Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – Época Balnear

Época Balnear

Um dia destes a CP iniciou a Época Balnear. Eu nem sabia que havia época balnear nos comboios, mas há. Há e tem consequências.
Um pouco antes das 7:18 já estava na plataforma o grupinho do costume. Parte dele. alguns estão de férias e outros entrariam em Santarém. Esperávamos pela sétima carruagem para ocupar o nosso canto habitual e predilecto. E foi às 7:18 que colidimos frontalmente com a época balnear da CP. Nós e os nossos hábitos. Em vez de trazer as habituais nove carruagens, o interregional das 7:18 trazia… seis! Isso mesmo, menos uma composição, também conhecida por tripla. A nossa porta não parou à nossa frente. Entrámos confundidos, sentámo-nos baralhados e ficámos desgarrados uns dos outros. A redução revelou-se excessiva. Muitas pessoas tiveram de seguir de pé até Lisboa. Quando o VM e o JJ entraram em Santarém, também ficaram de pé e… longe de nós. Houve reclamações diversas. A Rapariga do Riso Fácil disse que isto assim não tem piada. O VM dizia graçolas do meio da carruagem para nós. Eu levantei-me, juntei-me a eles e fui de pé por solidariedade. A Mamã das Duas Crianças aturou a antipatia de quem não queria. Chegámos a Lisboa perdidos… desconjuntados. No dia seguinte ensaiámos uma estratégia de ocupação. Já ficámos melhor, mas, mesmo assim, ainda precisaremos de fazer uns ajustes.

Compreendemos que é preciso poupar, mas obrigar pessoas que pagam antecipadamente uma assinatura mensal a fazer uma viagem de uma hora e meia em pé, não é poupar, é uma falta de respeito e configura o incumprimento de um contrato.

Alguém nos explicou que, de Julho a Setembro, era assim. A malta foi-se à Net e escreveu umas reclamações. É que o interregional das 7:18 ficou parecido com aquelas praias onde é suposto ir gozar-se do ar puro e do espaço livre e amplo e afinal não há onde estender uma toalha. Há uma visível falta de lugares o que nos rouba o conforto e esse foi um dos argumentos das reclamações, mas, aqui para nós, o Clã do Comboio tinha outra razão. Um desnecessário atentado à sua coesão e companheirismo matinais. A CP pode ter Época Balnear, mas o Clã continua a precisar de ir para o trabalho todos os dias. Ainda assim, ou me engano muito, ou a malta do Clã vai dar a volta a esta contrariedade…


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Curtas do Metro – Um Certo Odor

Um Certo Odor

Eu tenho um olfacto apurado. E sou muito sensível aos odores. Não esquisito. Só sensível.

Todos os dias faço o trajecto de Metro entre o Cais do Sodré e Baixa/Chiado ao final da tarde ou ao princípio da noite. Nunca tinha pensado em Lisboa como uma cidade balnear, mas há muito quem pense. São muitos, muitíssimos, os passageiros que entram àquela hora no Metro do Cais do Sodré e que, claramente, vêm da praia. Vai um homem encarcerado no fato e enforcado na gravata e eles passam de chinelos, areia nos pés e nas pernas, calções, toalhas ao ombro, t-shirts… algumas raparigas ainda com o top do biquini e uma saia, sacos de praia, chapéus-de-sol, pranchas, peles encarnadas e peladas do sol e conversas de…mar! É de fazer inveja. É curioso observar o Metro atravessado pelo folclore da praia à mistura com saltos altos, fatos e gravatas, pastas de trabalho penduradas das mãos.
Ainda não tinha decidido escrever sobre isto porque, sendo interessante, não me marcara. Hoje, contudo, senti um odor familiar, adocicado e inconfundível. Pairava, suave, na carruagem onde eu ia e, de repente, foi como se a praia fosse ali comigo, a envolver-me o espírito e o corpo. Quis perceber o que me transportava para a tranquilidade nostálgica das férias, que mar era aquele a entrar-me pelas narinas e a provocar-me os sentidos.

Concentrei-me e rapidamente o identifiquei. Viajávamos envoltos pelo odor espesso e suave de… protector solar!

jpv


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Curtas do Metro – Reminiscências do Padre Borga

Reminiscências do Padre Borga

Hoje, quando cheguei ao trabalho por volta das 9h da manhã e fui cumprimentar a minha equipa de sala em sala como sempre faço, ia cantarolando, sem me aperceber, uma cantiga do Padre Borga. Sim, aquele padre do Entroncamento que grava discos e aparece na televisão. Era uma coisa de que não conheço bem a letra, mas cuja melodia fica facilmente no ouvido: Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia…
E, de repente, parei e perguntei a mim mesmo: Mas porque carga de água é que eu estou a cantarolar uma cantiga do Borga? Em pensamento nunca digo Padre. Tentei consciencializar. E consegui.

Entrei no Metro pouco depois das 8:40. Era o trajecto Baixa/Chiado – Cais do Sodré. A carruagem estava muito cheia junto às portas. Dirigi-me para o meio do corredor. Segurei-me ao varão horizontal de um banco. Ela tinha uma idade respeitosa. Os cinquenta já lá iam, por certo. Talvez até os sessenta. Nunca olhei para ela, mas pelo reflexo do vidro pude reparar que era uma mulher muito bem posta, com poucas rugas. O cabelo um pouco ralo. Ia de pé ao meu lado e segurou-se ao mesmo varão que eu. A sua mão, que não ficou a mais de um dedo de distância da minha, rápido deslizou e se encostou. Senti-lhe o calor. Pelo reflexo do vidro vi que olhava muito para mim. Tive o cuidado de não olhar de volta e fui fugindo com a mão, mas a dela foi-se sempre encostando. Até que cheguei ao fim do varão. A mão dela encostou-se e depois, sabendo que a minha estava encurralada, agarrou-ma completamente. E ficou ali, com a sua mão aberta envolvendo a minha. Eu estava indeciso entre o direito de não querer ser agarrado por uma estranha e o facto de não querer parecer rude ou discriminatório por tirar a minha mão daquele aperto forçado. Olhei de novo pelo reflexo do vidro. Ela continuava a olhar-me. Quando chegámos ao Cais do Sodré, eu saí, ela também. Nunca mais a vi. Era cedo. Estava bem disposto e não me apetecia interpretar aquilo. Veio-me à cabeça a cantiga do Borga em reminiscência longínqua, mas presente e, agora que penso nisso, acho que a cantei desde o Cais do Sodré até à 24 de Julho, elevador acima e depois no corredor onde me surpreendi cantarolando Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia…

jpv


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Histórias do Autocarro 28 – É a Vida!

É a Vida!

Eram cerca de 18h da tarde. O 28 ia muito composto mas não estava completamente cheio. Ao aproximar-se de uma paragem, uns dois ou três metros para lá dela, estava um homem nos seus sessenta anos. Fez sinal para o autocarro parar. O motorista parou, mas advertiu:
– Oiça lá, a paragem não é aí. Era ali atrás…
O homem lá entrou com algum custo e o 28 seguiu caminho. Um pouco mais à frente, nem era uma paragem nem nada, era só um semáforo, a luz estava amarela, prestes a passar a encarnado, ainda assim, se o motorista passasse no amarelo, não seria o primeiro em Lisboa a fazê-lo. Acontece que, nesse preciso momento, uma mulher jovem de aspecto muito saudável e atraente, com um vestido de alças, em motivos florais e tons de rosa escuro, decote bem pronunciado, esticou o bracinho, fez um sorriso e foi assim que pediu ao motorista do 28 que parasse. E ele, todo simpático, parou a viatura e deixou a beldade entrar em pleno… semáforo! Nem paragem por perto.

Lá dentro ia um velhote ao meu lado, agarrado ao varão, com um bigode branco e farfalhudo e as rugas a sulcarem-lhe a pele. E falou num tom conformado e encolhendo os ombros naquele gesto de não há nada a fazer:

– O que é que você quer? É a vida!

jpv


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Frutaria Original

O que está na imagem parece uma enorme árvore. E é. Mas não só. É uma frutaria sazonal que existe em Torres Novas e desde o final da Primavera até ao princípio do Outono nos oferece frutas e legumes caseiros, produzidos pelo próprio. A árvore foi plantada em 1982 e oferece uma sombra soberba. É lá que compro as melancias enormes que fazem a delícia de toda a família. Como dizia Manuel Laranjeira, “Portugal tem coisas dignas de muita simpatia.”


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Inquilinos

Eu tenho uns portões de garagem com automatismo de abertura. Nunca deixo os portões completamente fechados, ou seja, descidos até abaixo, para os cães poderem entrar e sair de noite. Pelos vistos não são só os cães a entrar. Há umas semanas reparei que um passarito se refugiava na garagem. Achei piada, mas não suspeitei que ele estivesse a fazer… família! Ontem ouvi um piar famélico, procurei o som e dei com um ninho cheio de passarinhos em cima, precisamente, do motor do portão!

Não sei como é que não caem porque, sempre que se abre ou fecha o portão e o motor trabalha, há uma trepidação forte no mesmo. Enfim, lá deixarei os inquilinos na sua paz sempre à espreita de os ver sair e tentar fazer uma foto… Por enquanto, decidi não cobrar renda!


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"Com Amor," – Documento 33

Caro Eduardo,

Há pouco tempo atrás, há meses, talvez até há semanas, tê-lo-ia repelido. Teria sido seca, amarga, ou pior do que tudo isso: indiferente. Acontece que ando a reconciliar-me com a vida, ou ela comigo, e ando mais desperta para as surpresas e imprevistos que possam suceder-me. Por vezes basta cruzarmo-nos com alguém que nos altere a perspectiva, que nos faça, com poucas e sensíveis palavras, olhar as pessoas e as situações de outra forma e todo o curso da nossa existência se altera. O Eduardo encontrou-me exactamente na fase em que estou reolhando a vida e os homens nela.

Viu elegância em mim, confessa. E sabe que vi em si? Delicadeza. Uma intensa e genuína delicadeza que já não é deste tempo. Nas palavras. Nos gestos. E no olhar. Havia delicadeza até na forma como se movimentava. Agradeço-lhe por isso. Quanto ao seu inusitado gesto, à sua ousadia, até o facto de o considerar inusitado é pouco comum. Muitos homens não medem as distâncias e fazem abordagens incorrectas e indelicadas. O Eduardo foi ousado, sim, mas nunca desrespeitoso. E isso marcou a diferença. Gostei de o conhecer, sabia?

Claro que nos escreveremos. Não o estamos fazendo já?

Até já!
Verónica.

Ps: pagou o café!


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Publicidade – Mais Old Spice

Caros leitores,
ainda ontem fiz um post sobre a campanha publicitária da Old Spice, “Homem que é Homem”, e hoje, assim que entro no Metro, deparo-me com o jornal “metro” e uma nova e interessante frase daquela marca. Aqui fica a dita e o respectivo comentário.

Ora bem, em primeiro lugar não se diz cueca. Diz-se cuecas. Cueca é exactamente um termo do universo feminino muito usado na versão cuequinha. Em segundo lugar, os boxers são uma coisa de homem e não estão abrangidos. Em terceiro lugar foram lamentavelmente obliteradas as formas trusses e mesmo ceroulas que, sendo uma outra peça de roupa, é bem máscula. Ainda me lembro do meu avô…
Por fim, meus amigos, aquilo que está errado nesta publicidade… é que Homem que é Homem não usa roupa interior. Usa nada! Percebem? A verdadeira masculinidade está na coragem de enfrentar o universo em contacto directo com a fazenda, bombazina, sarja, ganga da calça!
Enfim, tragam lá de volta o Old Spice das ondas a rebentar, dos veleiros, do windsurf e do som inconfundível dos Carmina Burana… isso é que é de homem!


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Publicidade – Homem que é Homem

Os frequentadores deste blogue sabem do gosto que tenho por publicidade. Sobretudo quando é engenhosa, espirituosa, simples, interessante, eficaz… Nessas alturas, chamo a atenção para alguns anúncios, cartazes, o que quer que seja que tenha espírito criativo.


Pois, amigos, esta não tem nada disso. É só preconceituosa e sexista, mas, verdade, verdadinha, captou a minha atenção. Trata-se da campanha que a Old Spice colocou estes dias no jornal “metro” intitulada “HOMEM QUE É HOMEM”


Seguem uns comentariozinhos junto às fotos…

Primeira regra: sempre que quiseres vender um produto, conota-o com o consumo de bebidas alcoólicas! De resto, em termos de saúde e qualidade de vida, todos sabemos que vale mais uma cervejinha do que um sumo… digamos, natural!

Claro que apanhar fruta é para fraquinhos e mulheres frágeis e indefesas. Por exemplo, qualquer um consegue fazer nas calmas doze horas ao sol a apanhar fruta. Depois, sejamos honestos, é muito melhor fazer a linda figura de abanar uma árvore a ver se a fruta cai… Quem escreve isto já esteve no campo?

E, por fim, a cereja no topo do bolo. Toda a gente sabe que os gatos são TODOS uns fofinhos, nem arranham, nem se defendem, nem nada. São só FELINOS! E, claro, o Pit Bull é mesmo um malvado que não lambe as mãos do dono… De resto, cães para gajos e gatinhos para as meninas!!

Amigos leitores, não levem nada disto a peito… eu achei muita piada às frases, a sério, e percebo que são metáforas que apelam ao espírito do Old Spice, blá, blá, blá… mas, aqui para nós, dá que pensar tanta testosterona embrutecida num anúncio só… quer dizer, em três anúncios! Eu cá acho que homem que é homem bebe o que quer, vai à fruta como lhe apetece e tem os animais de estimação de que gosta… sem rótulos. E, já agora, perfuma-se com o que lhe dá na gana, nem que seja Old Spice!


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"Com Amor," – Documento 32

Cara Senhora,

Permita-me que a trate pelo seu nome próprio. Gesto invulgar, por certo, não mais invulgar do que a forma como nos conhecemos.

Perdoe-me o atrevimento. Sou um homem respeitador. O gesto que tive para consigo é, a todos os títulos, inusitado. Há uma verdade, um reduto último de defesa pessoal, de justificação para a minha ousadia: não resisti à sua elegância. E perdoe-me, de novo, se lhe não falo de beleza. Não questiono. Contudo, a beleza insere-se na esfera da arbitrariedade do gosto. A elegância não. Ou se tem, ou não se tem. E a Verónica tem elegância, uma fina elegância no porte, uma presença distinta.

Quando a vi no café, julguei estar enganado, julguei não ser possível, uma mulher com o seu porte e a sua presença estar desacompanhada e veio-me aquele impulso de sorrir-lhe, de cumprimentá-la de conversar consigo… já não sei se lhe paguei o café… espero que sim… Verónica… penso que podemos conversar… gostaria imenso de corresponder-me consigo e agora com estas tecnologias fica tudo mais acessível e rápido.

Com deferência,
Eduardo Luís dos Santos