Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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"A Maior Flor do Mundo" por José Saramago

Agradeço, desde já, a uma leitora deste cantinho e muito especial amiga, o ter-me revelado esta pérola.
De toda a narração realço uma frase genial:
“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?”


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A prima nova

Eu habito um clã. Tem as características de qualquer clã. Para mim só é especial porque é o meu. São as minhas pessoas. E não fujo a esse sentido de posse.
Este fim-de-semana recebemos uma prima nova. Não, não é dessas primas novas que usam fralda e choram e fazem ó-ó em vez de dormir e chegaram numa chegonha que as trouxe de Paris de França. É mais velha. Sendo nova. Enamorou-se por um simpático e garboso encalhado do clã cujo principal mistério era, até ao momento, o de estar encalhado. E chegou. E é nova para nós. Não sei bem se é prima. Acho que não. Acontece, porém, que em Portugal os primos não são os únicos primos. Há este saudável hábito de chamar primo a pessoas que tenham uma relação familiar difusa, próxima mas distante, e quando não sabemos muito bem como as classificar, e vai disto, é prima. Ou primo. Para perceberem a coisa, esta prima nova, em abono da verdade, é namorada do filho dos pais do marido da irmã da minha mulher. Mais coisa, menos coisa.
É corajosa. No mesmo fim-de-semana conheceu 10 de nós mais o encalhado que ela já conhecia, mas fora de contexto. Chegou com graciosidade no olhar, simpatia no sorriso, delicadeza no andar, e uma fragilidade feita força que lhe atravessa o timbre feminino da voz. Chegou sabendo que quem chega há-de ocupar espaços e ter lugares e há-de passar a contar e chegou sabendo, também, que a olharíamos, que falaríamos com ela, perguntas, muitas perguntas, e que brincaríamos com ela, pequenas provocações, palavras ousadas a tentear a fibra da prima. E teve-a. A fibra. Aliás, estou a dar-me ao trabalho de escrever umas linhas sobre a prima nova por uma rzão simples. Quando acontecem estes momentos iniciáticos, estas primeiras fusões de afectos, as coisas podem correr melhor ou pior, mas, normalmente, perde-se a naturalidade. Ora, esta prima nova foi sempre singela e natural. Nunca se defendeu. Não quis marcar terrenos porque marcados estavam. E não ensaiou medições inúteis do que não é mensurável: o como estamos uns com os outros.
Esteve tão natural e tão integrada que nos arrancou a nossa naturalidade e genuinidade sem grande esforço. Quando se depediu de mim disse “Gostei muito de vos conhecer” e foi-lhe respondido “Nós também gostámos muito de te conhecer” mas o interessante é que não era bem isto o que eu estava sentindo. Era algo para além disto. Era algo mais parecido com “Ainda agora te conhecemos e parece que já te conhecemos há muito”. E foi esta harmonia a mais interessante de todas as coisas. Isso e o desencalhar do primo!
Eu, que percebo pouco de pessoas, arriscaria, acerca desta prima, uma paráfrase de um anúncio velhinho: veio para ficar e ficou mesmo!
Bem-vinda, prima.