Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – Reclamação

Reclamação
Exmo. senhor Presidente do Conselho de Administração da CP
Nós, abaixo assinados, legítimos signatários da presente e mui nobre missiva, vimos, por este meio, apresentar a nossa reclamação e o nosso mais veemente protesto em relação à qualidade dos serviços prestados pela Companhia que V. Exa. dirige.
Não obstante a extraordinária qualidade das composições, não obstante o arzinho condicionado sempre ligado, não obstante a clara e resoluta competência dos “picas”, não obstante o serviço estar dotado de uma pontualidade de fazer inveja aos súbditos de Sua Majestade, a Rainha Mãe, carece o mesmo serviço de uma componente fundamental ao seu equilíbrio, à sua harmonia, ao seu bom-gosto e mesmo à composição imagética e odorífera do ambiente em que quotidianamente viajamos.
Deste modo, sem mais delongas nem escusas, vimos solicitar seja devolvida à 6ª carruagem do interregional das 7:18, primeiro banco da correnteza lateral, junto à primeira porta do lado direito para quem viaja de costas, a mui sensível e composta figura dessa moldura humana que, nos autos deste humilde escriba, dá pelo nome de Mulher Vampiro.
Excelência, os homens andam perdidos e as mulheres também. Eles, porque não têm para onde olhar e olhando colhem somente desilusão e elas porque lhes falta o divinal modelo para seguir e invejar.
Excelência, a desolação assola as carruagens e vai aqui uma sensação de perda e vazio que torna as nossas deslocações e os nossos dias de trabalho numa infinita e paupérrima tristeza.
Sabendo dos excelsos poderes que lhe assistem enquanto Presidente do Conselho de Administração, vimos rogar-lhe devolva a vida às nossas vidas, a inspiração às nossas musas, e mobilize todos os seus esforços no sentido de colmatar esta grave e insuportável falha.
De V. Exa.,
Com a mais elevada estima e consideração, subscrevem:
O escritor, o aluno dele, os três amigos que andam a combinar como salvar o mundo, o militar que sai em Vila Franca, o ceguinho que vê, a generalidade dos homens e mulheres que viajam na 6ª carruagem do interregional das 7:18.
Em 20 e picos de Janeiro
Algures entre Entroncamento e Santa Apolónia


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De Negro Vestida – LVIII

 

De Negro Vestida – XXII

– Queremos tudo do melhor. Não pode faltar-lhe nada. Ao menos agora que lhe não falte nada. Por favor, o meu filho faz as escolhas consigo mas não se poupe.
António da Purificação Martins parecia efectivamente decidido a compensar Maria da Graça em morte pelas faltas todas de uma vida. Inicialmente quisera tratar de tudo sozinho, mas acabara por aceitar a ajuda de Gabriel não só porque precisava dela, mas, sobretudo, para não afastá-lo da mãe. António estava decidido a não cometer os mesmos erros do passado.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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De Negro Vestida – LVII

 

De Negro Vestida – XXI

Uma das batalhas que vimos travando desde que temos esta vida, vivemos neste mundo e esta morte temos, é a batalha de cruzar limiares, de conhecer fronteiras e caminhar sobre elas ou assumir claramente um dos lados. Não é fácil uma opção, como não é fácil a ginástica moral e ética de caminhar em ambos os lados que não é lado nenhum, em cima da linha divisória das ideias, dos conceitos, das práticas, das orientações.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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No

Não estávamos junto ao, nem à beira do. Estávamos no rio!


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Domingo de Manhã

Pai e Filho.
Levantámo-nos. Tomámos o pequeno-almoço. Café com leite, sumo de laranja, pão com queijo fresco e chourição.
Saímos no Bronco e fomos cumprir o nosso dever cívico com cruzes em opções diferentes do boletim de voto. Viva a diferença e o respeito por ela.
E depois fomos enlamear para a Serra D’Aire e Candeeiros. Sorver o brilho matinal do sol, queimar stress num primitivismo lúdico que só o Bronco pode proporcionar.
Depois fizemos umas fotos de telemóvel para testemunhar a loucura.
E, pronto. Já está!





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O Captain my Captain!

O Captain my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weathered every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up–for you the flag is flung for you the bugle trills,
For you bouquets and ribboned wreaths for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchored safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

Walt Whitman


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Invictus

Invictus
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley


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Outro Agradecimento

Desta vez, a todos os leitores de Mails para a minha Irmã.
Pela vossa dedicação e paciência, pela vossa atenção.
Hoje atingimos 14000 visitas que correspondem a mais de 33000 leituras.
Muito Obrigado.


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Histórias do Autocarro 28 – Aconchego

Aconchego

Tal como a anterior, esta história também não é uma história. É um apontamento urbano. Nem indagaremos as razões, nem procuraremos explicações. Limitamo-nos a contar a história e cada leitor fará os seus próprios juízos.

Quando o autocarro 28 parou no Cais do Sodré, não ia muito cheio, mas nessa paragem abarrotou. As portas fecharam com custo. Não havia espaço entre as pessoas, excepto aquele mínimo para que não vamos abraçados uns aos outros. Ao meu lado ia um rapaz aí com os seus 35 anos com o braço no ar a segurar-se na pegadeira o que fazia com que o seu casaco, que não ia abotoado, ficasse com as abas a pender. Lá da frente aqui para trás, onde vamos, veio uma senhora com cerca de 50 anos, cabelo ruivo, arranjado e penteado, calças de sarja branca justas e botas de cano alto, abrindo caminho até chegar junto a nós. Passou por mim e anichou-se dentro das abas do casaco do rapaz, encostou muito o seu corpo ao dele e assim seguiram coladinhos um ao outro. E só não pode dizer-se que iam abraçados porque cada um deles tinha um braço no ar para se segurar e outro estendido com uma pasta na mão. O queixo dela ia por cima do ombro dele. Eu pensei, como outros devem ter pensado, que seriam namorados ou um casal de idades desiguais e que ela viera ao seu encontro. Só estranhámos que não se tivessem falado e que não se tivessem olhado. Ele tentou olhar para ela, mas ela ia com a cara de lado. E, à medida que o 28 evoluía no terreno, ela parecia entregar-se mais a ele, aconchegar-se no calor do seu corpo.

Numa paragem, conforme entrara, ela saiu. O rapaz olhou para nós muito corado e fosse porque tínhamos alguma interrogação no olhar, fosse por sentir necessidade de explicar-se, disse:
– Não a conheço de lado nenhum!
Alguém mais habituado a estas andanças advertiu:
– Veja lá se tem a carteira…
Ele abriu muito os olhos, fez um ar preocupadíssimo, como quem se lembra tarde demais que se esqueceu do fogão ligado, levou a mão ao bolso interior do casaco, fez um ar de alívio e disse:
– A carteira está cá.
Nesse momento, o tipo que o lembrara da carteira encerrou o assunto com piada:
– Deixe lá, foi só o aconchego!

jpv


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Agradecimento

À senhora que hoje me acordou abanando-me o ombro:

– Desculpe, o senhor não sai no Entroncamento?
– Saio sim. Muito Obrigado.
Não fosse ela e o cansaço e o quentinho do comboio teriam espetado comigo em Tomar que era um instante!