Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – Semana de Reis

Semana de Reis

O Aviso que Espoletou

Tinha algumas coisas para contar acerca do Clã do Comboio, mas ainda não o fizera por manifesta falta de tempo. Contudo, houve um clique. Algo espoletou a minha vontade de voltar a escrever sobre o Clã. Foi um anúncio. Um daqueles avisos em voz serena e sensual que indicam qual é a próxima estação. Entrei no Regional em Santa Apolónia. A próxima paragem seria, e foi, o Oriente. Daí até ao Entroncamento ou, no presente caso, como se verá, até Torres Novas, a viagem duraria, ainda, cerca de 1h40m. O comboio arrancou, andou uns metros, e ouviu-se o aviso em cristalina e sensual voz:
– Próxima paragem: Riachos/Torres Novas/Golegã.
Um senhor de idade avançada não se conteve:
– Eh pá, foi rápido. Vou passar a vir sempre neste.

Feicebuqueiras

A Senhora das Tripas à Moda do Porto é uma jovem que há uns meses fez uma ou duas viagens connosco. A empatia foi natural e imediata e ela prometeu voltar. Voltou na semana antes do Natal e, para alegria nossa, tem viajado com o Clã com alguma regularidade. Ela e a Senhora das Caralhotas, que tem um iPad, são muito feicebuqueiras. Como uma casou há pouco mais de seis meses e a outra há pouco menos de seis meses, é vê-las de iPad na mão a usufruírem das maravilhas da tecnologia e a mostrarem à malta um rosário de fotos com vestidos de noiva, penteados de noiva, ramos de noiva, convidados de noiva, noivos de noiva e damas de honor de noiva. A propósito de uma dessas damas, de honor chamada, o Rapaz do Fato Cinzento terá dito, Essa é boa… é mesmo muito boa! Devia ter estado calado porque a Senhora das Caralhotas apressou-se a rematar com frase já aqui citada, Isso era muito toucinho para o teu papo-seco! Em todo o caso, como aquilo dá para aumentar o tamanho das imagens com um simples passar de dedo, o Rapaz do Fato Cinzento, o Escritor e o RB têm andado entretidos a inspecionar a qualidade do corte dos vestidos. Só isso, mero interesse antropológico. Não falta nada no Clã, nem o Facebook a bordo para fazer um GOSTO DISTO!

Queijo do Rabaçal

Este queijo deu voltas. Primeiro foi o Escritor que, na sua magnânima generosidade, disse, O que fazia aqui falta era um queijinho do Rabaçal. Amanhã trago um. Depois, quando o comboio chegou a Santa Apolónia, lá foi ele com a Rapariga do Riso Fácil à procura do queijo do Rabaçal ao supermercado da estação. Não havia. Em vez disso trouxe uma bela duma tarte de noz. Ora, o VM, que é danado para a brincadeira, começou a agradecer o queijo todos os dias. Mas também não o trouxe! Trouxe o pão que, diga-se, era muito bom e a Senhora da Revista de Culinária, essa alma santa de paciência feita, trouxe o belo do queijo do Rabaçal. O VM, em tirada de fino recorte humorístico, virou-se para o Escritor e disse, É bom, este queijo do Rabaçal que tu trouxeste!
O certo é que todo o Clã se atirou a ele e foi por isso que sobrou pouco. Mas, mesmo esse pouco, tinha os dias contados. À tarde, no regresso, reencontrámo-nos e lá vinha a Senhora da Revista de Culinária. Perguntamos-lhe pelo queijo que apareceu logo ali e foi irmãmente repartido por todos os elementos do Clã. Do Clã e mais uma senhora desconhecida que se via gostava de queijo porque ia com água na boca. Oferecemos-lhe e ela aceitou. Simpaticamente.

Dia de Reis

A tradição ainda é o que era. Pelo menos, em alguns locais, para algumas pessoas. Foi um dia fantástico de várias maneiras. Em primeiro lugar porque o Clã estava particularmente composto, depois, porque se fez um pequeno-almoço comemorativo da data com tudo o que era preciso, a começar pela comunhão e pela alegria generalizada entre os elementos do Clã. Estava a Senhora da Provecta Idade, a Senhora das Caralhotas, a Senhora das Tripas à Moda do Porto, a Rapariga do Riso Fácil, o Escritor, o Filho do Escritor, a Rapariga com Brinco de Pérola, o Rapaz do Fato Cinzento, o VM, a Senhora da Revista de Culinária, o JJ, o RB, a Mulher do RB e um Tipo Careca a que Chamamos Álvaro. Começámos por degustar o bolo rainha que o Rapaz do Fato Cinzento trouxe acompanhado do espumante que o Escritor ofereceu. Avançámos para o café quentinho da Rapariga com Brinco de Pérola, para os folhados da Senhora das Tripas à Moda do Porto e para os enrolados de salsicha da Senhora das Caralhotas. É evidente que os enrolados de salsicha proporcionaram metáforas de ordem diversa, em particular, essa que o leitor está a pensar. E quando pensávamos que a merenda estava terminada, eis que a Senhora da Provecta Idade revela que tinha trazido um bolo-rei. Entre fazer-lhe as honras e deixar para a próxima, optámos por fazer-lhe as honras e lá fizemos o gostoso sacrifício de “empacotar” também o bolo-rei. Foi um interessante momento de convívio em que a comida foi só o pretexto para uns momentos bem passados e que terminou da forma mais significativa possível. Ao chegarmos ao Oriente, a Senhora das Tripas à Moda do Porto disse:
– Oriente? Já? Isto hoje foi rápido.
O curioso é que até foi um dia em que o Interregional das 7:18 até chegou particularmente tarde. É assim, o Clã, agora até já mantém acesa a chama da tradição. A bordo!

jpv


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Pequenos Milagres – Nyankosem

Nyankosem

Não estranhe o leitor que seja esta história passada em terras estrangeiras. Muito cristãs umas, mas pouco católicas, sem pejoração na expressão, e nada católicas, nem tão pouco cristãs, as outras. Vem isto a suceder por via de outro distintivo traço dos milagres que é acontecerem sem olharem a onde nem a quem. Crentes e descrentes, praticantes e apáticos, europeus, africanos ou de qualquer outra proveniência, brancos, amarelos e todas as outras tonalidades de pele, altos, baixos, sãos e enfermos, muito conhecidos estes por razões bíblicas, na Graça do Senhor ou fora dela. De facto, para que se seja alvo de um milagre, basta ser-se humano, nem vivo é preciso estar, atesta-o Lázaro e a sua ressurrecta bem-aventurança.

Dito isto, importa sabermos que estamos em Londres e à nossa volta ouve-se a música sussurrada de máquinas trabalhando, algumas apitam como as caixas registadoras dos supermercados. Mas aqui não se vendem mercearias. Vende-se saúde. É um quarto de um hospital com uma cama só onde está uma mulher derrotada pela doença, pelo sofrimento e pela falta de esperança. Tem os braços espetados de sondas e cateteres, o cabelo branco e despenteado, o olhar mortiço na direção da jovem médica que a veio visitar e está em pé, ao lado da paciente, olhando os documentos presos com uma mola à papeleta. É elegante. Cai-lhe bem, a bata. Realça-lhe as formas redondas, musculadas e firmes. E, deixemo-nos de rodeios, conversam. Pois contemos o que da conversa mais interessa contar.
– Então, como está?
– Para morrer!
– Para morrer?
– Nem um milagre me salva.
– Acredita em milagres?
– Se acreditasse não estava aqui! Nada disso existe, menina! Onde está quem faz os milagres? Porque não os faz quando são precisos? Onde estão os milagres?
– Os milagres vivem em nós e somos nós que os tecemos com coragem, com fé, com força de vontade. Todos nós temos milagres na alma. Por vezes, vivemos uma vida inteira, morremos, vamos a enterrar e nunca chegamos a acordá-los. Outras vezes, por necessidade extrema, por vontade férrea ou simples fé, despertamo-los e fazemo-los ou eles vêm ter connosco.
– É tão jovem. Fala assim porque ainda é muito jovem. Tem a pele lisa e a cabeça em bom estado. Nunca sofreu. Só por isso fala assim.
– Quer ouvir uma história? Um verdadeiro milagre?
– Eu cheguei a esta situação esquisita em que tenho pouco tempo e o tempo todo do mundo e é por isso que tenho tempo para ouvi-la. Assim a menina o tivesse para contá-la.
– Para si, arranjo-o.
A médica puxou uma cadeira, sentou-se confortavelmente ao lado da mulher doente que não acredita em milagres, dobrou uma folha para trás e ficou com uma outra, branca e lisa, à sua frente para poder ir rabiscando enquanto contava a história, assim como quem distrai o corpo todo para que o cérebro funcione melhor. E começou.

Era uma terra quente e árida, pobre de vegetação, mas prenhe de vida. Era uma terra onde o sol se mostrava enorme e redondo e tingia as tardes de laranja. As pessoas tinham a pele negra e macia e o seu quotidiano dividia-se entre o cuidar dos animais magros para lhes aproveitar o leite, a urina, o sangue e, ocasionalmente, a carne e a manutenção das três casas do lugarejo. As mulheres cozinhavam em enormes panelas de barro mal cozido e os homens fumavam e decidiam. Dormiam no chão em cima de peles e por baixo de telhados de ramos e folhagem atada. Os dias duravam eternidades doiradas e quentes, a espaços raros, copiosamente varridos por águas breves e devastadoras. As noites eram límpidas e brilhavam estrelas infinitas no firmamento que tinha o tamanho do universo todo e pouca ciência era precisa para saber-se isto. Pelos três casebres dividiam-se vinte e uma pessoas. Um casal mais velho, os seus três filhos, as sete mulheres deles e nove crianças filhas dos três homens e suas mulheres.

Nyankosem tem quatro anos e é feliz. Está magra, a menina. Toda a ossatura é visível, mas ela não sabe o que é estar gordo, nem tão pouco sonha o que é ter mais. Mais roupa, mais alimentos, mais conforto. Veio ao mundo neste mundo que conhece e é nele que passa os dias eternos e as noites estreladas brincando, explorando, conversando com os adultos, aprendendo a vida e as rotinas e as tarefas nela. Nos últimos tempos tem reparado que os adultos falam alto uns com os outros, ralham agressivos como se qualquer coisa nesta precária ordem de coisas estivesse para mudar. E estava. Nesses momentos corria para a latrina, um buraco no chão rodeado por quatro paredes erguidas com galhos e vegetação a cerca de cem metros das casas, tapava os ouvidos com as mãozitas magras e ficava à espera que as conversas voltassem ao sussurro normal das pessoas que falam umas com as outras entendendo-se, e só depois voltava para junto deles.

A tarde está quente como todas as tardes debaixo deste céu. A enorme bola de fogo começa a desaparecer de modo que já não é bem redonda, falta-lhe um bocadinho que a terra engoliu. Toda a família está reunida, a conversa começa em tom normal que vai crescendo e em pouco tempo estão de novo discutindo com violência. Nyankosem não suporta aqueles gritos e foge para a latrina. Senta-se a um canto e espera. Ali cheira mal, mas está protegida daquela altercação desenfreada. O tom da discussão parece aumentar, há mesmo gritos. Nyankosem fecha os olhos e tapa os ouvidos com as mãozitas aflitas. Aquilo durou algum tempo e, subitamente, parou. Parou e gravou na mente de Nyankosem algo que nunca mais esquecerá, um silêncio sepulcral e absoluto de que, por ironia, virá a ter medo para o resto da sua vida. Deixou-se ficar por longos momentos até que o silêncio se tornou insuportável. Era como se não conhecesse o espaço em que fora criada. Dirigiu-se às casas e foi então que viu o que nenhuma criança deveria ver. Apercebeu-se logo de que não tinha mundo, estava completamente só e perdida. À sua volta, a sua família jazia chacinada, cortada em pedaços, degolada. Havia um intenso cheiro a sangue. Nyankosem teve medo e chorou. Um choro lancinante. Nada nem ninguém a ouviu, julgou ela na altura. Hoje, não está certa disso. Sem saber o que fazer, deambulou por entre os corpos, de braços caídos e mãos abertas e quando deparou com uma panela de barro no chão daquelas onde se costumava cozinhar para todos, saltou lá para dentro, puxou a tampa, encolheu-se no escuro e esperou. Só um milagre a salvaria.

Mal anda a Humanidade quando precisa de milagres para salvar-se de si própria.

O sol percorreu lentamente a terra alaranjada durante três longos dias e retomou a caminhada ao quarto. Era fim de tarde. Nyankosem já quase não dá acordo de si. Não sabe se é dia, se é noite. Não sabe há quanto tempo ali está. Não chora porque não tem força. Ouve passadas pesadas e ritmadas ao longe. Não quer saber. A sua vida já não é sua. Os homens e as mulheres que chacinaram a sua família vieram visitar o local, tentar perceber se, por milagre, alguém escapara, se há ali algo que interesse levar. É uma mera visita de reconhecimento. Viram os corpos com pontas de paus, o cheiro nauseabundo não parece afetá-los, por curiosidade, um homem alto e atlético destapa a panela com a ponta de uma catana. Dá um salto para trás, assustado. Começa a chamar, os outros acorrem, ele pronuncia, Maldito verme, e ergue a catana, Nyankosem recebe o choque de luz e não consegue ver mas pressente o que vai acontecer. Não reage, não consegue. Quando o golpe é desferido, uma mulher alta e possante, com pinturas de guerreira, segura-lhe a mão e grita:
– Basta! Que coragem é a tua?
– Todos os vermes devem morrer!
– Olha para essa criança, parece-te um verme? É ameaçadora para ti? Achas que tem idade para ter aprendido os costumes deles? Daqui por anos tem dois braços para servir-nos.
– Não fazes sentido. Queres poupar uma criança, mas mataste-lhe toda a família onde havia mais crianças.
– Faço sentido, sim. Tu e eu não matamos por matar. Matamos por nova ordem. Uma ordem comandada por homens mas exigida por Deus. Achas mesmo que ela sobreviveu à chacina por nossa culpa ou vontade? Ou terá sido Deus que a poupou? E diz-me, cabeça de burro, se a poupou, porque o terá feito? Pensa! Pensa, homem! Esta criança é nossa. Não sei como, mas está aqui para servir-nos.
– Se não a matares, marca-a para quando te arrependeres, te lembrares que a devias ter liquidado.
Assim fez. Tirou da cintura uma tira de pele que usava para estrangulamentos e para prender à cinta pequenos animais capturados e enrolou-a à volta do braço da criança, um pouco acima do pulso. Fê-lo com força suficiente para cortar a carne até que Nyankosem começou a sangrar. A pobre nem chorou. Não conseguia sentir para tanto. Depois, atou as pontas e deixou-a ficar. Agarrou na criança ao colo e levou-a para a sua aldeia onde lhe cobriu a ferida com ervas, lhe deu de comer e beber, a lavou e a deitou. Nyankosem esteve trinta e dois dias sem se mexer nem dizer palavra. Ao trigésimo terceiro dia, quando lhe foram levar alimentos, ela disse:
– O meu nome é Nyankosem.
A alma que lhe levara a comida abriu os olhos e a boca de espanto e correu para os outros elementos da tribo gritando, Falou, ela falou, o pequeno verme falou. E quando conseguiu acalmar-se, exclamou, Disse que o seu nome é Nyankosem. Os outros ouviram, trocaram olhares pesados entre si. Todos sabiam que aquele nome significava A Palavra do Deus que Está no Céu. A guerreira olhou um companheiro e disse-lhe com arrogância:
– Vês, cabeça de burro, vês que todas as coisas têm um sentido? Percebes agora que não era avisado liquidá-la?

O tempo passou. Trouxe cinzentos à memória, Nyankosem acabou por sair à rua, brincou com as outras crianças, conversou com os adultos, conquistou-lhes o respeito e até a admiração, integrou-se na tribo. Pairava sempre na sua mente uma desconfiança, um temor secreto, mas, com o tempo, percebeu que era estimada e protegida por todos.

O clima de guerra adensou-se, os guerreiros partiam cada vez com maior frequência e as liberdades pessoais foram limitadas por razões de segurança. A fome aumentou. Os confrontos tornaram-se cada vez mais frequentes, Nyankosem mudava cada vez com maior frequência de povoação. O caos instalou-se. Um dia, apareceram uns homens de tez pálida, roupas verdes e chapéus azuis, distribuíam água, comida, medicamentos e algumas roupas. Foram eles que organizaram o campo. E foi nesse campo, onde todos partilhavam tudo, até o espaço para estar, que Nyankosem presenciou outro milagre. Por esses dias estava doente. Bebia pouco, quase não comia, deixara de querer brincar e passava o tempo sentada no chão com as pernas abertas riscando a terra. Uma pessoa de pele clara andava passeando pelo campo de concentração distribuindo alimentos e perguntou a um soldado quem era a menina do olhar triste. O soldado chamou um dos elementos da tribo e este contou toda a história da pequena.

Nyankosem foi adotada, trazida para uma terra estranha que lhe provocara um choque quase tão grande como ver a sua família chacinada. A água corria das paredes, as latrinas tinham assentos, havia pequenos sois no teto das casas que podiam acender-se e apagar-se quando se queria, caixas com imagens em movimento que mostravam o mundo, todos os mundos, as pessoas não se transportavam a pé ou em animais, mas em enormes latas com rodas. Tudo era novo e surpreendente. Tudo era demasiado. As pessoas aprendem e adaptam-se e foi isso que aconteceu com Nyankosem. Isso e o milagre de uma família pacífica. O milagre do amor e da harmonia.

Fez-se silêncio. A senhora doente que não acredita em milagres perguntou à médica:
– Já acabou?
– Já. Gostou?
– Gostei.
Depois, pegou-lhe na mão e procurou-lhe o braço debaixo da camisola. Era liso e macio. Pegou-lhe no outro e fez a mesma coisa. Era rugoso, com cicatrizes à volta do braço como se fossem pulseiras todas juntas. A médica tinha o olhar húmido e brilhante. A senhora doente que não acredita em milagres deixou fluir as lágrimas:

– Desculpe, menina. Ainda há pouco disse que não sofreu.
– Não importa o que sofremos, importa o que aprendemos com o sofrimento. Eu aprendi a acreditar no dom da vida. É esse o verdadeiro milagre.

Contra todas as expectativas médicas, a senhora doente que não acredita em milagres foi operada, melhorou, recuperou e, seis meses após a conversa com a médica, teve alta e está de saída. A filha veio buscá-la. Tem dois sacos a seus pés, está vestida, olha o quarto e despede-se dele com o olhar. A médica chega e não resiste a brincar:
– Bom dia! Já de partida? Pensei que tinha vindo para morrer…
– E vim. Mas os milagres são assim, podem contrariar-nos.
– E que milagre foi esse?
– Ouvi a Palavra do Deus que Está no Céu!
Abraçaram-se. A senhora saiu e Nyankosem foi fazer mais um milagre de vida. Desde o dia em que uma catana derramou vida sobre si, ela anda devolvendo esse dom da Humanidade à Humanidade.

jpv

———————————————
Nota do Autor: Na região do Ghana, uma das maiores tribos, a Akan, subdivide-se em dezenas de subtribos. Uma delas chama-se Nyankosem. A sua língua tem o mesmo nome que é posto, com frequência, a raparigas e rapazes. A palavra significa A Palavra do Deus que está no Céu. A presente história é uma ficção baseada em factos reais.


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Assim, se é leitor assíduo de Mails para a minha Irmã, se gosta do que por aqui encontra, pense em tirar um minutinho para fazer-se membro do Blogue. Não traz quaisquer encargos ou consequências que não seja passar a pertencer aos membros desta família blogueira…

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jpv


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Citação da Humanidade

“Mal anda a Humanidade quando precisa de milagres para salvar-se de si própria!”
jpv in
Pequenos Milagres – Nyankosem
a publicar em breve neste blogue.


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Saudades de Casa

“A nostalgia não é uma coisa má. Pelo contrário, é como viver saboreando.”
jpv


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Solil é Bom.

(Clique na imagem para aumentar )


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Pequenos Milagres – O Espelho

O Espelho

Os milagres não se esperam, não se pedem e, se os pedirmos, não acontecem quando os pedimos nem forçosamente quando precisamos deles, caso contrário, não seriam milagres.

Os milagres são um bocadinho como a morte, há até quem diga que a morte pode ser, ela também, um milagre. Acontecem quando querem, a quem querem, como querem, de forma perfeitamente inesperada, mesmo quando se esperam, e não é possível exercer sobre eles qualquer espécie de controlo.

Nessa noite não lhe apetecia sexo, nem mesmo fazer amor. Apetecia-lhe, só, mergulhar no sono e adormecer desta vida por muito tempo. Os problemas eram vastos e sérios e intensos. Nem sequer percebia como o marido poderia pensar naquilo, mas são assim, os homens, umas bestas cobridoras e insensíveis. Já tinha gastado a desculpa do cansaço, das dores de cabeça, da indisposição. Deixou-o suar em cima de si, não se desconcentrou dos problemas. No fim, despejou-se dele, lavou-se e foi dormir. Os problemas acordaram com ela pela manhã. Definitivamente queria atacá-los, queria soltar-se da onda que a parecia afogar em preocupações e arrelias e não sentia por parte do marido o apoio, a força suplementar que ajudaria o seu espírito a resistir e o seu corpo a suportar. Estavam com problemas financeiros que ele parecia querer ignorar e que a afligiam a cada hora, a cada conta por pagar, a cada prazo vencido. Tinha ideias para tentar escapar ao rodopio de dívidas e cartões de crédito a acumular saldo em débito. Não tinha nele, sequer, uma atenção, um ouvido para as ideias dela. Se era verdade que a filha mais nova iluminava a casa com o brilho do seu olhar e o tom límpido da sua risada inocente, era também verdade que o mais velho estava em apuros. Osresultados na escola eram maus, faltava muito, mentia, tentava esconder as cartas. Ela já apanhara diversas a convocá-la para reuniões. Não conseguira ainda ir e sentia-se mal por isso.

O desinteresse do marido por si era confrangedor. Insultuoso. Ela não o confessara a ninguém, mas sabia que era procurada só para sexo sem chama nem paixão. Ele não conversava consigo. Não partilhava uma ideia. Falavam por monossílabos e continuavam juntos sem que nenhum dos dois soubesse porquê. Há meses, já, que suspeitava de uma relação dele com outra mulher. No quotidiano de um casal, na forma como se relacionam, como alteram pequenos hábitos, há coisas que se intuem. Não precisam ser ditas ou reveladas para que se saibam. Sentem-se e pronto. O resto é o universo das provas e das discussões. Só lhe faltam as provas, discussões já as há todos os dias lá em casa.

Recentemente, sentiu-se cansada. Foi ao médico de família. Fez uns exames. Na semana passada, as más notícias bateram à porta. Uma suspeita. Mais exames. Medicação. Uma preocupação mais. Desnecessária. De noite, quando foi lavar-se do marido, viu-se ao espelho e não gostou do que viu. Detestou-se. Quis ser outra. Quis morrer. Seria fácil, morrer. Mas os filhos… os filhos justificam tudo porque não hão de justificar também uma vida inútil?

Outra característica dos milagres é que não se anunciam, nem os dias em que acontecem têm uma marca especial. Pode começar-se um dia com a mais comum das rotinas e acontecer nele um milagre.

Nessa manhã entornou-se leite com chocolate ao pequeno-almoço. Ela exasperou. Depois de os acordar, de os arranjar, de lhes preparar a refeição, ainda tem de limpar o que derramam por descuido. Chegou tarde à escola do miúdo e tarde chegou ao trabalho. Era cedo no dia e ela já estava cansada. Um cansaço que lhe vinha do despertar atribulado, da noite mal dormida, dos dias mal vividos. E, não estando as pessoas de bem consigo mesmas, não estarão bem com o mundo e o mundo regorgitante devolver-lhes-á esse estado de espírito. O trabalho correu mal. Foi descuidada. Recebeu uma repreensão e uma ameaça de despedimento.

À tarde saiu do trabalho sem vontade de voltar a casa, mas foi para lá que se encaminhou. Faltavam-lhe só dez minutos de autocarro e cinquenta de comboio. Passou pelo supermercado. Fez umas compras lá para casa e saiu para a rua com a pasta do trabalho, a sua mala pessoal e três sacos de compras. Um casaco comprido de fazenda e um cachecol de lã ao pescoço. Havia trânsito. O autocarro atrasou-se. Chega à estação, sabe que o comboio está prestes a partir e corre. Não tem nada por que correr, mas corre. Por instinto. Como um hábito. Se perder o comboio não virá mal ao mundo, mas para si será mais uma derrota e um atraso e uma justificação e uma discussão e… corre. Corre quanto pode. Uma ponta do cachecol foge-lhe e começa a ficar pendurada a querer cair e quanto mais ela corre, mais o cachecol quer cair. Sabe que o comboio vai partir. Levanta um dos braços para segurar o cachecol enquanto corre e respira pesadamente. Ao fazer esse gesto, um saco de compras cai-lhe das mãos, as coisas espalham-se pelo chão, ela olha o comboio, quer apanhá-lo, olha as compras no chão e sabe que não pode deixá-las para trás. Volta as costas ao comboio e quando se prepara para se baixar e apanhar as compras dispersas, já as lágrimas lhe correm pela face, impiedosas.

E deu-se!
Aproximou-se um homem alto e largo de costas, com o cabelo liso impecavelmente arranjado, um sobretudo cinzento por cima do fato azul e umas luvas de pele preta nas mãos. Tinha um porte elegante, um aspeto atraente e, sobretudo, tranquilo. Baixou-se, apanhou as compras espalhadas pelo chão e colocou-as no saco. Levantou-se e abriu um sorriso que iluminou o fim de tarde já muito escuro.

– Aqui tem. Não precisa chorar por tão pouco.
– Não é por isso…
– Eu sei.
– Sabe?
– Sim. Há dias, há momentos na vida de uma pessoa em que tudo parece correr mal… em que parece que só um milagre nos salvaria. E sabe que mais? Quando se bate tão fundo, normalmente os milagres acontecem mesmo.
– Acha?
– Tenho a certeza. Olhe, deite tudo para trás das costas. Uma senhora elegante e bonita, como é o seu caso, não merece que a façam chorar. Merece todas as coisas boas da vida.

E, sem dar-lhe tempo de reagir, puxou-a para si e abraçou-a longamente. Nesse momento, mais um saco lhe caiu da mão e as compras espalharam-se pelo chão. Largaram-se a rir ao mesmo tempo e baixaram-se os dois apanhando as compras.

– Obrigada. Muito obrigada. As suas palavras foram poucas, mas muito importantes.
– Não se preocupe com nada, vai ter uma vida fantástica.

Então, o mundo mudou de atitude em relação a ela, tudo quis resolver-se. Talvez por isso, surgiu um aviso pelos altifalantes da estação.

– Por razões de ordem técnica, a partida do comboio 732, marcada para as 19:41, encontra-se atrasada. Estima-se a saída da composição dentro de vinte minutos.
– Veja, parece que não perdi o meu comboio!
– A senhora não perdeu o comboio nem a vida!

Beijou-a na testa e afastou-se.

Ela viu-o ir como quem contempla um milagre e depois dirigiu-se para o comboio. Quando caminhava ao lado das carruagens, olhou as janelas e contemplou o seu reflexo. Nesse momento, gostou do que viu.

jpv


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Quarenta Mil

Caros amigos e leitores,

com a vossa ajuda e contribuição, Mails para a minha Irmã, atingiu mais um número redondo e bonito. Hoje, cerca de 32 meses depois da sua criação em 12/05/2009, atingimos as 40000 (quarenta mil) visitas num total de mais de 84000 (oitenta e quatro mil) leituras. Isto quer dizer que temos em média 75 visitas por dia e 129 leituras.

Ao longo deste tempo publicámos 1327 posts que incluíram mais de 90 poemas, três romances, as histórias do Metro, do Autocarro 28, do Clã do Comboio, as Motorcycle Chronicles, os Mails para a minha Irmã e um extenso número  de citações, curiosidades e crónicas.

Os leitores fizeram 684 comentários e eu recebi, além disso, mais de 2000 e-mails com comentários e sugestões. Em todo este tempo tivemos UMA reclamação.
Os sites de proveniência dos leitores de Mails para a minha Irmã são imensos sendo os mais frequentes o Google, o Sitemeter e o Facebook.
Também geograficamente, os leitores estão muito dispersos sendo as 10 proveniências mais frequentes as seguintes:
Portugal – 56 870
Brasil – 8 375
França – 2 401
Estados Unidos – 1 820
Alemanha – 891
Rússia – 522
Reino Unido – 212
Itália – 111
Índia – 109
Holanda – 99
Os três sistemas operativos mais usados, não obstante serem usados cerca de 10, são os seguintes:

Windows – 68 807(94%)
Macintosh – 1 899 (2%)
Android – 1 041 (1%)
Resta-me agradecer a atenção que têm dado a este cantinho e dizer-vos que continuarei por aqui, a contar histórias… 

Até breve.

jpv


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Efeméride

Já houve tempos, anos, em que este dia era triste porque restava nele a memória de ti com a incompletude toda que isso implica. A tua falta. A tua insuportável ausência.
Depois, com o tempo, foste reafirmando a tua presença de outra forma. Na gratidão do que nos ensinaste, na forma como fizemos opções a pensar no teu conselho, no guia que continuaste a ser ao longo dos tempos, nas histórias recontadas por familiares e amigos acerca de ti.
De tal forma foi isto que, hoje, é como se aqui estivesses. É como se a tua presença se tivesse reerguido entre nós. Se estivesses entre nós, vivo sei que estás, farias hoje 78 anos. E já não me apetece dizer que tenho pena de não ter vivido os últimos treze contigo porque o facto, a evidência à saciedade demonstrada é que viveste, vives, em mim. Em nós.
Sabes, Pai, se estivesses hoje entre nós, estranharias a volta que este mundo levou em tão pouco tempo. E estranharias que, para pessoas como tu, também já há nome. Tu hoje serias uma personalidade transversal. Os nomes que dão à capacidade de amar, de ser-se guia e pai e amigo e ouvidor e conselheiro e segurança e idealista e educado e simpático, e… e… e…
À medida que o tempo vai passando e os homens se vão revelando à nossa volta, tu renasces e reergues-te e continuas a ser o farol que nunca deixaste de ser.
Hoje ainda não falei com a Mana, mas vou assinar este texto em nome dos dois. Sabes porquê? Porque também nos ensinaste isso: a comunhão, a intrínseca solidariedade de sermos uma família reunida em si. E quando se aprende essa lição, há coisas que não precisam de dizer-se ou combinar-se para sabermos que são comuns. Essa foi a tua herança. Um verdadeiro tesouro.
Com saudade,
O rapaz e a miúda.