, numa cena bonita. E há uma árvore alta e idosa a caminhar para os céus que tem na base uma loca onde vive a cigarra e os seus. Sentiu passos e veio ver o amor. E quando lhe perguntaram, as crianças, aconchegadas no lar acolhedor, o que passava, ela respondeu, quase desinteressada, como que não importunando, É a Primavera do amor. E chegaram, sem desdar as mãos, a uma clareira toda rodeada de canas. Era circular o espaço e tinha uma abertura em arco na vegetação, um convite que aceitaram sempre mão na mão.
 
Era o Verão. A amplitude do espaço e do tempo, searas dançando, aromas quentes no ar. Abriram os braços e afagaram a flor do trigo. Árvores pontuais a prover a sombra necessária para o coração descansar do ritmo quente e louco da paixão. E correram. E libertaram-se. E foram dando vivas às aves, à terra firme e ao céu azul e limpo. E via-se longe. E o mundo parecia não ter fim. Viviam um amor assim. Uma loucura consentida, uma centralidade perdida. Uma trepidação constante. E despiram-se. E fizeram amor. E sexo também. E viveram os dias como se não houvesse ninguém. E suaram o suor da descoberta na tarde caindo, a luz certa. Ao longe, uma ovelha branca balindo. E eles sorrindo. Amando sob o calor do Verão, dos corpos desnudados em paixão. E, pela primeira vez, entre eles, a semente de tudo, o princípio de todas as coisas: a palavra. A que cria e germina, a que alimenta e saceia, a que começa e termina, a que perde e norteia, a palavra que dá a vida e a morte, a mesma palavra que faz dos homens seres. A sorte. A palavra primeira que disseram foi Despertar, depois Encontro, depois Amar, depois disseram as palavras todas e uma vez gastas estas, reinventaram-nas. E disseram-nas todas outra vez. Assim como quem faz só porque fez. E gostou. E tudo se amou dentro dos limites seus. Só não disseram Adeus. Essa palavra doce e suave que queima. Guardaram-na para o Outono mesmo sem saber o que seria e quando viria se viesse. Quem olhasse a seara ao nível da altura do trigo, veria uma imensidão doirada banhada de sol sob o céu azul e deles, nem notícia, Mas a cigarra tem experiência e perícia e anunciou à filharada um passeio, um voo rasante sobre a seara doirada. E partiram de asa aberta e alma livre e repararam ali, a meio de lugar nenhum, sob o céu, sobre a terra, uma rodela de trigo que faltava como se estivesse pisado e amachucado por um transeunte descuidado. E estava! E eram dois os safados que rolaram em amores amados e deixaram circular marca na vegetação. A cigarra viu e entoou a canção do amor ali mesmo, sob o céu amplo e ao calor. E repetiram os filhos aquilo que ouviram e tendo cantado, logo partiram. E ao partir sentiu-se pequena aragem. E fria. Dona cigarra fez uma paragem, estendeu o dedo no ar e anunciou, Estão mudados os ventos, vêm aí novos tempos, vai mudar a sorte, sinto no horizonte um prenúncio de morte…
 
Rederam as mãos que tinham desdado para tatear os corpos, levantaram-se e correram a fugir da nuvem escura, da bátega de água certa, e enquanto a luz dura, caminham alerta em busca do bosque. Lá estava a abertura em arco nas canas e depois dela a clareira. Tudo igual e tudo diferente. Fosse ação natural ou de gente, algo havia mudado. Tudo.
 
As árvores choravam humidade e seus ramos despediam-se das folhas, os animais faziam escolhas de abrigos, a evitar os maiores perigos. Um tapete folhado e colorido cobria o chão de amarelos, laranjas e castanhos, e chegam ao bosque acolhedor habitantes que no Verão lhe são estranhos. Eles entraram e beberam. Olharam o lago e contemplaram o reflexo e estranharam não se terem visto na imagem refletida. Assim, com um misto de tranquilidade e tristeza, perceberam que já lá não estavam. Faltava só a partida. A despedida. E com o brilho e a lágrima no olhar, decidiram caminhar lado a lado, pelo frondoso bosque, agora inundado de silêncio. E num ponto do caminho, a estrada dividiu-se. Aí chegaram como se nunca lá tivessem estado. Ela imóvel. Ele parado. E duas coisas aconteceram, duas tragédias numa só. Juntamente com as plantas que feneceram, um gesto e uma palavra reduziram o amor a pó. Desderam as mãos em passos tranquilos. Foi o gesto. Ergueram os braços seus e pronunciaram em coro uníssono: Adeus!
 
Impassível ficou o bosque. Seguiram e levaram a memória do toque, do odor, das palavras, do olhar, do amor e das promessas e continuaram lado a lado, sem pressas, afastando-se um do outro. Não se sabe nesta história onde leva cada estrada. Sabe-se que uma conduz a tudo e outra ruma a nada. Só falta saber o mais sério que é se vão cruzar-se. Mas isso permanece mistério. Sendo certo que saberão amar-se na presença e na ausência. Agora e aqui, estão separando-se unidos. Vencedores e vencidos. Do corpo. E do coração.
 
A cigarra jaz morta de frio. Não lhe aprouve o canto no Verão. A formiga, que trabalhou no Estio, dorme quente no colchão. E acorda. Serena. E olha em volta e encontra-se. Estava perdida no sono e agora desperta para a vida sem saber que quem acorda no Outono, ainda que quente e aconchegado, sem ter visto o amor empolgado dos amantes na seara quente e no tempo absorto, não esteve dormindo, esteve morto. Ah formiga que vives com o corpo da cigarra tombado e inerte a poucos metros daí, se pudessem agora ver-te, os amantes teriam pena de ti. Tem mais vida esse cadáver vencido que sentiu a pujança do amor do que o teu corpo aquecido e gasto pelo suor cego do labor. Nunca saberás o voo sobre a seara, o sol amanhecendo paixão, nunca correste o risco que se exige ao mortal para que se liberte da eterna prisão. Vives adiada e ela morre saciada e há mais vida na sua morte do que na tua pobre e estéril sorte.
 
Nunca contarás aos teus filhos, como ela fazia, a fábula da cigarra enquanto a formiga dormia.
 
jpv


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Citação da Ideia e do Corpo




“Tu foste uma ideia em muitos corpos.”









Carlos in
Erotika – O Corpo da Ideia
A publicar brevemente
Por João Paulo Videira


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Curtas do Metro – As Razões do Gato Preto

As Razões do Gato Preto

Manhã normal. Comboio normal. Metro normal. Gente normal. Movimento normal. Gato estranho.

O que vou contar-vos hoje é só um apontamento e já aconteceu há três semanas. Durante todo este tempo pensei sempre que era demasiado insignificante para ser contado. Por outro lado, o que o gato fazia, sem uma razão que o justificasse, era absurdo, quase surreal. E, por isso, guardei o apontamento no caderno e chamei-lhe “Gato”, mas não publiquei. Ontem, contudo, ao passar onde o gato andava, vi algo que me fez luz, a tal razão que rouba o absurdo à situação. Não sei como é que as histórias ficam melhor. Se com absurdo, se sem ele. Eu gosto do absurdo e do surreal, sobretudo quando são reais! E sei que as justificações muitas vezes estragam tudo. Acontece que esta justificação é como o fechar de um ciclo. E por isso mesmo, porque o ciclo está fechado e luz se fez, aqui ficam os apontamentos. O do passado e o do presente. Os leitores, agora, hão de ligar os pontos e completar a imagem.

Há três semanas.
Saio do comboio. Apanho o Metro em Santa Apolónia. Mudo em Baixa/Chiado. Saio no Cais do Sodré. Percorro a plataforma. Subo as escadas. Passo no controlador. Quando estou no enorme átrio da estação, vejo ao fundo as escadas rolantes que dão para o exterior. Em relação ao ponto onde me encontro, estão em plano superior. Umas a subir, outras a descer. E é aqui que entra o gato. Vinha nas escadas rolantes que descem. Parei a observá-lo. Deitado, atravessado, ocupava um degrau inteiro. Pensei eu que aproveitava o baloiço das escadas. Quando chegou ao fim da voltinha, o gato preto pôs-se de pé, deu um saltinho para sair das escadas e ficou no chão. Deu meia volta por ali e subiu pelas escadas de cimento. Uma vez lá em cima, voltou a descer! E pronto. Há três semanas era esta a minha história. Um gato preto que usava as escadas rolantes como montanha russa. Pensei, É tão inverosímil que as pessoas vão pensar que se me esgotou o assunto de escrita e resolvi inventar. E foi por isso que não publiquei. Até ontem decidir o contrario.

Ontem.
Saio do trabalho. Apanho elétrico. Chego ao Cais do Sodré. Dirijo-me para a entrada. Desço as escadas rolantes. Chego cá abaixo ao local onde o gato preto dava uma voltinha antes de subir de novo. E que vejo eu? Um pequeno patamar com vista sobre o átrio da estação. Uma proteção de vidro, pela cintura, para impedir quedas. O vidro termina num corrimão inox e em cima dele… pombos!!!

Pois é, todas as coisas têm uma causa. Todos os seres têm uma razão. Esta, foi a razão do gato preto.

jpv


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Curtas Do Metro – Violência

Violência

Foi um dos episódios mais violentos a que assisti no Metro e envolve uma só pessoa. Final da tarde. Dia de chuva. Cais do Sodré. Descemos as escadas de cimento que dão acesso à plataforma. À minha frente segue um homem com mais de sessenta anos, fato e gravata, pasta numa mão, chapéu de chuva, dos compridos, na outra. Óculos na cara.

Ao descer, o chapéu de chuva bate num degrau, ressalta para as pernas dele, ele tropeça. Tem à sua frente seis degraus. O primeiro impacto com o chão é feito com os joelhos, três degraus mais abaixo. Não larga a pasta nem o chapéu. O segundo impacto é feito já na plataforma onde bate com estrondo e completamente desamparado com a cara. Neste momento arrepiei-me porque todo o peso do seu corpo ficou, por instantes, suportado pelo rosto! Os óculos resvalam para a testa. Uma daquelas pecinhas que apoiam no nariz esbarra numa ruga da testa e corta. Quando, após uns momentos, o senhor se levanta com a ajuda de alguns de nós, está tonto, não sabe onde está nem como aconteceu aquela queda. Tem os óculos cravados na testa. Tira-os por instinto e o sangue, que já jorrava por cima de uma vista, invade-lhe a cara. Chega apoio qualificado. Devo assinalar que os seguranças foram rapidíssimos a vir ajudar. Chamam uma ambulância e o senhor começa a voltar a si.

Um acidente violento e desnecessário a marcar um fim de tarde chuvoso. O dia seguinte amanheceu alegre e solarengo. Espero que para ele também. Espero que o acidente seja só a memória de um susto.

jpv


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Make Up Sex

Make Up Sex

Na ira absurda das palavras,
Nos gestos descontrolados da discórdia,
Nas acusações que cuspimos exaltadas,
Nas portas que batem,
Nos murros na mesa,
Reside a verdade
E a certeza
De uma exaltação,
De uma dádiva
E de uma louca paixão
Onde não cabe a indiferença.
E depois da tempestade
Cai, célere e excitada,
A sentença.
Tenho de amar-te.
Tens de ser minha.
E, sobre a discussão e a refrega
Cai o doce e diáfano véu
Da entrega.
E sobre uma coisa dura
Tomba outra coisa dura.
E desse louco desentendimento
Nasce um momento
E é esse que quero para mim.
Sim, sou teu.
Serás minha, sim.
Para sempre.
Entre combates
E pazes feitas,
Emerge uma vida
De almas eleitas
Para amar.
E não me digas
Que é tudo demasiado complexo.
Depois de irar-me contigo,
É muito melhor o sexo!

jpv


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Por causa dA Dívida – X


Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o 
Capítulo X de “Por causa dA Dívida” no Crazy 40 Blog.

Iremos continuar a história em breve nestas páginas com o Capítulo XI.

Boas leituras!


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Orgasmo

Orgasmo

Um fundo.
Um túnel.
Uma luz.
Uma mulher.
Uma esperança.
Um corpo que seduz.
Uma língua.
Uma boca.
Um odor.
Um homem.
Uma entrega.
Um corpo de amor.
Um bailado.
Um movimento.
Uma dança.
Um Sexo
Noutro sexo.
Um corpo que balança.
Uma vertigem.
Uma voracidade.
Um orgasmo.
Uma mulher.
Um homem.
Dois corpos em espasmo!

jpv


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A Vez de François Hollande

Ao que parece, pelas sondagens e pelo discurso de Sarkozy, François Hollande ganhou as eleições e é o novo Presidente da República Francesa. Para já, pouco a dizer. Há que esperar para ver o presidente em ação.

Em relação ao passado, Hollande começa por quebrar um ciclo de 17 anos da direita no poder em França. Logo, sabemos que são tempos de mudança.

Em relação ao futuro, interessará saber se o novo presidente conseguirá cumprir as promessas que fez ou se, também ele, será devorado pela máquina da especulação financeira que assola e ataca a Europa. Vai ser precisa muita coragem. A tal máquina, ainda os resultados eleitorais não estão confirmados,  já começou a funcionar com a agressividade que lhe é conhecida. A previsibilidade da vitória de François Hollande levou algumas agências de ratting a baixar a cotação da França.

Para quando uma empresa de ratting para as empresas de ratting?

Para quando a coragem da Europa em fazer o óbvio: não reconhecer a validade destas empresas e, claro, ter a sua própria agência e processar aquelas que usarem os nomes dos países sem autorização dos mesmos. É que, não sei se repararam, mas quando uma agência de ratting dá um suspiro, nós pagamos mais juros, sofremos com mais austeridade. Eu acho que há vida para além da finança e também acho que nem toda a finança pode assentar na especulação. Pois é, senhor Hollande, ainda nem começou e já tem a vida difícil! Boa sorte!
jpv