Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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ErotiKa – Um olhar

AVISO
Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.
Do mesmo modo, o conteúdo desta publicação só pode ser acedido por pessoas maiores de 18 anos.
Assim, caso prossiga com a leitura, o utilizador fá-lo por vontade própria e assume ter idade para aceder aos conteúdos.
Obrigado
jpv
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Um Olhar

Ele trabalhava ali há algum tempo, já. Ela chegara de novo.
Ele tinha luz e promessas no olhar, na voz e na forma doce como se movimentava.
Ela era silenciosa e observadora.
Quando começaram a cruzar-se, repararam um no outro, mas nada mais do que um Bom Dia, Boa Tarde, foi alguma vez arriscado. Queriam preservar-se.
Ela tinha um olhar fundo e um andar pequenino. As formas comedidas do corpo eram, no entanto, definidas com clareza e graça feminina.
Os dias passaram e continuaram a trocar palavras de circunstância, por vezes uns documentos, outras vezes algumas opiniões acerca do trabalho.
Um dia, ao passar-lhe uma pasta, ele tocou ao de leve a mão dela que, não se tendo oferecido, também não recuou.
O tempo passou e as pessoas que eram habituaram-se à presença suave e discreta do outro. Notada, sem ser imposta. Sentida, sem ser absolutamente necessária.

Um dia amanheceu de sol e frio. Os casacos e os cachecóis tomaram conta dos corpos. O trabalho desenrolou-se com naturalidade. Ao fim da tarde, quando todos abandonavam o local, ele veio despedir-se deles. Era um ritual. Apertava-lhes a mão e desejava-lhes um bom resto de dia. Chegou a vez dela e todo o seu relacionamento se alterou num par de segundos. Não se aperceberam, então. Só mais tarde. Ele estendeu-lhe a mão, ela aceitou-a e trocaram um olhar demorado. No dela havia um convite quase súplica, Toma-me! No dele havia um vigor quase invasão, Quero-te!

Não sabem as pessoas como percebem o que percebem. Sabem só que percebem. E estes dois perceberam. Poderiam ter continuado as suas vidas, poderiam ter pensado que tudo aquilo fora uma ilusão, um mero olhar trocado com um pouco mais de demora, mas qualquer um deles sabia que aquela troca de olhares fora uma conversa.

Ela saiu. Ele seguiu-a. Ela entrou no seu carro e ele no dele. Desconheciam-se. Não sabiam ao que iam, não sabiam, sequer, um do outro, se seriam comprometidos ou não. Simplesmente fizeram o que fizeram. Ela percorreu algumas ruas da cidade. Ele seguiu-a. Ela estacionou numa zona habitacional tranquila. Ele estacionou ao lado dela. Ela dirigiu-se para um prédio. Ele seguiu-a. Ela entrou e não fechou a porta. Ele entrou e fechou-a. Ela dirigiu-se à aparelhagem para colocar a Dulce Pontes a entoar a Canção do Mar. Ele aproximou-se dela por trás, tomou-lhe o sexo na mão, sentiu-o latejante e húmido e beijou-a com demora.

Não devassemos mais a sua privacidade. O que se seguiu foi a sinfonia das carícias, a troca das emoções, o bailado dos corpos na entrega e na dádiva dos gestos incendiários. Quando terminaram, trocaram poucas palavras. Ela começou:
– Fica dentro de mim!
– Ficarei.
– Como é que soubeste?
– Pelo olhar.

jpv


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ErotiKa – Contos

ErotiKa – Contos

Em breve iniciar-se-á em Mails para a minha Irmã a publicação de uma série de contos com a denominação genérica de “ErotiKa”.

Sim, é exatamente o que o nome parece indicar. São histórias contemporâneas e não só, da nossa cultura, mas também de outras, que pretendem uma abordagem das diversas manifestações do erotismo na vida das pessoas.

Serão o que tiverem de ser. Mais explícitas, mais contidas, mais trepidantes  e mais tranquilas. Mas serão sempre eróticas!

Não esperem um livro de posições mais ou menos sensuais. Esperem o erotismo das sensações, umas à flor da pele, outras nos cantos recônditos da mente.

As histórias serão precedidas de um aviso de conteúdo e só se acederão após um clique voluntário num botão “ENTRAR” que colocaremos por baixo do aviso.

Divirtam-se!

jpv


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"Com Amor," – Como se fez um Romance

“Com Amor,” tem uma caraterística original. É um romance sem narração, ou seja, não há ninguém a contar a história. Ela tem de ser inferida pela leitura dos diversos documentos trocados entre personagens. Sempre cartas e e-mails.

O romance teve um total de 102 documentos. 3 cartas e 99 e-mails.
O primeiro foi publicado em 27 de abril de 2011 e o último em 28 de janeiro de 2012.

A história decorre entre 2005 e 2011 e é por isso que nunca foi adotado o novo acordo ortográfico.

O romance tem 9 personagens. 4 homens e 5 mulheres. No início do romance há 4 casais heterossexuais e uma personagem sem relacionamento. No fim há 2 casais heterossexuais, um casal homossexual e 3 personagens sem relacionamento.

TODOS os endereços de e-mail existem e todas as mensagens de correio eletrónico foram efetivamente enviadas de umas personagens para as outras.

Houve 6 leitores que enviaram e-mails às personagens.

Nenhuma personagem e nenhum relacionamento do romance existe na vida real, contudo, todos eles são inspirados em pessoas ou factos que podem ter existido ou acontecido mas não com os mesmos contornos.

A planificação do romance durou 6 meses e a escrita durou outros seis.

Todos os textos foram manuscritos em cadernos e só depois passados para o processador de texto. Numa fase seguinte foram escritos no Gmail, enviados e por fim colocados no Blogue.

A capa é também da nossa autoria e execução técnica sendo que a foto foi uma cedência de uma ex-aluna, a Isabel Évora.

Em baixo, uma sequência de imagens com pormenores da planificação e redação do romance.

Esperamos tenha gostado e, caso deseje, agradecemos deixe o seu comentário acerca deste Romance. Obrigado.

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(clique nas imagens para aumentar)

Esquema actancial com todas as personagens e relacionamentos.
Sequência dos acontecimentos e idade das personagens em 2005.

Pormenor de um documento.
Cabeçalho e primeiras linhas.


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"Com Amor," – Documento 102

Meu Amor,

A vida partilhada contigo não tem sido boa, nem tem sido como planeáramos. Tem sido fantástica e melhor, muito melhor, do que alguma vez imagináramos.

Adoro os fins de tarde em que te preparo um petisco enquanto acabas qualquer coisa no computador.

Depois, eu chamo-te, tu vens para baixo, comemos juntos, beberricamos um espumoso amabile e vamos dar um passeio a pé enquanto conversamos.

Mais tarde, já em casa, preparamo-nos para dormir e eu interrompo-te o sono pela madrugada para fazermos amor sonolento e apaixonado.

Foi bom teres instalado o wireless cá em casa. Assim, podemos comunicar e posso escrever-te como sempre fizemos, como, afinal, aprendemos a conhecer-nos. O meu portátil cá em baixo e o teu computador aí em cima transformam-se em ferramentas de amar.

Tenho na mesa uma salada de alface e tomate com queijo fresco e pedacinhos de ananás, tenho uma omeleta de espargos e fiambre e um copo de Cabriz branco frio espera por ti.

E é neste ponto das nossas vidas, meu menino Rui, que me  sinto incomensuravelmente feliz por poder escrever-te este e-mail sabendo que dentro de segundos os meus lábios estarão junto aos teus.

Vem para baixo, meu querido Rui! Para sempre, todo o sempre, o único sempre!

Com Amor,

Verónica

——————————– FIM ——————————–


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"Com Amor," – Documento 101

Meu Menino Rui,

Não cresces. O tempo passa por ti e tu continuas a amar e a esbanjar carinho e ternura como se fosses um adolescente.

Não precisas esperar por mim, meu amor. Há já algum tempo que te espero. Em silêncio.

Não sei se as coisas com o Eduardo não correram bem porque não podia ou porque eu deixei de esforçar-me quando pressenti que poderias finalmente caminhar para mim com todas as tuas energias, com toda a tua disponibilidade.

Sou tua, Rui. Sou tua porque nunca fui de outro. Mesmo antes de conhecer-te.

Sim irei. Irei incondicionalmente ao encontro do que tens para dar-me, oferecendo-te tudo o que tenho. É pouco, Rui, mas é tudo o que tenho. É o meu ser. O meu sentir mais profundo e inteiro. A vida despida de tudo o que é acessório, no estado mais límpido, com o amor mais genuíno e juvenil que uma mulher pode encontrar em si, mesmo depois do cinquenta, Pouco depois! 🙂

Não tenho certezas. Estou cheia de dúvidas e prenhe de entusiasmo. Não imagino como seja viver contigo, mas sinto, no mais profundo de mim, que seja como habitar os meus sonhos, realizar as minhas fantasias.

Sim, Rui, quero o teu vigor e a tua paixão e quero o meu corpo sob o teu na sensualidade das carícias que só nós sabemos.

Irei, Rui, irei e não terás de esperar!

Irei determinada. Irei sem volta. Para todo o sempre. O único sempre.

Carícias mil,
Com Amor,

Verónica


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"Com Amor," – Documento 100

 

Meu Amor,

Tenho-me contrariado vezes sem conta, sempre em nome de pessoas e causas nobres. Nunca essas pessoas e causas fui eu ou foram minhas.

Há um ano, quando me divorciei, disse à Patrícia, Acusa-me do que quiseres, devo tê-lo feito. A frase não é minha, é de Brör, marido de Karen Blixen em “África Minha”. Esse despojamento e essa lisura resultaram num divórcio amigável em cada um tem as suas razões, as suas culpas e as suas recriminações, mas não as exercem em nome de um bem maior: a tranquilidade. Ao longo deste tempo tens-me apoiado incondicionalmente e, mesmo sem falarmos ou escrevermos com regularidade, tens sido um farol, uma orientação, e tens-me entregado todo o teu amor e toda a tua dedicação. Nunca ninguém foi tão apaixonado comigo. Nunca ninguém se me entregou tão completamente como o fizeste comigo. Sem qualquer interesse que não o de amar-me.

Quando me divorciei, não foi por ti, não foi por mais ninguém senão por mim mesmo. Por isso reivindiquei para mim um tempo de estar só, um tempo de reflexão, um tempo de pensar-me e pensar as minhas opções.

Não há opções porque há um só sentido para mim e para o tempo que me falta viver e esse sentido és tu. Tu és a força silenciosa que nunca me abandonou, o amor fundo que nunca deixou de orientar-me mesmo quando o não consciencializei. Amo-te, Verónica, amo-te como à vida, amo-te mais do que a mim próprio porque não há Eu verdadeiro e com sentido sem que Tu estejas nele.

Tu és o meu sentido. Tu és o meu caminho. Tu és a minha opção e a minha vida. Para que todas as minhas errâncias e todos os meus erros possam um dia fazer sentido, é preciso que sejam entendidos porque buscava nas outras mulheres aquilo que só em ti residia: a essência do amor, o sentido da vida!

Sou teu, Verónica, como nunca o meu ser pertenceu a outra pessoa e esperarei por ti o tempo que for necessário, nem que seja o tempo da minha vida. Afinal, o que representa esse tempo perante a eternidade de estarmos unidos?

Contaste-me que o teu relacionamento com o Eduardo vivia dias de hesitação. Incertezas. Alguns problemas que precisavam ser superados. Nunca fui tão parcial como serei agora. Deixa tudo isso para trás, meu amor, abandona todas essas tentativas de amar, todas essas ameaças de vida. O único amor e a única vida para ti sou eu, tal como tu para mim. Tudo e resto são minudências, são apêndices de vida, mas não a própria vida.

Sejamos felizes, Verónica, como mais ninguém pode sê-lo em conjunto, no sentir do coração, na promessa da alma e na ânsia do corpo.

Sim, sou teu, Verónica, e, mais do que isso, quero que sejas minha. Para sempre. Para todo o sempre. Para o único sempre.

Tu não queres essa tranquilidade que dizes darem-te. Tu queres o palpitar forte de um amor desmedido e isso é o que tenho para dar-te, é o que tens para dar-me.

Vem, meu amor, vem amar-me, vem ser amada, vem dar-me sentido. O do amor que anima a vida dos homens!

Com Amor,
Rui.


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AVISO!


“O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade, pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protetor de seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa, aqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E vós sabereis que sou o Senhor quando minha vingança cair sobre vós”.

Ezequiel 25:17
Adaptado para “Pulp Fiction”


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Obrigado, Zé!

Há muito tempo que conheço o José Matias. E ele a mim. Simpatizámos naturalmente desde o início do nosso conhecimento e sempre mantivemos um trato afável e amistoso. Tudo gente boa, portanto. Mas, hoje, o Zé Matias surpreendeu-me pela generosidade. 
Eu estava na margem sul e precisava apanhar um comboio em St.ª Apolónia. Pedi-lhe boleia para Lisboa e combinámos que ele me deixaria ao pé de uma estação de Metro qualquer e eu depois ia à minha vida. Ora, como já era tarde, o Zé perguntou a que horas eu tinha comboio. Às 19:48, respondi. Eram 19:35 e estávamos em cima da ponte sobre o Tejo. O Zé diz que ainda é possível e eu digo-lhe que não e ele remata, contundente, Se eu te puser no Oriente ainda o apanhas. E vai daí, não só me deu boleia, como fez uma gincana célere até ao Oriente onde chegou 1 minuto antes do comboio. Subi as escadas a correr e quando cheguei estava o o regional das 19:48 – 19:56 no Oriente – a entrar na estação. Claro que o apanhei. Mas só porque a generosidade do Zé Matias e a sua solidariedade mo possibilitaram. No meio disto tudo, a Ana Rosa, que ia connosco, ainda foi trocando um palmo de conversa comigo. Foi assim uma viagem alucinogénica com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, mas em que tudo correu bem.
Resta concluir: Obrigado, Zé!
jpv


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"Com Amor," – Documento 99

 

Minha Doce Laura,

Hoje resolvi escrever-te em papel perfumado e letras grafadas pela minha mão para celebrar a vida. Celebrar a tua vida, já que, quando receberes esta carta, deves estar a fazer anos. E celebrar a vida da nossa vida em conjunto nestes últimos anos.

Quando me aconteceste, a vida trouxe-me surpresas e milagres. Surpreendeu em mim formas de amar de que me não sabia capaz simplesmente porque estavam adormecidas. Surpreendeu em mim o prazer e a alegria de ser amada por ti e trouxe-me o milagre do nosso entendimento e da forma descomplexada como encaramos a vida. Temos enfrentado os preconceitos todos e todas as dificuldades com alguma facilidade porque há em nós, antes de mais, a alegria de pertencermos uma à outra, de nos entregarmos e de nos recebermos. E temos lidado com o estranhamento e a admiração dos outros como lidamos com a nossa própria admiração: com naturalidade e até algum descaramento.

Não sei quantas vezes fizemos amor até hoje, mas sei duas coisas. Foi mais de uma vez! Cada vez foi um milagre de carícias e sedução, um caminho de prazer e de ternura, um reacender do sentido da nossa existência. E sim, a pele das mulheres é mais suave!

Doce Laura, sempre que estou contigo fazes-me querer ser uma pessoa melhor, fazes-me querer realizar inolvidáveis feitos de ternura e solidariedade e fazes-me querer levar amor onde o não há.

Preenches-me os minutos, as horas e os dias, mesmo aqueles que não estou contigo e trazes luz ao caminho da minha existência, trazes bom senso às minhas decisões. E por isso te estou grata. E por isso te amo ainda mais.

É irónico, minha Laura, que Deus, o Destino, a Ordem Cósmica ou o que quer que seja que traça e orienta os nossos passos, tenha juntado uma mulher que não se guardou para homem algum com uma mulher que viveu casada mais de vinte anos. É irónico que tenhamos vivido experiências tão díspares para virmos a partilhar o Outono das nossas vidas em comunhão e harmonia. Não sei a quem agradecer por este encontro, sei só que estou infinitamente grata.

Amo-te muito, Doce Laura, amo-te tudo o que uma pessoa pode amar outra e é desta incomensurabilidade de amar que nasce em mim um desejo que verto em voto de vida para nós: desejo-te, minha amada Laura, que vivas muitos e felizes anos e que possam todos esses anos ser intensa e langorosamente partilhados comigo.

E tenho também, meu amor, um voto de morte. Pode parecer-te macabro, mas não é. É um feliz voto de morte: desejo que numa manhã de sol cristalino nos levantemos, já muito velhinhas, bebamos o nosso chá de tília na varanda, sentadas em torno da nossa mesinha redonda com um paninho bordado. Que o chá nos saiba bem e que nos encontrem mais tarde sentadas, lado a lado, de mão dada e adormecidas para sempre.

Quero viver contigo, Laura, e é contigo que quero atravessar a derradeira fronteira.

Não se pode amar mais, nem melhor, nem com mais entrega que isto tudo que trago no peito.

Com Amor,

Madalena


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Friso

Friso

Vi no friso à contraluz
Uma ideia que germina
Uma imagem que produz
Sofrimento.
Eras tu partindo
Livre e liberta
Era eu sentindo
A porta fechada,
A janela aberta.
Houve em mim
E no friso,
O raciocínio
E o juízo
De querer prender-te livre,
Libertar-te presa.
E nessa ideia que tive,
Vivia a chama acesa
Deste paradoxo amado,
Deste desejo infiltrado
Desta vontade indomável.
E tu pacificaste-me a alma.
Entregaste-me com calma
A tua vida
Como se fosse coisa pouca.
E eu fiquei suspenso
De gesto tão intenso
E tão abandonado à fortuna.
Senti-me um friso de vida
Sustentado por grácil coluna
Firmemente erguida.

jpv