Crónicas de Maledicência – O Lugar de Abril
Monthly Archives: Abril 2012
Portugal
Portugal
É um país de mar e de flores.
É uma terra semeada.
São colinas onde se cantam amores.
São quilómetros na ponta de uma enxada.
São festas e rituais
E é um folclore colorido.
São feiras e são estendais
E é um barco, no mar, perdido.
É gente dobrada ao sol
De coluna bem erguida.
São homens defendendo a prole
Na ponta da palavra proferida.
São poetas e são canções,
É a Amália e é um fado.
São ideais e revoluções
Imortalizados num trinado.
É uma ideia peregrina
Germinando na coragem e na vontade.
Nasceu e é menina,
O povo chama-lhe Liberdade.
São reis e tradições,
Mesas postas e bom vinho.
É o mar, em estrondo, aos repelões,
Fustigando um farol sozinho.
São miúdos a jogar à bola,
Uma conversa, uma anedota, uma graçola.
E é um sorriso numa criança,
E é um povo em crise de confiança.
São conquistas e aventuras memoráveis,
O mundo inteiro em histórias inolvidáveis.
São naus sulcando o oceano
Numa melodia de glória e pranto.
É um romance,
É um manifesto realista.
É a tecnologia de ponta
À sombra duma caravela quinhentista.
É um golo no último minuto,
Um lance cortado em cima da linha,
É uma bola nos pés de um puto,
Numa jogada que se adivinha…
E é uma estrada aberta,
Um caminho por percorrer.
É uma praia deserta
Onde as ondas vêm morrer.
Foram glórias
E são glórias.
Foram histórias
E são memórias.
É um mês, é Abril,
Uma revolução sem morte nem sangue.
São canhões e é um fuzil
Nas mãos de um povo cansado e exangue.
É uma gente triste e feliz,
Um paradoxo de morte e de vida.
É uma terra, é um país.
Foi uma promessa cumprida.
Tocam sinos, anunciam perigo.
Corre um rumor sinistro e fatal.
Acorda! Povo adormecido!
Hoje é preciso morrer por Portugal!
jpv
Curva
Curva
Essa curva que desenhas,
Adormecida,
Suspende-me,
Por momentos,
Da vida.
Abandonada
Ao trepidar impessoal,
Entregaste no colo do sono
Os teus sentidos.
E, assim, prostrada
E vencida,
Olhos fechados,
Cabeça caída,
Como se o Mundo não existisse,
Exibiste essa curva,
Essa deliciosa linha,
Inultrapassável fronteira
Entre a realidade
E a imaginação verdadeira.
São longas,
As tuas pernas,
Intermináveis
Rotas de prazer.
E despertam-me mais
Para a vida
No teu momento de adormecer.
jpv
Crónicas de Maledicência – O Poder dos Faits Divers
Crónicas de Maledicência – O Poder dos Faits Divers
Droga

Droga
O teu amor
É uma droga
Para as minhas palavras.
Um elixir,
Uma libertação,
Um café forte,
Uma infusão.
É uma musa libertadora
Que prende
A ideia confusa
E a converte em sedutora.
Um impulso,
Um excesso,
Um produto,
Um processo,
Uma vertigem criadora.
Não sou o que escrevo
Quando te amo.
És tu que conduzes
A minha mão.
Tomas para ti a função
Do meu ser.
Determinas
O meu escrever
E fazes de mim o homem que não sou.
Vou contigo,
Mesmo que não saiba para onde vou.
E quero.
E desejo
Inspirar estas palavras
Na dádiva do teu beijo.
jpv
Crónicas de Maledicência – Birra
Crónicas de Maledicência – Birra
Pequenos Milagres – A Mão de Amália

A Mão de Amália
O rapaz vai chamar-se Quim. E mais nomes não serão necessários para o nomear nesta história. Para que chame por ele quem tiver de o chamar, para que se lembre dele quem tiver de lembrar-se.
A rapariga vai chamar-se Amália. E de apelidos não precisará, também. Apresentar-se-á com esse nome e é com ele que se cruzará com Quim.
A cidade chamar-se-á Lisboa. Tem o mesmo nome da cidade que conhecemos e é capital do nosso país, mas já não existe esta cidade de que vos falarei. Será ela, o palco da vida onde o milagre vai dar-se.
É uma Lisboa de casario branco, escadinhado colina acima, ruas estreitas e sombrias e chão coberto de seixos do rio. É uma Lisboa de portas escancaradas e janelas abertas de par em par donde saem os ralhetes, as discussões e o trinado de uma guitarra antes de uma voz chorar um fado. É uma Lisboa de varinas e pregões ecoando na manhã. E tem ardinas vendendo esperança e notícias e é a Lisboa do tempo em que amarelo ainda não tinha sido pintado de encarnado e percorria as ruas com a sineta a avisar e a garotada pendurada na porta traseira arreliando o motorista da Carris. É a Lisboa dos banhos públicos, das fontes onde se vai à água de bilha na cabeça e dos lavadouros onde as mulheres acorrem a lavar a roupa e a perfumar o ar de sabão azul e lixívia. Corre água avonde e os miúdos chapinham com os pés descalços nas poças e nas regateiras por onde corre o líquido ensaboado. Há roupas de corpo e enormes lençóis brancos nas cordas das ruas e nas janelas. No largo do lavadouro, a garotada improvisa um jogo de bola, o mais importante jogo da época. É um Benfica-Sportengue. Duas pedras marcam uma baliza e outras duas delimitam uma segunda baliza, um pouco mais pequena porque o guarda-redes é mais pequeno e A gente joga com menos um. Quim quer ser o Ósébio. Mas tu não és preto! Ora, isso não é razão, aqui ninguém é preto. Mas se queres ser o Ósébio, tens de ficar mais preto. Quim baixa-se, raspa as mãos no empedrado da calçada e na terra, olha para elas, estão bem sujas, leva-as à cara, esfrega bem, esforça-se por ser o mais preto possível, já sonha com um golo à Ósébio, e pergunta, Está bom? Eh, ainda não estás bem preto, mas já serve, jogas pelo Benfas. E já todos sabem quem são as equipas. Só os sportinguistas comprovados podem jogar pelo Sportengue. Só os benfiquistas atestados podem jogar pelo Benfas e é por isso que cada um anuncia o seu nome de jogo. Eu sou o Hilário, Eu sou o Costa Pereira, aquilo é que é um quiper, tem cá umas mãozinhas, como estas, olha, olha! Eu sou o Carvalho, Eu sou o Zé Ógusto, Eu sou o Fernando Mendes, Eu sou o Torres! Tu? O Torres sou eu! Mas eu queria ser o Torres e disse primeiro. ‘Tá bem, mas eu sou mais alto. E continuam por aí adiante, brincando de viver, fazendo da brincadeira vida séria. As mulheres estão por ali, com um olho no burro e outro no cigano, ora lavam, ora vigiam a bola e, às tantas, gritam frases de incentivo, Vai Quinzinho, remata à baliza, faz um golo para a mamã ver. Ele aqui não é Quinzinho, é o Ósébio! E as mulheres desabam numa gargalhada e retomam o lavar de roupas e começam a cantar e de entre elas uma se destaca pelo timbre da voz, pelo milagre da harmonia, pela forma como as faz sorrir ou chorar consoante o que canta. Chama-se Amália. As outras começam a cantoria, mas, a pouco e pouco, vão-se calando e deixam o Senhor cantar pela boca de Amália. Ela reclama, Vá lá, acompanhem-me, vocês sabem esta. Elas sabem, mas preferem ouvi-la a ela. Só assim os seus corações se enchem, as suas almas se guindam aos céus. Ó Amália, canta aquela que eu gosto. E ela faz-lhe a vontade e toda a cidade parece calar-se, até mesmo os pardais de telhado, para que a sua voz atravesse as ruas e suba aos céus para donde veio. O Sportengue chegou ao intervalo a ganhar 5-4, é um clássico muda aos 5, acaba aos 10. Muda-se de campo, reajustam-se as pedras a marcar as balizas, o Benfas dá réplica na segunda parte. Há 9-9, a emoção está ao rubro, Torres faz uma finta exímia recorrendo a uma tabelinha com a parede caiada, uma mulher ralha com ele, Ah malvado que sujas a parede toda! Mas ele não quer saber, coloca o pé direito na bola de trapos e faz um passe de morte para o Ósébio que recebe no peito, cola na calçada, encara com Hilário, pergunta-lhe, Para que lado queres? E atira para o fundo das redes. É o júbilo, a loucura total. Findo o jogo, à medida que se aproxima do lavadouro, Ósébio vai voltando a ser Quim e Quim está entusiasmado e cansado, sua em bica. Quando aí chega, deixa-se invadir pelas vozes das mulheres conversando, pelo som das roupas mergulhando na água e fazendo chape na pedra e pelo perfume a limpeza e felicidade. Está uma garrafa na beira da pedra do lavadouro, distraído com a emoção do jogo e do ambiente, o miúdo de calções e pés descalços pega na garrafa e leva-a à boca. E é nesse momento que o mundo para. Que a sua vida muda para sempre porque não chegou a mudar. Uma voz cristalina corta o ar da manhã, suspende a vida toda porque traz um tom inequívoco de alarme: Quiiiim! O miúdo suspende por momentos o gesto numa breve hesitação, o suficiente para que Amália lhe segure a mão e lhe roube dela a garrafa, Cuidado menino, se bebes isso, matas o Eusébio!
Cansado, suado da refrega do jogo, ávido de matar a sede que o atormentava, Quim esteve quase a sorver dois generosos golos de líxivia. o bastante para o queimar todo por dentro, talvez mesmo para lhe roubar a vida ou, caso a sorte o protegesse desse destino, para o tornar dependente de medicamentos e cuidados durante todo o tempo que lhe restasse viver. A atenção e a mão célere de Amália salvaram-no desse caminho. Fez outro. Nunca saberá se foi melhor ou pior. Saberá, só, que naquele dia Lisboa continuou feliz. Um pequeno milagre do quotidiano mudou para sempre a sua vida e a vida daqueles que com ele se vieram a cruzar.
Amália cantou e encantou. Fez o milagre da comoção. Fez o milagre de levar as pessoas a sentirem-se tocadas pela voz do Senhor, envoltas em emoção e reconhecimento. Amália viajou, encheu plateias, escreveu e, sobretudo, cantou. Cantou e elevou a condição dos homens e das mulheres que a ouviram a seres abençoados. Amália não soube, nunca, contudo, que o verdadeiro milagre que operou na sua vida, acontecera naquela manhã junto ao lavadouro. No dia em que salvou a vida de uma criança que coisa mais preciosa no mundo não há.
jpv
Crónicas de Maledicência – Apresentação
Crónicas de Maledicência – Apresentação
Por causa dA Dívida – VIII
Iremos continuar a história em breve nestas páginas com o Capítulo IX.
Boas leituras!





