Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Envelhecer

Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glória, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores
Mas lavra ainda e planta o teu eirado
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! o teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude.

Bastos Tigre


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O Clã do Comboio – Reencontro

Reencontro
É oficial. estou velho. E gordo!

Apareceram na plataforma uns indivíduos novos. Novos na idade e novos no facto de não serem costumeiros na plataforma. Eram dois.
Um deles era baixo, tinha o cabelo comprido, arredondado à volta da cara e a dar-lhe por cima do ombro mas sem lhe tocar. O ar cansado, a barba por fazer. roupas práticas para o trabalho. O outro era alto. Barbinha feita e um ar menos cansado. Com entradas suficientes no couro cabeludo para dizermos que é careca ou para lá caminha. E lá entraram no interregional das 7:18 e lá foram a conversar um com o outro e com outras pessoas da carruagem. Sobretudo o baixinho da barba por fazer. Não os conheci nem os reconheci. Mas há um momento para tudo na vida e acontece que a determinada altura da conversa, o baixinho da barba por fazer abriu muito os olhos, fez um sorriso e abanou a cabeça num trejeito, assim como quem ajeita o cabelo sem lhe mexer. O sorriso, confesso, não lho conheci, mas o brilho no olhar e, sobretudo, o trejeito com a cabeça fizeram-me olhá-lo com mais atenção. Não precisei olhar muito. Tirei os phones dos ouvidos e disse-lhe:
– Bom dia.
Ele respondeu de forma muito educada e quase contrastante com o aspecto, numa voz suave e composta:
– Bom dia.
– Sabe, você foi meu aluno para aí há uns 20 anos.
– Acho que não. Não o reconheço.
– Eu sou professor em Alcanena.
– Eu nunca estudei em Alcanena.
– Peço desculpa, devo ter feito confusão.
E aqui fiz aquela figura ridícula que sempre fazemos quando confundimos alguém com outrem. A minha viagem estava condenada e a minha reputação de excelente memória tinha acabado de sofrer um duro golpe. Acontece que até à morte há esperança e o moço, conversador, quis acrescentar qualquer coisa ao diálogo como que a honrar as suas próprias memórias ou a buscar um laço entre nós que mantivesse a chama da conversa acesa:
– Não tenho nada a ver com Alcanena, excepto que conheço um professor de lá, um excelente professor, talvez o senhor o conheça, chama-se João Paulo Videira.
– O João Paulo Videira sou eu!
– Ena pá… é mesmo! Você está gordo! Nem o reconhecia. Mudou as feições.
– Já estive mais…
– Você foi meu professor em Constância!
– Isso foi há 18 anos. Não errei muito.
– Olhe aquele ali é o Tó.
– Pois é! Estou mesmo velho. Já tenho alunos carecas!
O Tó riu. Rimos todos. Lembro-me muito bem deles. O baixinho da barba por fazer na altura não tinha barba. Tinha uns 12 ou 13 anos. Era uma criança muito activa, irrequieta mesmo, mas nunca foi mal educado. Pelo contrário, era aquele tipo de miúdo cordato, extremamente educado, mas que não parava quieto. Já na altura balançava o corpo ao andar e fazia um trejeito com a cabeça para consertar o cabelo. Tinha um brilho no olhar que transparecia esperança e boa disposição.
O Tó, agora a caminhar para careca, era diferente. Sempre foi um miúdo mais tranquilo, mais pacato, de evitar confusões, mas sempre foi, também, mais teimoso. Convencê-lo de que tinha de contrariar-se era muito difícil.
E agora, já não são personagens antigas da minha memória. São dois homens a caminho do trabalho no interregional das 7:18.
Estou mesmo velho. E, pelos vistos, gordo!


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Nota Mental

Ninguém nos obriga à força àquilo que interiormente não queremos. Até podemos fazê-lo, mas a negação interior estará sempre lá. E o preço a pagar por ela é demasiado elevado.


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O Duelo

Era uma vez um lorde que se zangou com outro. Já não sei bem a propósito de quê. Acho que tinha a ver com umas questões de terrenos e extremas e medidas e violações das ditas. E esse problema invocou querelas antigas. E o lorde, ferido no seu orgulho, certo de que estava coberto de razão, senhor da sua verdade, manipulador dos seus juízos de valor, marcou a sua posição e fez as suas exigências. O outro, assim lhe chamaremos, não cedeu. Não concordou. E não lhe satisfez as exigências. Tinha razões que só a ele assistiam e assistia compreender. Ora, não fosse o caso ficar em impasse e a honra manchada, o lorde esbofeteou o outro com a luva branca da palavra e desafiou-o para um duelo que, por duelo ser, acabaria com a morte de um e poria fim à querela. O outro revoltou-se todo por dentro. Não lhe parecia necessária tão radical solução, mas aceitou. Preparou a alma para o durante e o depois. Rearranjou e perspectivou a sua vida de acordo com todas as consequências possíveis do duelo. E treinou-se. Treinou a posição de partida com o braço levantado e a pistola na mão virada ao céu, treinou os passos a dar, quando virar-se, quando esperar o disparo do outro, como encarar a bala dele, quando fazer o seu, a firmeza da mão, a força no premir do gatilho, a pólvora a salpicar a vista, o que fazer se sobrevivesse, como tratar a viúva do adversário, os filhos, como apoderar-se das terras e dar-lhe amanho e cultivo. E, nos poucos dias que decorreram entre ser desafiado e apresentar-se a duelo, o outro mudou por dentro, fez-se um homem diferente e olhou para o mundo de diferente forma. Aparelhou o coração e fortaleceu a mente para apresentar-se a duelo.

Quando os padrinhos exibiram as pistolas numa caixa de madeira exótica forrada a veludo no interior, o lorde exclamou:

– Afinal, já não quero o duelo, não foi nada assim tão grave, vamos ser vizinhos e amigos como sempre fomos.

O outro ficou parado, especado, à espera do duelo que não pedira mas para o qual aparelhara o coração e fortalecera a mente. E ficou ali. Perdido. Sem saber o que fazer com a pistola que tinha na mão nem com a vida que tinha nas veias. Fizera-se um homem diferente para travar o duelo e já não havia duelo. E foi estranho o que depois aconteceu. O outro tirou uma pistola da caixa. Encolheu o braço e virou-a ao céu. Virou-se de costas para o local onde ainda agora estava o lorde. Fingiu que estava de costas para ele. Foi caminhando e contando os passos. Quando terminou, virou-se tranquilo, esperou o tempo que o lorde levaria para dar o tiro que não deu. Estendeu o braço. E disparou no vazio.

Soube sempre que o lorde lá não estava. Não soube nunca porque travou o duelo sozinho. Soube só que algo em si o obrigara a terminar aquilo para que se preparara. Um homem não aparelha o coração nem fortalece a mente em vão.


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O Clã do Comboio – Não chores!

Não Chores!
Quando o InterCidades de Lisboa para o Porto parou em Vila Franca de Xira, estavam quatro na plataforma. Um idoso, uma mulher nos seus quarenta anos, um homem de idade similar e um menino com cerca de oito anos.
Aproximaram-se da porta do comboio, mas só o homem entrou. Não o vi. Só o ouvi. A eles, vi-os pela janela. Assim que o comboio engoliu o homem, ele deve ter-se virado para a rua, para um último olhar, um último adeus. A criança agarrou-se ao ventre da mãe, abraçou-a como que a pedir que não acontecesse o que estava para acontecer e começou a chorar baixinho. O homem, sem se importar que o ouvissem, gritava bem alto para a rua algo que se ouvia na carruagem toda:
– Não chores, meu filho, não chores!
Nunca falou com nenhum dos outros porque os outros, sendo crescidos, compreendiam o sacrifício da separação porque conseguiam ver para além dela. Mas a criança não.
O comboio arrancou e o homem continuou repetindo em voz alta e sem cessar:
– Não chores, meu filho, não chores!
Quando as portas se fecharam e as pessoas da rua deixaram de ver-se, o homem entrou na carruagem, procurou o seu lugar, atirou-se para cima do banco, suspirou fundo um suspiro de desespero e chorou.
E eu pensei:
– Não chores!


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O Clã do Comboio – O Rómingue

O Rómingue
Há já uns dias que não colhia nenhuma história e hoje apanhei duas. De maneira que são fresquinhas. Esta traduz uma fusão. A fusão cultural e linguística entre a mais profunda ruralidade e o mais recente cosmopolitismo tecnológico. A história é breve. Basta uma descrição e uma tentativa de reprodução de uma conversa de que só ouvi metade. Porquê? Simples. Foi ao telefone e não sei o que a pessoa do lado de lá do aparelhómetro disse.
Era uma mulher baixinha, muito coradinha, cabelito curto, voz trigueira de quem não cala resposta e roupas bem campestres preparadas para o frio. Botas de cano alto em camurça, gastas. Se não falasse como falou, diria que alguém do interior tinha ido ao médico e regressava a casa no InterCidades das 19:30h. Mas a conversa despistou essa possibilidade. Ela e os outros, para aí uns quatro, já contando com o marido, tinham acabado de chegar. E foi assim.
– Tou sim?
– (…)
– Sou. Estamos no treine. Aterrerizámos há pouco.
– (…)
– Em a gente chegando, vamos organizar a nossa vida.
– (…)
– Não senhor, a vida pode esperar.
– (…)
– Não senhor, a gente tem de organizar a nossa vida e visitar os parentes.
– (…)
– Sim, eu sei. É o do talho, não é? A gente aluga um carro de praça.
– (…)
– Não. Não atendi. É que o meu telefone tem uma coisa estúpida que é o rómingue. A gente até por atender paga. De lá para cá é 75 cêntimos mas de cá para lá é mesmo uma coisa estúpida.
– (…)
– É o rómingue.
– (…)
– Beijinhos p’ra vocês. Deus queira que corra tudo bem com o Toino.
– (…)
– Beijinhos p’ra vocês.
– (…)
– Beijinhos p’ra vocês.


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Falta de Tempo

Passei por ti e não vi
Não vi porque não olhei ou,
Se olhei nem reparei no teu olhar
Perdido, vagueando por um passado longínquo
Combatendo o tempo que passa devagar

Falaste para mim mas não ouvi
Ou se ouvi não escutei
As tuas histórias

As tuas histórias que estavam ali
Ao alcance de um minuto de prosa

Mas agora não…
Agora não tenho tempo
Não tenho tempo para ouvir as tuas histórias
De guerras e batalhas
Por pouco mais que meio palmo de terra
Eu sei que foste herói
Foste guerreiro
Foste jovem travesso e menino traquina
Foste um príncipe
Foste um grande rei no teu pequeno império

Amanhã, talvez eu tenha tempo…
Amanhã…

É irónico!
Eu não tenho tempo
Mas… é o teu tempo
Que se está a esgotar

Rosinha


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Parabéns, pai.

Olá Pai.
Não há palavras para expressar a falta que nos fazes.
Não cabe no léxico dos homens, o homem que foste, sobretudo, o pai que foste para nós.
E continuas a ser. O teu tempo e a tua vida não terminaram no dia em que partiste. Estás connosco, sempre. Os teus gestos, os teus princípios, as tuas virtudes e as tuas falhas fizeram de ti um modelo humano que procuramos no quotidiano. Não encontramos a tua presença para abraçar-te, mas sentimos-te connosco sempre.
Se ainda estivesses entre nós, farias hoje anos. Sabes, pai, continuas a fazê-los porque a mãe, a mana e eu continuamos a celebrar-te e a reviver-te e a erguer de ti a memória nas nossas acções. À medida que o tempo passa, vão-me dizendo que estou cada vez mais parecido contigo. Quem dera! Mas não sou capaz de tanto. A mãe continua casada contigo. Acho que ainda não enviuvou. A mana está bem. Tem outra vez a força que lhe conheceste. E eu continuo a reinventar a vida e as palavras em busca de ti e embato com estrondo neste vazio de não encontrar-te no tacto e no cheiro e na voz. E fica-me a imagem do meu guia, da minha segurança e temo. O mundo é um lugar mais inseguro e mais difícil e hostil sem ti. Sinto esta inexorável falta. Por vezes, converso contigo. Espero que tenhas estado atento porque todos os fins-de-semana finjo que te telefono para comentarmos o resultado da Académica. Ficou-me este hábito.
E hoje, um pouco mais do que nos outros dias, lembrei-me de ti e vim oficiar a memória e a força de estarmos unidos mesmo que em universos diferentes.
Parabéns, pai.
Teu rapaz.
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(Father and Son by Mark Knopfler)


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De Negro Vestida – LIII

 

De Negro Vestida – XVII

Vivemos nós, quer queiramos, quer não, e sem teoria que comprove o contrário, na mais absoluta umbilicalidade. E nem há nisto falta de vontade de conhecer o outro ou de ser solidário com ele. Deve-se, simplesmente, ao facto de, para estarmos neste mundo, termos uma existência e a ela vivermos agarrados e dela fazermos depender a perspectiva que vamos tendo do que nos rodeia.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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1-1-11

Pois, não é sempre que pode escrever-se uma data com esta curiosidade: 1-1-11.
Será que vamos ter um ano fundador, iniciático em qualquer plano? Nos planos todos?
Independentemente disso, a Natureza brindou 2011 com águas abundantes e transbordantes. Combinou-se com isso, o facto do meu Bronco permitir passeios pouco usuais uma vez que passa por quase todo e qualquer terreno. Juntamos uma companhia familiar agradável e temos uma manhã do primeiro dia do ano com alguma emoção e diversão.
Como já disse noutras alturas, não é preciso muito para usufruir das coisas mais fantásticas do mundo. A mãe Natureza fornece-as gratuitamente.
Votos de um bom ano. Pleno de realizações. Com riscos, ganhos e perdas que são o sal da vida.
JP