Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – Eh pá, deslarga-me!

Eh pá, deslarga-me!
É o mundo que temos. É a sociedade que temos. São os costumes que vamos tendo e a que nos vamos submetendo. A pequena conversa que vou transcrever-vos aconteceu pela manhã de uma segunda-feira sendo que havia estas caraterísticas: o primeiro interlocutor queria muito falar. Acordou activo e dinâmico. O segundo ainda estava no resto do fim-de-semana e queria mais dormir do que falar. Como eram amigos, teve de falar. Acontece que a sintonia era muito… assíntona!
——– Então, já foste ver o Continente?
——– Eu não. Quero lá saber disso.
——– Eh pá, é grande. Tem muita coisa.
——-Não são todos assim? Quando lá tiver alguma coisa para fazer, vou lá. De propósito não vou.
——– Eh pá, mas este está mesmo grande!
——– Pois…
——– Então e o Domingo, como foi?
——– Foi bom. Estive em casa a descansar. Andei por ali, vi televisão, estive com os miúdos. Nem saí de casa.
——– Eu fui ao Lidl!


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O Clã do Comboio – A Mulher Vampiro

A Mulher Vampiro
As pessoas com que entramos para o interregional das 7:18h. não são as mesmas com que saímos. Embora entremos sempre com as mesmas e saiamos sempre com as mesmas. Há vários dias para cá que sai em Santa Apolónia uma mulher vampiro que não sei onde entra.

O título do texto bem como a atribuição à senhora do epíteto “mulher vampiro” podem ser enganadores. Que eu saiba, a senhora não mordeu ninguém. Chamei-lhe assim porque ela retrata, mais do que isso, ela encarna, o aspecto destes vampiros do século XXI que nasceram na literatura romântico-negro-vampiresca que depois passou para o cinema e finalmente acabou nas telenovelas. Há vampiros bons, maus, galãs e heróis, vilãos e horríveis, criminosos e vítimas.

É todo um universo paralelo onde as personagens são como qualquer um de nós mais o pormenor de morderem pescoços e sugarem sangue. Ora, essa tribo tem também suas modas de vestir e pentear. A mulher vampiro foi assim chamada por via do aspecto que a seguir se descreve.

Antes de chegarmos a Santa Apolónia, ela dirige-se para a porta. Gosta de ser a primeira a sair. Sapatos pretos. calças de fazenda pretas ao longo das pernas. Uma camisola de lã preta e um casaco de grossa fazenda… preta. Acima de todo este negrume emerge uma face esguia e longa muito pálida, muito clara, onde brilham olhos intensamente azuis. O cabelo não é castanho nem ruivo. É comprido por cima dos ombros a descair para as costas e está pintado de uma cor fulva que faz lembrar uma labareda. E mais não sei. A não ser que podia estar num cartaz de cinema em vez de viajar no interregional das 7:18h.


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De Negro Vestida – LI

 

De Negro Vestida – XV

Manuel Matos Vasques, o inquieto, nem na morte descansou. A verdade, por estranha que pareça, é que teve de ser sepultado duas vezes antes do eterno repouso. E, mais curioso ainda, duas vezes duas famílias dele se despediram. Duas vezes dois padres diferentes o encomendaram ao Senhor e, por isso mesmo, duas vezes por ele choraram.
Nada há a imputar em sede de responsabilidades ao Senhor que, não só é do universal conhecimento que não erra, como, ainda que tal impossibilidade fosse possível, a este caso se não aplicaria pois se tratou de inequívoco e claramente detectado erro humano. Uma distracção, como sucede na maioria das vezes que um de nós se engana.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio – Perder o Comboio

Perder o Comboio.

Pois é. Acontece. É uma incrível sensação de impotência. E não falo de perder o comboio por meia hora. Falo-vos do seguinte.
Sexta-feira. Véspera de fim-de-semana. O trabalho complica-se um bocadinho. Nem penso no comboio. Quando acabo o que estou a fazer são 18:55h. Há um intercidades às 19:30h. Só falta ir da 24 de Julho até Santa Apolónia. Uma pessoa que tenha passe, como é o meu caso, paga só 4€ por um bilhete de intercidades. Vale a pena. A viagem demora menos. O autocarro chegou às 19:15h. Pensei que tinha perdido o comboio e tirei daí o sentido. Acontece que àquela hora não havia trânsito. Em várias paragens não havia ninguém a entrar nem a sair o que significou não parar. Chegámos ao Terreiro do Paço e são 19:25h. Telefono para casa a dizer que o perdi. Mas daí em diante o autocarro faz a marcha contínua quase sem parar. Só uma paragem na Casa do Conto. São 19:29h. e chegámos a Santa Apolónia. Atravesso a rua a correr. Tenho de comprar o bilhete. Há duas pessoas na fila. A primeira sai. Olho o comboio. Está lá! A segunda tira o bilhete. Ouço um sinal sonoro forte. Tenho o homem da biheteira a perguntar-me:
——– Diga…?
Olho o comboio. Está a deslizar.
——– Não é nada, obrigado.


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O Clã do Comboio – A Mulher que Sofria da Visícula

A Mulher que Sofria da Visícula

Por vezes gosto de escrever os textos limitando-me à reprodução do diálogo. E a razão é simples. A sua riqueza dispensa descrições. Ainda assim, é melhor dizer-vos como era esta senhora.
Uma saia de fazenda cinzenta abaixo do joelho, meias de lã grossa, o cabelo apanhado atrás com um tótó, um casaco castanho claro de fazenda grossa com botões em castanho escuro, óculos, um envelope grande com exames no colo e em cima dele uma mala preta enorme. E falava! Falava com as pessoas que estavam de frente para si como se as conhecesse e explicava-lhes coisas como se lhe tivessem perguntado. A determinada altura, alguém começou a responder-lhe mais para a senhora não parecer tão alucinada do que para saber coisas ou conversar com ela. O marido, pequenino, rosado e cheio, num fato cinzento onde mal cabia, ia sentado ao lado dela mas parecia não ter autorização para falar.
——– Vou ao médico, sabe. Estou muito doente. É a vesícula. Sofro muito da vesícula.
——– Leva exames…
——– Levo, são raios X.
——– À visícula…
——– Não, credo, não se fazem raios X à visícula. É ao torax. O médico diz que esta tosse é esquisita, mas não tenho nada nos pulmões. Tenho esta tosse desde miúda. Já a minha mãe a tinha. Foi de andar no campo. Mas eu sofro é da vesícula.
——– Já fez exames…
——– Já. Tantos! Olhe, ainda há duas semanas me picaram todinha. O médico diz que os ossos estão fracos. Falta de cálcio. Mas não pode ser. Eu sempre fui rija. Foi de ser criada no campo. Sabe, eu sofro muito é da vesícula.
——– Então e os exames?
——– Olhe, inda há pouco tempo fiz um taco. Parece que tenho qualquer coisa na cabeça. Mas não, eles sabem lá… sempre tive boa memória. As coisas que eu me lembro!
——– Mas já te vais esquecendo…
——– ‘Tá calado, homem, não serves p’ra nada. Já a minha mãe tinha boa memória. O meu problema é a vesícula.
——– Então, mas fez exames à visicula ou não?
——– Eu não! Nem preciso. Uma pessoa sente-se e sabe o que tem…
——– E o médico, o que diz da visícula?
——– Diz que não tenho nada, mas eles não percebem nada. Eles agora saem tão novinhos das universidades. Podem lá agora saber, não podem! Eu é que sei o que eu sofro com a vesícula. Trago aqui uma pontada há anos. Se ao menos algum médico me visse isto e me receitasse qualquer coisa… mas a gente às vezes vai ao médico e eles nem um comprimido p’rás dores receitam… não sabem nada.


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Natureza Viva

Este blogue também faz serviço público, nomeadamente, procedemos à publicação de textos de amigos e conhecidos que no-lo solicitem. Outras vezes, deparamo-nos com os textos e pedimos autorização para os publicar aqui. Foi o que aconteceu com este. Ora digam lá que não valeu a pena?
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Natureza Viva
Pela estrada, caminhei energicamente porque o ar estava fresco e, até, ligeiramente frio… Mal deixei de ver as casas e mergulhei na verdura das árvores que ladeavam o caminho, percebi que estava já imersa na mundivivência do bosque e que a floresta me acompanhava. As raras viaturas que passavam pontualmente deixaram de existir. Estava bem agasalhada, mas ainda assim, calcei as luvas, puxei o pelinho do casaco junto às faces para proteger as maçãs do rosto e os lábios do frio, e desci até ao vale, metro após metro…
Por toda a parte, do meu lado da estrada, mais perto, do outro lado ainda, mas bem audíveis, chegavam ao meu tímpano sensível milhentos sons esfuziantes do canto matinal das aves que não distinguia, abrigadas nas belas ramagens outonais de tons verdes diversos, amarelos, laranjas e castanhos. Eram estridências, guizos e assobios delicados ou viris, mas sempre diferentes, dando eco aqui e ali a um apelo, um som encantatório, uma mensagem cruzada e secreta…
Junto aos meus pés, uma bola pequena de uma cor pungente de cereja, ela própria revestida por minúsculas bolinhas de aspecto quase aveludado. Caí em tentação, olhei a árvore donde provinha o fruto promissor: a árvore do medronho.
Sem pensar, ajoelhei-me, peguei delicadamente no fruto, percebi que estava limpo e pelo tacto, muito maduro… Num impulso de sofreguidão, desejei prová-lo. Com a língua, abri-o facilmente e descobri que estava, como parecia, maduríssimo. Suguei com fervor a polpa macia, de um amarelo alaranjado vivo. Sabia maravilhosamente bem, evitei comer a pele por prudência e ansiei por mais. Olhei para cima. Havia na árvore bolinhas de um vermelho apetitoso, lá no alto… E eu cheia de pressa, sem a possibildade de improvisar trepar pelo muro coberto de hera até à árvore esguia…
Prossegui a caminhada e nem me senti tonta, o efeito do álcool não deve aparecer no fim da estação…Ou será por só ter tido a ocasião de pecar tão pouco?
TR


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Balanço

Tenho recebido imensas mensagens de correio electrónico com perguntas diversas. Vou responder às cinco mais frequentes?
Como fazes para conseguir manter o blogue actualizado ao longo do dia?
Simples. Escrevo no comboio e em casa e onde calha. À noite passo os posts para o programa de edição, mas não publico todos, só alguns. Activo o sistema de publicação por telemóvel e, ao longo do dia, com uma simples sms publico os posts que estão editados para publicação. São as tecnologias no seu melhor!
Há mais textos sobre o comboio e o autocarro?
Isso nem se pergunta. Ultimamente tenho ouvido música para não me aperceber de tantas histórias porque não consigo acompanhar o ritmo a que acontecem e assisto, pois a escrita dá muito trabalho. Para escrever ou para passar para o blogue estão as seguintes: a mulher que queria estar em privado no comboio; a mulher que sofria da vesícula; a mulher que dizia palavrões; a mulher vampiro; elegância enlatada; o rapaz com cabelo espetado; o casal desigual; doenças a bordo.
Tudo isto será aqui publicado, só não sei quando!
Como vai o romance “De Negro Vestida”?
Vai bem. Já tem 50 capítulos publicados como sabem e já estão mais 11 escritos que falta passar e publicar. Começa a caminhar para o fim embora ainda falte um bocado. Não publico mais porque dá muito trabalho passá-los do manuscrito para o processador de texto e depois para o blogue.
Onde vais buscar as citações?
Umas são-me ditas em conversas. Outras oiço na rua ou nos transportes, outras retiro de e-mails que me escrevem e outras emergem das minhas leituras.
Como é que tens tempo?
Durmo pouco! Mas não me arrenpendo. Apesar de gostar de dormir, detesto a ideia de desperdiçar vida dormindo. Prefiro viver. Durmo entre 6h e 1,5h. por noite.
Nota: a escrita é maravilhosa e viciante, mas dá, efectivamente, muito trabalho! Boas leituras.


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Histórias do Autocarro 28 – A vida dela em 20 minutos

A vida dela em 20 minutos

O autocarro 28 que liga o Restelo à Portela e volta anda a surpreender-me.

Será possível conhecer a vida privada e íntima de uma pessoa entre a Av. Infante Santo e Santa Apolónia num percurso que demora entre 20 e 30 minutos?

Claro que sim. Desta vez havia pouco trânsito, não chovia, logo, a coisa foi breve. Vinte minutinhos apenas. Tinha uma voz serena e um olhar tranquilo. O telemóvel pendurado ao pescoço, um fio para onde falava e outro com phones por onde ouvia. Assim que entrou, a geringonça apitou e a conversa começou. Falava olhando para a rua como se estivesse a conversar com o vidro. Não sei se chegou a aperceber-se de como se estava a expor, mas ficámos todos a saber o seguinte:

– Estado civil.
– O que pensa do ex-marido e família.
– De como o processou.
– Porque o processou.
– Que indeminização espera.
– Quantos filhos tem.
– Como se chamam.
– Porque não quer de novo homens na sua vida.
– Que companheiros tem.
– Como se encontra com eles.
– Onde se encontra com eles.
– Como se chama a pessoa que propicia os encontros.
– Onde vai estar no próximo fim-de-semana.
– Com quem vai estar no próximo fim-de-semana.
– O que pensa da vida.
– Como pensa que as pessoas se devem comportar umas com as outras.
– O que pensa da amizade e o que vale para si.

Tudo enquanto falava com, e cito, “O cota mais curtido que existe” que, também se soube, era seu tio e se chamava… sim ela disse!

jpv