Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Mails para a minha Irmã vai de Férias!

Caros Leitores e Amigos,
Após mais um ano de grandes desafios e muito trabalho, Mails para a minha Irmã vai ter as suas merecidas férias.
Até 20 de Agosto não haverá postagem. A partir daí algumas coisas residuais.

A partir de Setembro estaremos de regresso em força e com tudo o que vos faz cá voltar: terminaremos o romance em curso – “Com Amor,” – contaremos todas as histórias do quotidiano, poesia, citações, música e… claro, o 1º almoço do Clã do Comboio!

Para aqueles que estiverem de férias, fazemos votos para que sejam fantásticas. Para os que estiverem em trabalho, desejamos sucesso.
Até já!
jpv


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O Clã do Comboio – O SuperPicas

O SuperPicas

[Texto Removido Pelo Autor]


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O Clã do Comboio – A Invasão

A Invasão

Saída tardia do trabalho. Já só foi possível apanhar o regional das 20:48. Em casa, só lá para as 23h. A viagem decorria com normalidade. À minha frente um jovem a ouvir música com headphones. O som ia num volume tal que era quase como se os não tivesse. Não é que não me incomodasse um pouco, mas deixei-o curtir o seu som em paz. Para mim, a paz dos outros também é importante. Mais à esquerda, um senhor nos seus setenta e muitos, fato de fazenda verde-água, camisa branca e gravata em verde seco, um pouco mais escuro que o fato. A contrastar com o seu vetusto aspecto, uns headphones. Não se ouvia nenhum som, mas o velhote cantarolava um fado da Amália a pulmões cheios sem a consciência de que ia a cantar para nós e não para o universo dos seus tímpanos. Comoveu-me a coragem dele para se adaptar às tecnologias. Mp3, música em suporte digital, headphones, botões para dominar… por Amália vale tudo. Decidi não ir ao blogue dele criticá-lo. Em primeiro lugar porque não sei se tem blogue, não tenho essa sorte. Depois e mais importante, porque a felicidade dele, o seu direito à Amália, também são importantes para mim. Mas, como os leitores já vão sabendo, eu sou um tipo esquisito.

Ia entretendo a alma nestes pormenores tardios quando reparei num estranho, sequencial, crescente, pormenor. Pormenor a princípio, com o passar dos minutos ficou bem evidente!

Uma pessoa levantou a mão e deu uma chapada em si mesma. À volta olharam como se ela não batesse bem. Mas, um dos que olhou, passado um pouco, deu uma palmada na perna. Mais ao fundo, um homem deu com o jornal na parede lateral do comboio, depois uma rapariga agarrou num caderno e deu com ele nas costas de um banco, depois, por toda a carruagem, os passageiros tentavam afanosamente e com tudo o que tinham à mão matar… melgas! Uma nuvem delas invadira o comboio.

Quando o picas passou, perguntei:

– Então o que é que foi isto?
– Foi uma invasão de melgas. Nos dias em que não há vento, quando paramos ali em Alverca e abrimos as portas, elas entram num repente. Não há nada a fazer. Só se não abríssemos as portas e se houvesse alguém para entrar, então abriam-se. Mas não se pode. São as regras.
Ao fundo, um homem ainda disse:
– A CP devia fornecer insecticida.
O revisor riu-se e respondeu:
– Só se fosse um extintor de insecticida…
E eu pensei cá para comigo e com o meu cansaço:
– É melhor não, é melhor não…


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O Clã do Comboio – Carta à Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia

Carta à Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia

Cara Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia,

Venho em missão de paz. Nem podia ser outra a missão, dado que o Clã é um grupo de amigos perfeitamente informal e pacífico. Em Outubro passado, nenhum de nós se conhecia! Ora, com o passar dos dias e dos quilómetros, começámos a conversar e descobrimos que temos coisas simples em comum: olhamos a vida com positivismo e esperança, gostamos de conversar, adoramos uma boa gargalhada e andamos de comboio. Todos os dias! Foram estes ingredientes, e não outros, que nos juntaram e, fique claro, o Clã não tem chefes, nem líderes, nem proprietários. Quem vier e gostar de conversar e de rir-se, é sempre bem-vindo e tem os mesmos direitos e deveres dos outros: o direito e o dever de viajar em regime de partilha, de boa disposição e de conversa animada. Isto inclui, naturalmente, a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia.

Sabe, Titi, o Clã não é, nunca foi, provocatório. Nada se faz que não seja espontâneo, que não nasça naquele momento. Para ser provocatório, teria de ser reflectido e o Clã do Comboio, para reflectir, já tem o trabalho ao longo do dia e o estudo que isso implica. Seria preciso que alguém tivesse um ego muito grande, tão grande que achasse que estava no centro do Universo, para pensar que o Clã do Comboio pensava em provocar esse alguém. Jamais! Somos demasiado espontâneos e bem dispostos para pensar em provocações. Em certa medida, até somos um bocadinho egoístas. É que nos divertimos uns com os outros e isso basta-nos.

A Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia não precisa preocupar-se com as Raves Móveis. Como tudo no Clã, foi um episódio espontâneo e esporádico. Isto não quer dizer que um dia destes não se cante o “Parabéns a Você”, mas, mais uma vez, será espontâneo e esporádico e jamais para agredir ou provocar alguém.

O Clã é composto por gente mais expansiva e por gente menos expansiva, alguns primam até pelo silêncio porque gostam e preferem ouvir os outros, mas há uma coisa de que não abdicamos, nunca, do nosso direito a uma boa conversa e a uma boa gargalhada. Sabe, é que todos no Clã já percebemos que um dia destes vamos a enterrar e o breve tempo daqui até lá tem de ser gasto em energias positivas e em caminhos de Luz. Não podemos, nem queremos, obrigar ninguém a ser bem disposto, mas não abdicamos da nossa boa disposição. Raves à parte, claro!

Cara Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia, não vá por aí, por esse caminho obscuro das palavras veladas por trás de comentários escondidos no conforto do anonimato. O Clã não deve, logo, não teme. É por isso que anda de cara destapada e cabeça erguida. Por outro lado, vocês sabem quem somos e sabem que nós sabemos que vocês sabem quem somos. E nós sabemos quem vocês são. E sabemos que vocês sabem que nós sabemos quem são.

Para quê e porquê esse caminho? No extremo, esse é o caminho dos litígios e desentendimentos que leva os homens ao espectáculo degradante da guerra. E, como já foi dito, nós somos gente de paz. Não queremos mal a ninguém. Não é essa a nossa forma de estar.

Cara Titi, não direi que seremos todos amiguinhos no futuro, mas, para que fique clara a boa intenção deste texto, está convidada a viajar connosco um dia destes. E traga os seus amigos. Vai ver que se diverte. Mais: não quer vir ao nosso almoço? Sabe, para fazer parte do Clã não é preciso nenhum ritual satânico de iniciação. Basta andar de comboio regularmente, ser bem disposto e gostar de conversar e isso a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia já é e já gosta!

Como é que eu sei? Básico. Já a vimos conversar e já a vimos rir e, Raves à parte, achamos que é capaz de ter umas histórias interessantes para contar… Como é que eu sei? Puro palpite. Mas olhe que o Escritor é bom a palpitar!

Cara Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia, o espontâneo, simpático e de quando em vez incomodativo Clã do Comboio deseja-lhe… Boa Viagem!

O Clã do Comboio


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The Daffodils

The Daffodils

I wandered lonely as a cloud
That floats on high o’er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the Milky Way,
They stretched in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced, but they
Out-did the sparkling leaves in glee:
A Poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed—and gazed—but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.

William Wordsworth


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O Clã do Comboio – Rave Móvel

Rave Móvel

Não fosse dar-se o caso dos elementos do Clã serem muitos e todos pagarem religiosamente as suas assinaturas mensais, vulgo passes, e seríamos todos expulsos do comboio! O que não quer dizer não venha a acontecer por via da força uma vez que a Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia anda a pensar que somos incomodativos. Talvez até sejamos, mas, cara Titi, não há forma de exercer livremente o companheirismo, a camaradagem e a boa disposição sem se incomodar um bocadinho… em todo o caso, fica prometido que tentaremos acalmar os ânimos…

Vem isto a propósito de quê? De quase nada. Nos últimos dois dias, alguns elementos do Clã têm feito uma autêntica “Rave Móvel” em pleno comboio. Entenda-se por “Rave Móvel” tocarem a mesma música, em simultâneo, em todos os seus telemóveis. E a música até é bem agradável. É uma coisa chamada SoulStorm de um tal Patrice. Íamos todos tranquilos quando o Rapaz do Fato Cinzento se lembra de pôr o telemóvel dele em altos berros com aquilo a tocar e a acordar a carruagem toda. O VM, que é um invejoso, também quis brincar e, em menos de nada, meia dúzia de adultos todos a rondar os quarenta, ou com mais do que isso, estavam a ver se o Bluetooth funcionava. E, para infelicidade da Titi, funcionou. Depois foi vê-los a curtir a música à brava. Acho que aquilo vai ficar como uma espécie de hino do Clã. O Escritor não conseguiu emparelhar com ninguém e por isso não pôde brincar. Mas só por isso. Está claro que no dia seguinte já não era para se repetir a brincadeira para não se prejudicar o aparelho auditivo da Titi, acontece que a Mamã das Duas Crianças não tinha vindo no dia anterior pelo que foi necessário transferir-lhe os ficheiros por Bluetooth e deixá-la brincar um bocadinho. A Titi deve ter feito queixa ao Picas, mas teve azar porque o Picas ia a curtir o som. Em meio deste processo ouviu-se um pequeno diálogo que, não fosse o contexto, poderia ser muito complicado:

Mamã das Duas Crianças: Atão?
Rapaz do Fato Cinzento: Tens o equipamento ligado?
Mamã das Duas Crianças: É preciso muito tempo para emparelhar contigo!
Rapaz do Fato Cinzento: É boa a música. É melhor que os Santamaria!
Mamã das Duas Crianças: Esta música é fixe mas se eu fosse homem ia mas é ver um concerto do Tony Carreira…
Rapaz do Fato Cinzento: Porquê?
Mamã das Duas Crianças: Então, porque aquilo é só mulheres loucas com os marmelos a abanar!
Rapaz do Fato Cinzento: Eu vou ser vendido, eu vou mesmo ser vendido.

Ai vais, vais! E crucificado em praça pública! E sabes por quem? Por aquelas pessoas daquela etnia de que tão mal disseste no outro dia…

Claro que o momento ia propício a uma das habituais loucuras do Clã e ela não se fez esperar. Em plena “Rave Móvel”, a Rapariga do Riso Fácil nunca largou o seu Hamlet de Shakespeare. Não é que fosse a ler, mas dava bom aspecto. Foi então, uma vez que se trata de uma peça de teatro, que decidimos improvisar uma pequena representação. O Rapaz do Fato Cinzento fez de Hamlet e tentou engrossar a sua voz suave, a rapariga do Riso Fácil fez de Espectro e o Escritor fez de Rainha com direito a vozinha de cana rachada que parecia mais um homem com os copos do que uma voz feminina… mas a coisa correu bem, sobretudo porque, de cada vez que um acabava uma fala, tinha de passar o livro ao do lado para ele poder dizer a dele. Tudo muito natural, portanto. A Titi e sua Excelsa e Simpática Companhia continuou a criticar, mas menos. Temos a sensação que o que a incomoda mais é a música. O resto, se for só parvoíce, não é tão problemático. Ia uma moça ao lado do Rapaz do Fato Cinzento a rir-se muito e o Escritor disse-lhe para ele lhe dar qualquer coisa para ela limpar as lágrimas do riso e ele estendeu-lhe a gravata.

Escritor: A gravata?
Rapaz do Fato Cinzento: Sim, qual é o problema? Também a uso nos restaurantes.
Escritor: E não se suja?
Rapaz do Fato Cinzento: Não. Eu uso esta ponta estreitinha que vai escondida aqui atrás!

Essa moça e uma outra que trabalha em Torres Novas e tem as formas muito generosas ficaram leitoras do blogue. O que quer dizer que as suas vidas nunca mais serão as mesmas! A Senhora da Revista de Culinária entrou em Santarém a rir e saiu no Oriente a rir. Deve ter um problema qualquer nas glândulas. A Rapariga com Brinco de Pérola foi todo o caminho a ler, nem um sorriso esboçou. Tudo normal, portanto. O Clã? O Clã está bem e recomenda-se… mas com pouco barulhinho… shiiiiuuuuu…


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Amy

Não sou muito destas homenagens. Nem isto é uma homenagem. Não sou muito de ler e acompanhar as loucuras das estrelas do cinema ou da música. Mas sou duma coisa: sou de gostar de boa música, de reconhecer uma boa voz. Eu não acho que com a morte de Amy Winehouse se perdeu um prodígio, mas acho que se perdeu uma voz poderosa, de encher uma alma e reconfortar um coração. Disso sentirei falta!
Fica aqui um dos momentos mais interessantes de Amy: “You know I’m no good”. Yes you were, babe, yes you were!


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O Clã do Comboio – Um Mundo à Parte

Um Mundo à Parte

Era um comboio de fim de tarde com o sol a amarelecer os vidros. O comboio circulava ensonado e repetitivo nos ruídos das engrenagens. Estava só. Mais ninguém do Clã.
Ela viajava um pouco mais à frente. Tinha um vestido de pano cor-de-roda escuro com muitas flores que não eram estampadas, mas desenhadas com linhas. Por cima dos ombros um pano de tule aos folhos também cor-de-rosa escuro. O cabelo era loiro, às madeixas, por cima dos ombros e tinha um gancho de lado que lhe dava um ar infantil.
Quando chegámos ao Setil, uma senhora cega agarrou na vareta e deslizou para a porta de saída. Quando passou, ela disse bem alto:
– Eh pá ias aí e não dizias nada. Não te vi.
A cega continuou sem responder. Saiu. O comboio arrancou. Ela virou-se de frente para o vidro do comboio, fixou o seu próprio reflexo e falou para ele:
– Eh pá, nem vi que ela ia ali.
– Pois… eu também não.
Conhecezia?
– Eu não, e tu?
– Eu também não.
Quando terminou de falar com o seu próprio reflexo no vidro do comboio, virou-se para a frente e não voltou a dizer uma palavra até ao Entroncamento. Um mundo à parte!


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O Clã do Comboio – 1º Almoço do Clã do Comboio

1º Almoço do Clã do Comboio.
Pois é. Parece que vai mesmo acontecer. Será um mega-almoço, com muita diversão, um PowerPoint vergonhoso e todas, ou quase todas, as personagens do Clã do Comboio.
As inscrições fazem-se por e-mail para cladocomboio@gmail.com e é obrigatório deixar os seguintes dados:

Nome (obrigatório).
Alcunha do Clã (se tiver).
Nº de telemóvel (obrigatório).
Quantos acompanhantes (máximo de dois além do próprio).
Que contribuição pretende dar para o almoço? (obrigatório. Entradas, bebidas, carne, peixe, sobremesas, etc.)
Após a confirmação da inscrição, cada elemento será informado do que deverá trazer como contribuição para o almoço tendo em conta o que se ofereceu para levar e as necessidades.
Dados do Almoço:

Local: casa do Escritor (será fornecido croqui após inscrição – concelho de Torres Novas).
Data e hora: sábado, 17 de Setembro, 11 horas (hora de chegada).
Prazo limite de inscrição: até ao dia 11 de Setembro inclusive. Publicação de lista de participantes a 12 de Setembro e respectivas contribuições.

—————————————
Organização: O Escritor e a Rapariga do Riso Fácil.
A organização reserva-se o direito de admitir ou recusar quaisquer inscrições.
À organização cabe a última palavra em relação às contribuições de cada elemento inscrito para o almoço.
Quaisquer situações omissas, a organização resolverá como entender e recorrendo à discricionariedade absoluta.
A lista de inscrições irá sendo adicionada a este post.


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O Clã do Comboio – Etnias

Etnias

Na última história do Clã do Comboio, eu escrevi, a certa altura, que, ou me enganava muito, ou o Rapaz do Fato Cinzento ainda ia dar que falar. Pois, já deu. Eu reconheço o potencial das pessoas. Eu sei quando vive num homem de fato cinzento um tipo que gosta de dar barracada! Mas, uma coisa é verdade, quando é para dar barracada, ao menos que seja em grande. E foi. Comecemos pelo princípio.
Segunda-feira. 7:18 no Entroncamento. Assinala-se o regresso de férias da Rapariga com Brinco de Pérola. Assinala-se a chegada atrasada da Mamã das Duas Crianças que tem o marido numa comissão no estrangeiro. Chegou mais tarde do que a Rapariga do Riso Fácil e isso é difícil. Entrou esbaforida, sentou-se sorridente, fez com as mãos um sinal de coelhinha saltitante e disse:
– Ele já cá está, veio no sábado.
– Então e isto são horas?
– Agora é sempre a aproveitar até ao último minuto!
Lá demos os bons-dias uns aos outros, retomámos conversações sobre o trabalho do Rapaz do Fato Cinzento após termos reparado que ele tinha rapado a tentativa de barba que trazia na cara. E foi então que ela se deu. Ele já havia confessado que tinha um trabalho ingrato que não identificaremos por razões óbvias: há que protegê-lo dele mesmo! Enfim, ele lê e analisa uns contratos e depois chama a atenção para as letras miudinhas que ninguém lê e lembra às pessoas que quando elas assinaram as letrinhas que vieram tramar tudo já lá estavam. E foi por isso, por irmos a comentar esta circunstância, que se deu a pequena conversa que se transcreve com pouca corrosão:

Escritor: Então e nunca foi ameaçado?

Rapaz do Fato Cinzento: Já fui já, muitas vezes. Uma vez até me fizeram uma espera. Foram uns ciganos. Os ciganos são tramados. Puseram-se à minha roda, cercaram-me e queriam-me roubar o processo das mãos. Os ciganos são tramados.
Rapariga do Riso Fácil: Pois, eles quando se juntam vem a família toda…
Rapaz do Fato Cinzento: É verdade é… puseram-se ali de volta de mim e já não me queriam deixar ir embora com o processo. Os ciganos… ui… são mesmo tramados!
Por esta altura a Mamã das Duas Crianças parecia que estava com espasmos. Abria muito a boca, arregalava muito os olhos, fazia sinais com as mãos e eu não percebia nada do que ela estava a tentar comunicar e foi por isso que resolvi esclarecer:

Escritor: Mas olha lá, o que é que tu queres?!

Mamã das Duas Crianças: VAI ALI UM!!!
E ia. Era um sujeito de etnia cigana, sentado três lugares mais à frente na mesma correnteza de bancos em que ia o Rapaz do Fato Cinzento. E eu fiz-lhe uns sinais do tipo Olha que te cortam o pescoço e ele olhou para lá, fez-se lívido, olhou para o chão, procurou um buraco e como não havia disse com grande elegância:
– E se mudássemos de conversa?!

A risota não podia ser maior. Ele tinha-se enterrado completamente e ainda só sabia da missa a metade. A outra metade íamos-lhe contar a seguir por sms! Após este episódio, entrou o VM em Santarém. Vinha com a Senhora da Revista de Culinária. Acho que estavam os dois a discutir as vantagens e desvantagens da salada de gambas thai e das vieiras recheadas. Ele percebeu que estávamos na galhofa e antes que cometesse o mesmo erro, resolvi enviar-lhe uma sms a contar o sucedido. E foi essa mesma sms que enviei ao Rapaz do Fato Cinzento para ele ficar a saber a outra metade da missa. É esse singelo textinho que aqui vou transcrever:

Ele começou na brincadeira
por causa do trabalho dele.
Eu perguntei-lhe se nunca
tinha sido ameaçado. Ele disse que sim,
por ciganos, e começou a dizer mal
dos ciganos, até que a Mamã das Duas
Crianças lhe conseguiu dizer que ia aí um.
O que está atrás de ti. Entretanto, o que ele
não sabe é que a Mamã das Duas Crianças
é casada com um!!!
O VM tirou-lhe fotos antes de ele começar a ler a sms, durante e depois. Ele ficou tão atrapalhado que só conseguia dizer Isto hoje correu muito mal… E depois, para desanuviar a coisa, trocámos umas ideias sobre a experiência gastronómica do VM com as vieiras recheadas e a salada de gambas thai. Por entre dentes, lá o fomos avisando que era desta que ele aparecia com as rótulas partidas. Ele ria-se, mas acho que era um riso um pouco amarelo. Ora, quando chegámos a Vila Franca de Xira, o homem de etnia cigana saiu e foi à sua vida e nesse momento a viagem teve a sua pièce de resistence. Foram duas frasesinhas que o Rapaz do Fato Cinzento trocou com o VM:

Rapaz do Fato Cinzento: Ufa, desta já me safei!

VM: Qual quê? Ele saiu para ir avisar os outros e agora fazem-te uma espera no Oriente!
Uma coisa é verdade, quando o Clã do Comboio chegou a Lisboa ninguém se lembrava que era segunda-feira, todos levavam um sorriso nos lábios e um brilhozinho de esperança no olhar. Está bem, todos, todos, talvez seja exagerar. Era capaz de haver um com um ar mais apreensivo. O certo é que se confirmaram as minhas suspeitas. O Rapaz do Fato Cinzento é mesmo um companheirão, tem uma grande capacidade de auto-crítica e sofrimento e foi logo ali convidado para participar no primeiro almoço do Clã. É que quem supera uma prova de fogo como a dele tem mesmo de ser reconhecido… Muitas histórias se esquecerão, mas o dia em que o Rapaz do Fato Cinzento se queixou de ter sido cercado por ciganos no meio de uma família deles… esse dia ficará para sempre na memória colectiva do Clã. Ou isso, ou as vieiras recheadas!