Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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o vivo e puro amor de que sou feito



Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma. 
Luís de Camões


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O Clã do Comboio – O Sorriso Enigmático

O Sorriso Enigmático

Era tarde, quase 20h. Estava junto ao comboio olhando o vazio, descansando de um dia intenso, à espera de entrar. Fora um daqueles dias de tarefas inúmeras e infindáveis. De emoções fortes e contraditórias. Saudade, tristeza, alegria, entusiasmo, solidão. Uma profunda e inexplicável solidão. Como tinha, nesse dia, uma reunião de tom um pouco mais formal, de manhã saí de casa com um fato cinzento, uma camisa azul-clara e uma gravata azul-escura. E foi com esse fato-macaco que venci as tarefas e naveguei as emoções. E quando parei junto à carruagem, antes de entrar, foi para olhar a estação sob uma outra perspetiva. A de terminar. A de partir. A de mudar.

E foi então que ele apareceu. Teria cerca de setenta anos, cabelo branco, pouco, um polo castanho de manga curta, calças de ganga e sacos do supermercado antigos e usados, cheios de não sei o quê, em ambas as mãos. E começou a olhar para mim. Olhei de volta e desolhei. Um curioso, pensei. Mas quando voltei a olhar para ele, ele continuava a olhar para mim insistentemente e a sorrir como quem tenta descobrir alguma coisa. E não parava de olhar para mim com aquele sorriso enigmático enfiado na cara. E foi por isso que fiz a pergunta que fiz e obtive como resposta uma outra pergunta e foi essa outra que me fez registar o episódio:

– Boa tarde. O senhor deseja alguma coisa?
– Você por acaso não é revisor?

E pronto. Um sorriso. Um, Não sou não senhor e a vontade secreta de nunca mais vestir aquele fato com aquela camisa. Não tenho nada contra os revisores, pelo contrário. Só não sou um!

jpv