Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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À Flor da Pele


Olhar e ver
Grandes ou pequenas coisas
que nos cruzam o caminho…
Olhar…olhos nos olhos!

Ouvir, escutar e compreender

Palavras, sons ou o próprio
silêncio.

Saborear
O doce, o acre, o sal…

Cheirar, inalar o perfume
O odor
Das flores, do mar, da terra

molhada
Roupa lavada, suor…

Tocar, sentir

Um objecto, o frio, o calor
As mãos de uma criança,
Um corpo,
Um beijo…

Os cinco sentidos
Sentidos…à flor da pele.

Fernanda


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De Negro Vestida – LV

 

De Negro Vestida – XIX

A sacristia é um espaço exíguo nesta igreja que o Senhor arruma-se com facilidade em qualquer cantinho. Há um móvel em madeira escura, alto, onde está uma cruz com o Cristo pregado nela desde que o lá deixaram. Ao fundo, um pequeno rasgo na parede espessa com um vidro baço permite entrar luz mas não os olhares indesejados. Dir-se-ia que o que está para acontecer aqui não é apropriado a uma igreja, menos ainda ao seu recanto mais esconso, a sacristia…

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio – Luz

Luz.
Não me venham com teorias, a luz é a luz.
Os dias estão muito maiores. Já não é preciso chegarem as 7:30 para haver luz. A essa hora o dia já é claro. Quer isto dizer que toda a viagem no interregional das 7:18 é iluminada pelas cores e pelos matizes que a luz empresta à paisagem. Como a lezíria é bonita! Há espelhos de água e há nessa água o reflexo alaranjado e suave da aurora e há o limite das nuvens avivado em riscos definidos de luz e há vegetação a traçar recortes no horizonte.
A primeira consequência da chegada da luz é essa. É a paisagem que emerge do breu adormecido da noite e ganha cor e vida.
A outra consequência vê-se nas pessoas. Dormem. Claro que dormem. Andam cansados das rotinas, do trabalho, das mulheres, dos maridos, dos filhos, das contas, das obrigações, dos impostos, e dormem. Mas não é o mesmo dormir que era em Novembro ou Dezembro. Há mais olhos despertos. Mais pessoas olhando pela vidraça à procura de vida ou pasmando com ela. E há gestos. A carruagem já não é uma amálgama inerte de cabeças cambaleadas e adormecidas. Agora que veio a luz, há um mexer pequenino, gestos por si só insignificantes, mas que em conjunto fazem uma serena sinfonia de não querer ou não conseguir dormir.
É engraçado como as pessoas dormem com a luz artificial e estridente do comboio a dar-lhes na cara sem que esta as incomode, mas se inquietam com o despontar distante de uma aurora rosada.
E hoje veio o astro-rei despontando em bola de fogo.
Ave!


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Bola de Fogo

Bola de Fogo

A bola laranja
Com o fogo a rebentar
Nasceu para me acordar
A esperança e o desejo.
Está prenhe e gorda,
Está farta e enchida,
E traz mais coisas do que calor,
Vê-se bem que vai parir a vida.

E aquece o corpo,
Que é o menos,
E traz luz a esta alma que temos,
E fecunda a terra e o chão,
Emprenha o engenho do Homem.
Enche de luz cada coração.

Estás aí, bola de fogo,
A provocar-me a consciência.
Começas e terminas o jogo
De fecundar e adormecer a existência.

Estavas rasteirinha, ainda agora
E teus laranjas floresceram em amarelo vivo
E em segundos foi-se a aurora
E vivemos, já, um dia de luz festivo.

jpv


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Palavras

Palavras

Não sei como se alivia a dor
Com palavras.
Não sei como se fortalece a alma
Com palavras.
Não sei como se ama um corpo
Com palavras.

Sei só que me resta
Esta vontade de curar-te,
Este impulso de fortalecer-te,
Este desejo de amar-te,
E palavras são só o que tenho.

Não sei.
E esta ignorância
É meu abismo
E minha ponte
E as palavras são meu fim
E minha fonte.
Não sei como faça
Sei só como diga,
Mas dizer-te não basta.

Tenho só estas palavras
Que me não chegam para tocar-te
E é com a impotência das palavras
Que cumprirei o Destino
E o Destino é amar-te.

jpv


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O Clã do Comboio – O "Picas"

O “Picas”
Carinhosamente apelidado de “Picas”, o senhor revisor não é um homem como outro qualquer. É uma instituição.
Como todas as instituições, também o picas sofreu as consequências da evolução dos tempos e das tecnologias. A primeira grande diferença tem a ver com o aspecto. Antigamente, o picas vestia de cinzento e tinha um boné. E era uma entidade anónima. Hoje, continua a vestir de cinzento, mas o fato tem uns vivos verdes que combinam com a gravata e com a chapinha que traz ao peito com o seu nome. O picas deixou de ser anónimo. Agora tem nome ao peito. Para nós, isso interessa pouco porque, quando ele surge ao fundo da carruagem, a frase que se ouve é “Já lá vem o picas”.
Os picas agora têm atitude. Dão os bons-dias, as boas-tardes, as boas-noites e quando alguém vai a dormir, em vez de darem dois berros como antigamente, dão um toque suave no ombro e dizem, “Faz favor…”. Alguns fazem isto com naturalidade. Outros sorriem e vê-se que estão a gozar o momento ao jeito de “Já acordei mais um!” Há os picas altos, baixos, magros, gordos, novos, velhos e embora se esteja a promover a imagem do picas novo e elegante, com ar enxuto e competente, ainda persistem alguns, poucos, dos meus especimens preferidos. Eu gosto do picas baixinho, atarracado, gorducho, sem a gente perceber muito bem onde acaba a barriga e começam as pernas, coradinho e com o olhar desafiante como quem está à espera de um prevaricador para lhe assentar duas mãos abertas à moda antiga. Não sei como é que ele consegue, mas este tipo de picas tem sempre os colarinhos da camisa por cima da gola do casaco e, embora a gravata dele seja igual à dos outros, parece sempre que teve de sobreviver a um processo de maus-tratos para ali chegar.
Antigamente, o picas tinha duas ferramentas. Uma bolsa de cabedal à cintura para as moedas e um furador para picar os bilhetes. Ferramenta esta que, de resto, é a responsável pelo carinhoso apodo de “Picas”. Acontece que agora deram-lhes umas maquinetas cinzentas com um ecrã que parecem um multibanco portátil. Servem as ditas para verificar a validação dos bilhetes comprados em cartão com chip. Modernices. Embora haja cada vez menos bilhetes em papel, o certo é que ainda os há e por isso é vê-los passar nos corredores todos janotas, de fatinho de fazenda, chapinha na lapela, maquineta electrónica na mão e, a identificá-los, o picador enganchado no mindinho. É uma ternura!


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Presidenciais 2011 – Escolha aqui o seu Candidato

É aqui, amigos. Aqui neste blogue e em mais lado nenhum se vai escolher o candidato ideal para vencer as Presidenciais 2011.

Como hoje em dia se faz por tudo e por nada, traçaremos metas e delinearemos perfis. Ora, quanto às metas é fácil porque é só uma: ser Presidente da República Portuguesa. O perfil é que é o diabo! Coisinha difícil. Tenho muita compreensão e até certo dó por quem tem o ousado e corajoso cometimento de ser candidato presidencial. Diz-se para aí que hoje em dia os empregadores são muito exigentes, querem saber tudo, esquadrinhar a vida das pessoas, antes de as contratarem. Comparado com o escrutínio que se faz a um candidato, isso não é nada.

Este blogue facilitará a tarefa a todos os portugueses e portuguesas ou, pelo menos, aos que nos lêem que sempre são cento e picos em dias de vento favorável.

Primeiro requisito. A regra de ouro é que o político que quiser ser Presidente da República não pode ser… político! Que é lá isso agora os políticos acharem que podem fazer política? É uma arrogância, é o que é! Requisito imprescindível para exercer um cargo eminente e exclusivamente político: não ser político.

Segundo requisito. Ser pobre, ter sido pobre, ter amigos pobres, ter conhecido pobres ou, em última análise, independentemente do mais fausto e anafado aspecto, ter um dia passado fome nem que fosse uma laricazinha na fila para pagar o IRS. O nível de importância varia, mas é absolutamente imprescindível ter tido uma qualquer ligação com a pobreza.

Terceiro requisito. Ora, como não pode ser político, o que deve ser o político ideal para candidato à Presidência da República? Exactamente, não sei, mas deve ter uma profissão considerada digna. Tipo, médico, economista, professor universitário… Se a profissão puder estar relacionada com o segundo requisito, tanto melhor.

Quarto requisito. Este é um requisito coerente com o primeiro. O candidato ideal deve manter uma prudente distância em relação ao dinheiro. Acções, então, é fugir delas. Nunca ter tido, ter comprado ou ter vendido acções. E percebe-se. Sabendo nós que a crise é culpa dos bancos, quem tiver dinheiro nos bancos, sob que forma for, é também culpado. Assim, não é desaconselhável ter uma mesada, um dinheirito de bolso, mas acções é que não.

Quinto requisito. Não ter orientação política definida. Não ser de esquerda que é bandalho, não ser de direita que é elitista, não ser neoliberal que é amigo dos banqueiros que fizeram a crise, não ser nada. Ser neutro. E, simultaneamente, perceber muito bem o que são todos os que são alguma coisa.

Sexto requisito. Ser suficientemente inteligente para ser ignorante. Eu explico. O candidato deve ser inteligente e perceber do país e das pessoas e dos mercados e das necessidades e do que é preciso fazer para melhorar isto tudo, mas, ao mesmo tempo, tem de ser um ignorante político. Um tipo que percebe de tudo menos daquilo para que se candidata.

Sétimo requisito. Ter comprovadamente, leia-se, com testemunhas, desempenhado tarefas domésticas. Se não conseguir qualificar para este requisito, pode substituir por trabalho na lavoura ou numa indústria onde tivesse sido explorado. Em todo o caso, as tarefas domésticas pontuam mais na medida em que a maioria do eleitorado é feminino e aprecia uma ajuda na cozinha.

Oitavo requisito. Não ter amigos nem bem nem mal colocados. Sobretudo se derem nas vistas. O candidato ideal deve ter amigos e os amigos devem gostar dele e aparecer nas entrevistas rápidas no jornal da noite mas é fundamental que sejam sempre amigos anónimos.

Nono requisito. Nem ser tão velho que se identifique com o regime salazarista, nem tão novo que não tenha vivido nele!

Décimo requisito. Ter um nome próprio ou um apelido que reflicta a digna humildade do candidato, ou seja, funcione também como adjectivo. Se não tão humilde que sirva para adjectivo, ao menos que dê para nome comum. Não pontua tanto mas também qualifica. Exemplos válidos: alegre, nobre, defensor, cavaco…

Décimo primeiro requisito. Estar muito preocupado com a situação financeira a que os políticos profissionais deixaram chegar a nação e, ao mesmo tempo, defender o abaixamento dos impostos, a subida dos salários e o investimento público.

Décimo segundo requisito. Nunca ter roubado nada a ninguém e saber muito bem quem são e onde estão os que roubam!

Por fim, não como requisito, mas como opção metodológica, o não-político que quiser ser Presidente da República deve dar-se ares de independente e ter um forte apoio político, deve ser educado e acusar os outros candidatos de tudo quanto é coisa e, claro, deve ser sereno e colocar o dedo em riste enquanto fala com a veia jugular prestes a rebentar.

Fácil, não?
Juntando todos os ingredientes, fica-se com uma lusa versão do Tiririca, p’ra melhor não vai, pior não fica!


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Red Nails

Red Nails

As tuas unhas, hoje,
Querem arranhar-me.
Não, não é para aleijar-me.
É só para me marcar a carne
E a alma.
Para me roubar o sossego
E a calma.
Sim, hoje trazes mensagens
Nas unhas de carmim.
Unhas impecáveis
Que devoram a carne de mim.
E os teus lábios têm hoje
Um fino recorte
Onde apetece abandonar à sorte
Esta vida inteira.
Quero passear-me nessa curva suave e fina
Que são teus lábios de mulher e menina.

jpv


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Personagens

Personagens

Não há medida
Para a dimensão da alegria
De andar um homem vagueando
Pela noite escura
E fria.
Andou à tua procura
E queria
Só amar-te.
E estavas sentada,
Recostada na espera e no conforto,
E sorriste à chegada
De seu corpo de desejo,
De seu coração absorto.
E disseste Vem
E o homem na noite
Fez-se teu.
Renasceu.
E houve vida e luz
E músicas no ar
E orações a Jesus
E fez-se uma sinfonia de amar.
E correram
Encarnados sensuais pelo quarto.
E pediste tudo.
E o homem quis dar-to.
Paira um sussurro suspirado,
Um adeus furtivo,
Um beijo atirado.
Ainda agora estava em ti, o homem,
Já agora se anuncia a distância.
Um último olhar,
Um último adeus,
Um último desejar
Morrer nos braços teus.
É isto tão intenso
O que o teu amor produz,
Fica o amor suspenso,
E o homem mergulha na noite sem luz.

jpv


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De Negro Vestida – LIV

 

De Negro Vestida – XVIII

– Não se preocupe, minha senhora, dadas as circunstâncias, está tudo a correr muito bem e tudo continuará a correr muito bem. Encarregue-se de calar a boca ao senhor seu sogro que eu faço o resto.
Maria de Lurdes disse isto em tom suave e discreto e abandonou o local para logo ir garantir que a viagem até ao cemitério fosse organizada e tranquila.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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