Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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"Com Amor," – Documento 91

Olá Tânia,

Hoje, penso, portámo-nos muito melhor. É evidente que aquele beijo apaixonado e estonteante que me deixou com um desejo louco de fazer-te minha poderia não ter acontecido, mas até aí estivemos muito bem. Conversámos coisas muito importantes. Talvez fosse melhor não sermos sempre os últimos a sair. Os outros vão acabar por reparar.

Sim, estou em sintonia ctgo. A vida é o que fizermos dela, é construída pelas nossas decisões. Não há passado nem futuro que não estejam ligados ao que os homens decidiram fazer ou decidirão fazer.
Sim, estou em sintonia ctgo. As coisas existem para nos servir e não para nos sacrificar e as mais fantásticas desta vida são de graça…
Sim estou em sintonia ctgo. Por vezes apetece-me desligar de tudo o que é material e recomeçar do zero, às vezes apetece-me ter uma casinha pequenina em que eu entre sem tropeçar em objectos inúteis. Os objectos não são vida. Vida é o que fazemos com o tempo que temos.

Pensei que ninguém entenderia isto. Tu entendes e isso é maravilhoso. O nosso caso, que ainda não é nada, pode tornar-se sério por aí…

Até amanhã.

Com Amizade,
Rui


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"Com Amor," – Documento 90

Olá Rui!

Esperei por ler-te.
Ainda bem que escreveste. Fiquei mais tranquila.

Não pode mesmo repetir-se!

Beijo

Tânia


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"Com Amor," – Documento 89

Calma miúda!

Não te martirizes. Foi só um beijo. Sim, eu sei, mesmo assim é grave. Quando te digo para teres calma e para não te martirizares é pelo seguinte: eu estava agitado, também. E estava a rezar para que ficasses, e se tu não tivesses atrasado a tua saída hoje, eu teria atrasado a minha noutro dia qualquer. Isto não é culpa tua, é responsabilidade nossa.

Acho que quebrámos as regras todas da empresa, embora eu ache que não somos os primeiros a trocar beijos apaixonados na salinha da fotocopiadora… fofocas! Depois falamos.

É claro que é melhor que não se repita. Há demasiada gente envolvida. Seremos fortes!

Beijinho.
Rui


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"Com Amor," – Documento 88

Querido Rui,

Desculpa, desculpa, desculpa…
É já muito tarde, mas resolvi escrever-te na mesma. É demasiado importante!

Eu não percebi que pudesse acontecer aquilo que aconteceu hoje, mas o facto é que aconteceu e eu assumo… Tu tinhas de trabalhar até tarde e precisavas ficar no escritório. Eu não, Rui. Eu estive a empatar e a fazer horas para poder falar contigo. O meu coração pulava de agitação e só quando acabei de beijar-te percebi que fora um impulso e que não devia ter acontecido.

Não se repetirá!
Mais uma vez, peço desculpa.

Tânia.


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"Com Amor," – Documento 87

Ainda te li!

Até segunda! 🙂

Tânia


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"Com Amor," – Documento 86

Olá Tânia,

Ainda bem, também. A tudo! Não podia estar + de acordo ctgo. Claro que houve ali uma atracção, mas acho que foi mais prudente assim.

Respondendo ao teu PS: acho que poderia ter acontecido. Nós somos muito compatíveis. Também acho que nunca aconteceu porque tu andaste tão envolvida e absorvida pela tua vida e pelos teus problemas quanto eu pelos meus.

Talvez agora que encontrámos um problema comum e isso nos levou a partilhar ideias e descobrimos algumas sintonias, talvez agora houvesse essa oportunidade. Mas agora, Tânia, a vida de ambos já está muito complicada.

Beijocas e… até segunda.

Rui


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"Com Amor," – Documento 85

Olá Rui,

A expressão que coloquei no título resume bem o que sinto em relação a ontem: Ainda Bem.

Ainda bem que fomos jantar. Foi fantástico ver as pessoas que conhecemos em ambiente de trabalho numa onda descomplexada. Ainda bem porque todos conversámos e descomprimimos. Eu, pelo menos, descomprimi à brava. Ainda bem porque nos divertimos muito e a noite terminou com todos a sentirem-se bem e relaxados. E, ainda bem, Rui, que nos contivemos no regresso, eu e tu. Houve um momento em que paraste o carro para terminarmos a conversa que tínhamos começado nos nossos mails sobre estes conflitos que andamos vivendo entre materialidade e espiritualidade, e pensei que algo poderia acontecer. Não é que não goste de ti, mas acho que já temos problemas suficientes, os dois.

Eu percebi que se criou ali um clima, uma sintonia, houve ali um momento em que quase cedemos à tentação da promessa de um beijo. Ainda bem que não cedemos. Quanto ao resto, ainda bem tudo. Noite maravilha, companhia maravilha.

Beijito
Tânia

PS: Pergunta parva: Rui, porque é que nestes anos todos nunca namorámos, tivemos um romance, whatever?…


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"Com Amor," – Documento 84

Querida Verónica,

Quando te conheci fiquei a gostar mais do mundo por tu estares nele, mas eu já era o homem que sou hoje e já tinha os meus filhos. Para mim, nada que diga respeito aos meus filhos é “paralelo”, como tu lhe chamaste, porque eles são o centro da minha vida, a minha razão de viver.

Achei interessante que em relação ao nosso problema com a minha filha tenhas referido “a forma como ela encarou o nosso relacionamento” e no que diz respeito ao nosso problema com o teu filho te tenhas referido a ele como “a forma como lidaste com o meu mais velho”. Tu não podes estar sempre fora dos problemas, nem os teus filhos, por mais que os ames. Eu posso conversar com a minha filha, mas tenho de respeitar a sua maneira de ver a situação. Ela é uma mulher, Verónica, também já tem filhos, não pode ser tratada como uma gaiata que está com ciúmes da namorada do pai. Já o “teu mais velho” está a ser um bocadinho infantil, certo?

Sim, doce Verónica, temos de harmonizar, mas isso não pode significar adoptar sempre a tua perspectiva só porque é… a tua!

Com Saudade,
Eduardo Luís


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"Com Amor," – Documento 83

Meu Amor Querido, Meu Doce Eduardo, Meu Porto Seguro,

Achei quase um milagre ter-te encontrado e achei, isso sim, um perfeito milagre que nos entendêssemos tão bem. Uma tão preciosa harmonia parecia-me frágil, no início, mas depois fortaleceu-se e à medida que o tempo foi passando, eu fui acreditando cada vez mais nesse nosso cantinho de estar bem a que carinhosamente chamas de arrolhar de pombos.

Por vezes temia pela durabilidade deste nosso entendimento e tentava imaginar por onde poderia nascer um conflito. Fazia isto para nos defender, para poder antecipá-lo e evitá-lo.

Tenho conseguido. Temos conseguido. Mas fui surpreendida. Fomos surpreendidos.

Estes dias em que estivemos um pouco mais ausentes um do outro, criaram um certo distanciamento que me permitiu ver com mais clareza. E fiquei tranquila. Já reparaste que as razões do nosso desentendimento não nascem em nós, não provêm dos nossos actos directos? O motivo mais recente tem a ver com a forma como lidaste com o meu mais velho e esse problema, sejamos honestos, está relacionado com a forma como a tua filha encarou o nosso relacionamento desde o início. Com certo cepticismo e até alguma desaprovação. Acho que precisamos de dar-lhes espaço e tempo e acho que precisamos de ser serenos e crescidos e encarar com naturalidade as atitudes dos nossos filhos.

Resolvi escrever-te porque te quero muito e não gostaria que um problema paralelo tivesse o poder de inquinar a nossa relação.

Tua.
Sempre tua.

Verónica


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Curtas do Metro – Risco e Imprudência

Risco e Imprudência

A vida é feita de riscos. O risco faz parte de estar-se vivo. viver sem riscos não é viver, é sobreviver, passar o tempo, qualquer coisa, mas não é viver. Ainda assim, mesmo eu, que sou um adepto do risco, acho que é preciso calculá-lo, medi-lo e correr o risco com a margem de segurança que permita acreditar na superação, no sucesso. Ou seja, correr riscos é uma coisa, e é saudável, imprudência é outra.

Hoje assisti a uma imprudência arriscada. Quando mudei de linha na Baixa Chiado e apanhei o Metro para o Cais do Sodré, já lá estava uma composição parada. Tendo em conta a distância a que ela estava de mim e o facto de já toda a gente ter entrado, percebi que já não a apanhava. Sobretudo porque, uma vez toda a gente lá dentro, é muito curto o período de tempo até que toque o alarme sonoro de fechamento de portas e as ditas se cerrem. Decidi continuar a caminhar calmamente e esperar pelo próximo.

O alarme soou, passou por mim, a correr desenfreadamente, um jovem com menos de vinte anos, as portas começaram a fechar, quando ele chegou junto delas, as duas portas já tinham percorrido mais de metade do percurso até se encontrarem, ele já não cabia, até porque levava uma mochila, colocou uma mão em cada porta e começou a fazer força para que recuassem, as portas estavam a ganhar e cada vez se fechavam mais, ele não desistiu, quando as portas estavam quase fechadas, as costas das mãos dele encostaram-se uma contra a outra, ele continuou a fazer força, as portas cederam um pouco até que ele conseguiu meter a cabeça dentro do comboio, continuou a fazer força até que o corpo passou completamente lá para dentro, as portas fecharam-se, a composição partiu.

Fiquei aterrado porque vi o corpo dele meio dentro, meio fora do comboio, entre a plataforma e o interior da máquina.

Importa dar aqui seis simples informações:

  1. Na plataforma há uma linha amarela para além da qual não se deve passar exceto se as portas estiverem abertas.
  2. Há um alarme sonoro que indica o fechamento das portas.
  3. Há um aviso sonoro que solicita às pessoas para não forçarem as portas.
  4. Há um autocolante EM CADA PORTA que avisa para não se forçarem as mesmas após o alarme de fecho.
  5. Há um autocolante EM CADA PORTA que avisa para os passageiros não colocarem o corpo entre as portas durante o fechamento.
  6. Há um aviso sonoro que alerta e previne para o espaço entre a plataforma e o comboio.

O rapaz lá foi à vida dele. Deve ter ganho quatro minutos (!), mas podia ter perdido tudo naqueles instantes. Correu um risco. Mas, para quê? Por quê? Quatro minutos?
Importa referir que, mesmo não se registando acidentes muito graves, todos os anos há centenas de acidentes com o Metro, quase todos causados por imprudência na utilização do recurso. Há sistemas de segurança, mas com este tipo de atitude não há sistema de segurança que funcione.

jpv